Pessoal,
Acho muito perigoso esse papo de "verdadeira música popular" como um recurso
apenas para se contrapor ao que a intelectualidade e as elites nacionalistas
apoiam.
É verdade que a Música Popular Brasileira, como ela se concebeu a partir da
fusão dos grupos ideológicos da Bossa Nova e dos Centros Populares de Cultura
nos festivais da canção em 1965, se tornou predominantemente de classe média,
universitária etc..
Mas vejo muita demagogia e muita hipocrisia quando as pessoas chamam de
"verdadeira música popular" essas coisas grosseiras como Exaltasamba, Bruno¨&
Marrone, Daniel, Tati Quebra-Barraco, Asa de Águia, Banda Calypso, só porque
seus membros tiveram, em tese, origem pobre, ou porque caem mais facilmente na
"boca do povo".
Primeiro, isso é uma visão elitista, que ganha facilmente o apoio dos
veículos da grande mídia, que é associar a idéia de "cultura popular" ao
grosseiro, ao pitoresco, ao aberrante. A história de nossa cultura comprova, em
dados concretos, que a cultura popular nunca esteve associada ao grotesco. O
sambe de roda que os escravos faziam tinha inteligência, espontaneidade, arte,
dignidade, mesmo quando fazia brincadeiras maliciosas. Já o "pagodão"
pós-Tchan, que tenta se vincular à falsa idéia de um "novo samba de roda", é
milimetricamente calculado pelos seus empresários.
Muito dessa música brega-popularesca que está aí, associada à "verdadeira
cultura popular" de que falam Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Milton Moura
(UFBA), Regina Casé, Patrícia Pillar e outros entre ingênuos ou oportunistas,
na verdade pouco têm a ver com a verdadeira cultura popular. Sejam os bregas
"de raiz" tipo Waldick Soriano e Odair José, sejam os grotescos explícitos tipo
Banda Calypso e Tati Quebra-Barraco, sejam os pedantes pseudo-MPB e altamente
canastrões tipo Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Zezé Di Camargo &
Luciano e Grupo Revelação, todos eles não passam de pupilos dos executivos da
grande mídia, símbolos desse populismo televisivo e radiofônico que contou com
o apoio mais do que explícito dos mais reacionários políticos de direita, como
Fernando Collor, Renan Calheiros, Antônio Carlos Magalhães, etc..
Isso sem falar que o sucesso "espontâneo" dessa "verdadeira música popular"
se deveu, e muito, pela decisiva farra de concessões de rádio e TV de ACM e
Sarney para políticos e empresários aliados aos dois, nos anos 80. Se não fosse
essa falcatrua toda, ao invés de termos Alexandre Pires e Belo como grandes
ídolos, teríamos Wilson Simoninha e Pedro Luís. Ao invés de termos Ivete
Sangalo ou Cláudia Leitte, teríamos, por exemplo, Roberta Sá como nossa diva
maior.
Bom, é isso. Abraços a todos.
Alexandre Figueiredo
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