Coragem tribuneiros, o dever parece nos chamar.... Camarada Vini,
Verdadeiramente essa história de samba e pagode é um grande engodo. Funciona assim: existe no Brasil uma elite cultural que se apropriou da cultura popular desse país desde os tempos de Villa-Lobos, que prestou serviços memoráveis ao fascismo getulista. Este Maestro Heitor tornou obrigatório o aprendizado de "Canto Orfeônico" em todas as escolas brasileiras. O Conselho de Intelectuais que referendou o Estado Novo (com Gustavo Capanema, Oswaldo Cruz, Villa, Niemeyer e Portinari, entre outros). Em termos gerais, neste período, investiu-se na formação de uma "elite capaz de comandar a nação". Mas a estrutura da propaganda oficial tinha planos ambiciosos para a cultura popular, especialmente o samba, gênero preferido do emergente operariado urbano. Já em 1935 a Prefeitura do Distrito Federal decidiu pela estatização do Carnaval, organizando e ditando as regras de como deveria ser a "festa popular", regulamentando os desfiles das escolas de Samba. Em 1937 um decreto constitucional impunha o caráter didático às escolas de Samba e aos ranchos, que deveriam abordar temas nacionais e patrióticos. Ações do governo procuram fazer do samba um gênero bem-comportado. Ao invés de proibí-lo como se fazia no início do século, Vargas passou a apoiá-lo. Claro que, com isso, incorporando-o aos interesses da elite condutora. O samba perdia seu caráter de resistência e passava a assumir um estilo de exaltação ao trabalho e aso valores defendidos pelo Estado Novo. A malandragem deveria estar de fora. O outrora malandro Wilson Batista compôs a célebre letra pelega de "O Bonde São Januário" e ganhou uma aposentadoria em uma autarquia federal. Pixinguinha também compôs sambas que exaltavam o Estado Novo, como "Salve 19 de Abril", com Benedito Lacerda, cuja letra é um fenômeno de puxa-saquismo político. A coisa se complicou um pouco mais após a criação do MIS, em 1965, em plena Ditadura Militar, pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda. O MIS, de fato, foi o organismo apropriativo da Cultura Popular, um verdadeiro donatário. Pelas linhagens de pesquisa do MIS, muito daquilo que pode ser definido como padrão para a cultura popular, especialmente a música se definiu aqui. Para o MIS, música popular é , principalmente, aquela ligada essencialmente à tradição e, consequencia do encabeçamento ditado por Ricardo Cravo Albim, à modernidade. Entenda-se: Djavan é modernidade, é "boa arte popular". Monsueto é "tradição", também "boa arte popular popular". Já Agepê não se liga à estes rótulos. Faz sua arte pura e simples e - pior de tudo - faz sucesso. Nada é mais cafona do que o sucesso. A "elite capaz de comandar a nação" ( a mesma de 7, 8 décadas atrás) continua dona daquilo que julga ser a verdadeira cultura popular. Diante disso, nos anos 80, com uma nova geração de sambistas ganhando razoável espaço e conquistando setores do zé-povinho foi necessário que se criasse um rótulo mais simples pra definir aquilo que era a arte popular cuja obra é propriedade exclusiva de uma elite intelectual e aquela outra que o povão insiste em escutar pedir nas rádios. Vejam o diálogo: "Vamos chamar a música do Fundo de Quintal, do Agepê, do Benito, do Jorge Aragão, do Agepê de um nome diferente. Não quero falar para os meus amigos que escuto o mesmo gênero musical que minha cozinheira e meu motorista. Eu sou diferente. Tenho estirpe. Eu fico com o Brancura e o Alvaiade. Eles com Benito di Paula e Luiz Ayrão." "Mas, Dr. Fernandes, é tudo samba!!" "Não...Tudo samba não. Eu escuto samba. Eles escutam outra coisa. Depois a gente pensa no nome". "Dr. Fernandes, que tal chamar o samba que tocar no rádio da Marinalva de pagode?" "Pagode?? Bom nome. Passa uma impressão ruim, de pobreza..." "Ok, fechado. Amanhã coloco na minha coluna no jornal." E foi assim que ficou. Abs, Eugenio "Que me perdoe se eu insisto nesse tema. Mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o amor. Se o quadradismo dos meus versos vai de encontro aos intelectos que não usam o coração como expressão" Em 21/02/08, vini correia<[EMAIL PROTECTED]> escreveu: > Olá pessoal da tribuna, desculpe minha ignorancia sambistica, mas tenho uma > dúvida e gostaria de saber qual a diferença entre samba e pagode!! Alguém > pode me ajudar? > > segue abaixo alguns comentários que ouvi pelas ruas e bares, mas ainda não > foram suficientes para se chegar a uma conclusão: > > - "Samba é raiz. Pagode é praga." > > - "a grafia e a pronúncia, mas tem que prestar bastante atenção" > > - "É o mesmo que comparar Funk Carioca com Funk de verdade" > > - "antes de tudo, é necessário convivência com o samba. Escute vários > autores, mergulhe em rodas de samba, ouça muitas gravações, entre no > universo de Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Candeia, Donga, > Ismael, Noel, Ary Barroso, Geraldo Pereira, Ataulfo, Chico Buarque, Ivone > Lara, Monarco, João Nogueira, Martinho, Adoniran, Vanzolini, Wilson Batista, > Caymmi, Elton Medeiros, Baden Powell, Wilson Moreira, Nelson Sargento, Paulo > Cesar Pinheiro e mais um enorme etc. > Mais do que diferenças técnicas, > formais ou estilísticas, você vai sentir diferenças culturais. Isso não > acontece à primeira audição, para quem está "começando a ouvir". Estes nomes > criaram, estilizaram ou desenvolveram formas de expressão que entrelaçam uma > profunda identificação com os elementos fundamentais do samba (ritmo, > harmonia, melodia, letra, instrumentação) com a criação individual, a visão > do artista. Os resultados são muito diversos, há muita riqueza de detalhes a > conhecer. > O chamado pagode efetua uma diluição destes elementos, > banalizando letras e procedimentos musicais, visando muito mais um resultado > comercial imediato do que uma necessidade íntima de expressão (ou coletiva, > de identidade cultural). Não há grandes autores no pagode, poetas notáveis > ou compositores inspirados. As letras parecem com as de duplas breganejas. > Não há inovações sonoras, mas descaracterizações, misturas aleatórias. > Busca-se a imitação de modelos midiaticamente bem sucedidos, e não um > reconhecimento da comunidade de onde vieram. Por isso diz-se também que são > diferentes do samba "de raiz", são desenraizados, aculturados. Repetem-se, > musical e poeticamente, até a exaustão. Tendem ao desaparecimento, em pouco > tempo. "" Daniel Brazil (site samba choro) > _______________________________________________ > Para CANCELAR sua assinatura: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela > Para ASSINAR esta lista: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina > Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta > _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
