É muito grave, e merecia mais atenção, a descoberta do técnico Sérgio 
Freitas da Silva durante os testes de segurança no TSE.

O técnico demonstrou que as urnas eletrônicas são vulneráveis à técnica 
de ataque chamada de "Van Eck Phreaking", ou seja, que  há vazamento de 
radiação eletromagnética do teclado das urnas e que, se capturado com 
recursos certos, permitiria a identificação das teclas digitadas durante 
a votação.

Apresento a seguir, um breve histórico e uma análise das possiveis 
consequências.

1) Breve Histórico

10/11/2009 -
No primeiro dia dos testes de segurança no TSE, o técnico Sérgio Freitas 
da Silva, sem representar nenhuma entidade e usando recursos precários, 
consegue detectar vazamento de ondas eletromagnéticas do teclado das 
urnas eletrônicas.
A tarde o TSE publicou uma nota a respeito:

"Termina o primeiro teste de segurança na urna eletrônica"
http://agencia.tse.gov.br/sadAdmAgencia/noticiaSearch.do?acao=get&id=1251459

informando o sucesso do ataque mas, talvez prevendo que a coisa era 
muito grave, tentou atenuar a importância chegando a dizer que só este 
fato não permitiria identicar votos, sendo necessário invadir também o 
sistema de identificação dos eleitores, e que a solução por blindagem 
seria simples.

11/11/2009 -
para rebater a desinformação da nota do TSE, publicamos, no Fórum do 
Voto-E uma mensagem:

"da série Operação Pinnochio - 3"
http://br.groups.yahoo.com/group/votoseguro/message/4316

informando que a descoberta permitiria violação do voto, não sendo 
necessário violar o sistema de identificação, e ainda que a solução 
seria muito custosa passando pelo reprojeto e troca de todas as urnas.

13/11/2009 -
O presidente do TSE indefere pedido do PDT para suspender a licitação 
TSE 076/2009 para compra de 250 mil novas urnas eletrônicas.
O pedido de suspensão era para que o projeto das urnas pudesse ser 
corrigido para adaptá-las a exigências da lei eleitoral.

20/11/2009 -
o TSE publica a nota:

"TSE encerra testes do sistema eletrônico premiando melhores contribuições"
http://agencia.tse.gov.br/sadAdmAgencia/noticiaSearch.do?acao=get&id=1255520

comunicando a premiação do técnico Sérgio Freitas da Silva por sua 
contribuição mas sem alertar para a gravidade do problema.

Logo em seguida, o portal IDGnow publicou matéria do jornalista 
Guilherme Felitti que entrevistou o próprio Sérgio e outros especialistas:

"Perito quebra sigilo e descobre voto de eleitores em urna eletrônica do 
Brasil"
http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/20/perito-quebra-sigilo-eleitoral-e-descobre-voto-de-eleitores-na-urna-eletronica/

Esta matéria tornou-se muito importante e a repercursão na Internet teve 
início.
Apresenta o nome genérico da técnica de ataque - "Van Eck Phreaking" - e 
aponta os vídeos onde a técnica foi apresentada há um ano atrás, já 
adaptada para leitura remota de teclados de computador por Martin Vuagnoux:

Compromising Electromagnetic Emanations of Keyboards Experiment
http://vimeo.com/2007855
http://vimeo.com/2008343

A pós-graduanda brasileira Jean E. Martina, radicada em Cambridge, posta 
ter abordado o tema dois anos antes:
http://jeanmartina.blogspot.com/2007/11/how-to-cheat-in-brazilian-elections.html


21/11/2009 -
O portal Globo publica a matéria:

TSE vai investigar email falso sobre violação de urnas eletronicas
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/11/21/tse-vai-investigar-email-falso-sobre-violacao-de-urnas-eletronicas-914868176.asp

seguindo a linha do TSE de atenuar a gravidade do caso.

Mas a repercussão na Internet, com declarações e contra-declarações, e a 
crescente preocupação do TSE revelada pelas repetidas intervenções 
procurando diminuir a importância do evento, dão a entender que a coisa 
é grave.


2) Aspectos legais

O sigilo do voto é condição fundamental do processo eleitoral e tem a 
caraterístiva de ser irreversível, o que o diferencia dos demais sigilos 
legais como o telefônico, o bancário, etc.

O Art. 103 do Código Eleitoral define os procedimentos de garantia do 
sigilo do voto na votação manual. Não havendo lei com função similar 
para o voto eletrônico, a cada eleição o TSE emite instrução onde 
simplesmente decreta que o sigilo do voto é garantido pelo uso de suas 
urnas eletrônicas.

A última versão deste decreto está no Art. 43 da Resolução TSE 22.712 de 
2008:

“Art. 43. A integridade e o sigilo do voto são assegurados mediante o 
disposto no art. 103, incisos I a IV, do Código Eleitoral, devendo ser 
adotadas, também, as seguintes providências:
I – uso de urna eletrônica e, se for o caso, de cédulas específicas;
II – uso de sistemas de informática exclusivos da Justiça Eleitoral, 
programados para o registro digital de cada voto. ”

Mas agora, com a descoberta do Sérgio Freitas, fica demonstrado que, 
tecnicamente, as urnas eletrônicas do TSE não garantem o sigilo do voto 
por mais que a autoridade eleitoral use seu poder para decretar o contrário.

Como será em 2010?
O administrador eleitoral vai simplesmente passar o rolo compressor e 
baixar novo decreto autoritário, ignorando a falta de garantia do sigilo 
nas suas urnas?


3) Compra de 250 mil urnas

Está em pleno andamento no TSE uma licitação 076/2009 para a compra de 
250 mil novas urnas-e.
O projetos dessas urnas não foi adaptado para uma eventual solução da 
fragilidade agora revelada. As 250 mil novas urnas continuarão com a 
mesma falha de segurança que, a rigor, desrespeita a lei por não 
garantir o sigilo do voto.


4) A volta do voto de cabresto

Em 2008 o TRE-RJ teve que desenvolver uma campanha publicitária 
específica para rebater os boatos que as "milícias" vinham divulgado de 
que poderiam identificar o voto dos eleitores nas urnas eletrônicas.

Este tipo de problema vai recrudescer em 2010. O estrago já está feito e 
é ireverssível.
Agora os coatores tem até videos na internet e nome pomposo para técnica 
de ataque que dirão dominar.

Não se sabe como a questão vai se resolver nas cabeças dos eleitores 
coagidos. Irão acreditar no desmentido da autoridade eleitoral ou, por 
via das dúvidas, irão aceitar a coação?

O fato é que as próximas eleições sofrerão este ataque: o 
voto-de-cabresto-eletrônico.


5) Outras soluções

Em 2007, a Subcomissão do Voto Eletrônico da Câmara dos Deputados 
divulgou relatório onde propunha ao adminstrador eleitoral a adoção de 
sistema de voto escaneado, que tem sido adotado ma maioria dos países 
que vem adotando o voto eletrônico.

A proposta foi formalmente rejeitada em 2009 pela autoridade eleitoral, 
mas seria uma solução definitiva para o problema do teclados das urnas, 
pois o sistema não depende de teclado para se escrever o voto.

[ ]s

   Eng. Amilcar Brunazo Filho - Santos, SP
   www.votoseguro.org
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