Matéria de Teresa Albuquerque, no caderno Diversão&Arte do jornal
Correio Braziliense de hoje, 29  de julho, abaixo transcrita, trata
do novo cd do abençoado Wilson das Neves. São 13 faixas peças
compostas pelo Wilson das Neves e em  parceria com Paulo César
Pinheiro, Nelson Rufino, Nei Lopes, Arlindo Cruz, Delcio Carvalho,
Roque Ferreira e Vitor Pessoa.
 E fala de um filme  que será dirigido pelo Cristiano Abud e terá
como tema a vida e a obra do grande Wilson das Neves.
 Caio Tiburcio 
 Correio Braziliense
 Diversão&Arte
 A bênção, Das Neves
 Teresa Albuquerque
 Um dos maiores bateristas do Brasil, Wilson das Neves lança o
terceiro álbum como cantor e compositor, tem discos editados na
Europa e ganha documentário sobre sua trajetória
 Wilson das Neves já ouviu centenas de bateristas e até hoje não
sabe quem é o melhor. Não gosta desse papo de “mito”, de
“monstro”. Referência para bateristas de várias gerações, o
músico de 74 anos, que já gravou com mais de 600 artistas, recusa
até o título de mestre. “Quanto mais a gente aprende, menos sabe.
Eu não sei nada”, afirma ele, que sempre que pode vai ver algum
colega tocar, inclusive os mais jovens, para aprender algo novo.
Modéstia? “Não. Isso é vivência. Você tem que saber que não
é melhor do que ninguém. A gente está aqui para isto: vir,
aprender, deixar alguma coisa e voltar para onde veio.” 
 Elegante, boa-praça, criador de um simpático bordão (“Ô,
sorte!”) e talentoso até dizer chega, Das Neves diz que nunca quis
tocar, não. A música é que se engraçou com ele. Também não
pensava em cantar, mas em 1996, aos 60 anos, lançou seu primeiro
disco como autor e intérprete, O som sagrado de Wilson das Neves. O
segundo, Brasão de Orfeu, saiu em 2004. O terceiro, Pra gente fazer
mais um samba, chega agora às lojas, pouco depois de ter sido
lançado na Europa. Pelas prateleiras de lá também pode ser
encontrado Que beleza, álbum do grupo Ipanemas que ele gravou em
1964 e acaba de ser editado em CD pelo selo londrino Far Out. 
 E tem mais: o mineiro Cristiano Abud está dirigindo um
documentário sobre ele, chamado O samba é meu dom. No filme, o
músico conta histórias de seus 56 anos como baterista profissional,
participando de orquestras e acompanhando nomes como Elis Regina,
Wilson Simonal, Roberto Carlos, Elza Soares… (a lista é enorme,
ele anota tudo). Com Elizeth Cardoso, por exemplo, começou a tocar
em 1973 e ficou até o fim (a Divina morreu em 1990). “Só posso
dizer o seguinte: Elizeth era ‘o’ cara. Ah, como eu queria que
ela estivesse viva para cantar minhas músicas… Ela e Jamelão”,
comenta o músico, que está na banda de Chico Buarque há 26 anos e
vive sendo reverenciado pelo patrão no palco. “É outro que é
‘o’ cara. Chico, Elizeth e Ney Matogrosso. Ô, sorte!” 
 DOM DIVINO 
 Nascido na Glória, no Rio de Janeiro, Wilson das Neves foi criado
ouvindo choro e as chamadas jazz bands, que tinham banjo, bateria e
trombone. “A música estava ali, nas festas da casa da minha tia, e
depois no candomblé. Eu tinha que ser músico mesmo”, constata ele,
que não teve nem pai nem avô instrumentista, mas se viu numa
família de irmãos bateristas (o mais velho já morreu; o mais novo
mora na Bélgica). Nenhum de seus filhos (ele teve quatro, dois
faleceram) e netos (são quatro) seguiu na música. Quem sabe João,
o bisneto… “Não forço ninguém a nada. Cada um tem seu dom.” 
 Para Das Neves, que começou aos 14 anos, incentivado por Edgar
Nunes Rocca, o Bituca, e aos 18 já era profissional, música é algo
divino mesmo. “Foi ela quem me escolheu.” Ele diz que não
planejou nada. Começou a compor em 1973, mas não mostrava as
melodias para ninguém. Até que um dia foi convencido por Paulo
César Pinheiro e ganhou seu primeiro parceiro. Com Pinheiro, fez
mais de 60 músicas. Todas assim: ele grava as melodias em
fitas-cassetes, na base do “lalalá”, depois ajeita com o
cavaquinho, e manda para os parceiros fazerem a letra. 
 Falam bastante de sua batida, muitos a reconhecem de imediato, mas
ele diz que é só porque está há mais tempo na praça e gravou
muito. “As pessoas se acostumaram comigo”, justifica. “Batida
é uma coisa natural. Ninguém toca igual a ninguém. Cada um tem sua
jogadinha, sua ginga, seu suingue”, garante o sambista, que já
gravou de tudo quando era baterista contratado de gravadora —
inclusive o primeiro disco de rock de Roberto Carlos — e desde 2003
sobe ao palco ao lado dos meninos da Orquestra Imperial. “No meio
daquela juventude, eu me sinto um garoto. Eles têm o maior carinho
por mim e eu adoro eles.” 
 Um pouco dessas histórias, Das Neves vem gravando em fitas-cassetes
para, quem sabe, um dia sair num livro. “Vou me lembrando das coisas
e contando lá. Falo de como comecei, de casos engraçados, das minhas
avôs, da minha bisavô.” Ele era o xodó da bisavó materna, que
morreu aos 116 anos. “Não quero isso tudo pra mim, não, porque
aí você começa a ficar chato, né? Se bem que minha bisavó era
muito boazinha”, ri. “Chegar aos 90 e poucos está bom. Quero ver
os bisnetos andando por aí.” 
 1 - O NOVO DISCO 
 Pra gente fazer mais um samba tem 13 faixas compostas por ele em
parceria com os letristas Paulo César Pinheiro, Nelson Rufino, Nei
Lopes, Arlindo Cruz, Delcio Carvalho, Roque Ferreira e Vitor Pessoa.
A mais recente é de um ano atrás; a mais antiga, Folha no ar, da
década de 1970. Como escolheu o repertório? “Ah, gosto de todas
as músicas que faço. Então é só meter a mão no saco e tirar
umas (risos).” 
  Eu conhecia Wilson das Neves dos discos, reconhecia de cara sua
batida, vez por outra o peruava através do vidro de estúdios de
gravação. Hoje não subo ao palco sem ele. Ele é o pulso da banda,
termômetro, técnico do time, rei da anedota e pajé” 
  Chico Buarque
 No cinema
 Cristiano Abud, diretor do documentário O samba é meu dom,
conheceu Wilson das Neves em 2009, apresentado pelo produtor
Alexandre Segundo. Na mesma hora, se interessou em fazer um filme
sobre a vida e a obra desse carioca, que o encanta cada vez mais.
“Ele é sensacional”, elogia o cineasta. “Além de ser um
frasista genial — é o nosso Otto Lara Resende do samba —, e da
sabedoria com que leva a vida, tem um talento fora de série. É
impressionante o respeito que os músicos têm por ele. Só vendo ao
vivo, in loco, para entender a dimensão disso.” Cristiano já
filmou uma longa entrevista com o músico em Belo Horizonte e
acompanhou a gravação do terceiro CD. Até o fim do ano, quer
reunir Das Neves e seus parceiros tocando e conversando num estúdio.
O longa-metragem tem lançamento previsto para 2011. 

http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_1.htm
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