O prof. Pedro Rezende (UnB), também acaba de divulgar um artigo sobre os 
testes de segurança das urnas eletrônicas.

Está em:
http://www.cic.unb.br/~pedro/trabs/penetracao.html

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    Devagar com o andor da urna

Comentários sobre testes de penetração no TSE e de sua cobertura midiática


Professor Pedro A. D. Rezende *
Departmento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
29 de novembro de 2009

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      Versões e versões

Noticias recentes sobre a iniciativa do TSE em premiar os melhores 
testadores da urna eletrônica poderiam, se quisessem os autores, melhor 
informar o eleitor. Ao eleitor que quer mesmo eleições limpas, pouco 
importam questões paralelas, como a sujeira permitida em ficha de 
candidato, ou a opinião pública sobre a segurança do sistema de votação. 
Tais questões pouco importam se outras sujeiras puderem ser varridas 
para debaixo do dogma de um sistema inatacável. Sistema confiável por 
decreto ou por teatro, e dogma abraçado por ingênuo ufanismo.

No dia da premiação, 20/11, o TSE divulgou nota oficial 
<http://agencia.tse.gov.br/sadAdmAgencia/noticiaSearch.do?acao=get&id=1255520> 
[1] com avaliação do ministro vice-presidente, que coordenou os testes. 
Cinco dias depois, sobre a conclusão do ministro a nota oficial dizia 
que os testes "podem levar o Tribunal a reforçar, ainda mais, alguns 
pontos do sistema". Nela o ministro frisa, entre aspas: "Mas o sistema 
mostrou ser seguro, porque foi testado por pessoas do mais alto gabarito 
técnico de todo o Brasil". Aí, cabem perguntas. Para que o "ainda mais" 
se o sistema, assaz oneroso, já estaria seguro? E por que o "Mas"?

Talvez porque a nota oficial tenha sofrido retoques. Ao que tudo indica, 
nela trocou-se depois um "absolutamente" por esse "Mas". Pois logo à sua 
divulgação, muitos portais na web frisavam um ministro quiçá mais 
eufórico: "O sistema demonstrou ser absolutamente seguro porque foi 
testado por pessoas do mais alto gabarito técnico de todo o Brasil". A 
nota oficial do TSE não deixa rastro direto de versões anteriores, nem 
no seu próprio arquivo nem na wayback machine, mas é só googlar com as 
aspas para se ter um rastro indireto da primeira: 318 páginas citando in 
verbis, absolutamente, a versão inicial da nota oficial, de 20/11. Até 
na mídia corporativa, como o Globo 
<http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1386429-5601,00-TSE+PREMIA+HACKERS+QUE+DERAM+CONTRIBUICOES+PARA+O+SISTEMA+ELEITORAL.html>
 
[2] e a Folha 
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u655263.shtml> [3].


      Devagar com o andor

Alguns desses veículos, como o portal IDG Now 
<http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/20/perito-quebra-sigilo-eleitoral-e-descobre-voto-de-eleitores-na-urna-eletronica>
 
[4], foram até criativos. A matéria do IDG diz que os testadores eram 
"especialistas convocados pelo TSE". Mas o IDG foi criativo demais. Para 
a sua matéria foi ouvir o maior premiado, sem censura. Noutras aspas, o 
que frisou ali o premiado expôs contradições que podem ter provocado 
esta, digamos, derrapagem com o andor do santo byte 
<http://www.cic.unb.br/%7Epedro/trabs/santobyte.html> [5]. Contradições 
expostas, o IDG não quis ficar com pecha de leviano e foi ouvir 
novamente o TSE, três dias depois. Para (também) retocar sua matéria, e 
nela incluir:

"Procurado pela reportagem, o TSE confirmou que, ao contrário do que 
havia confirmado anteriormente 
<http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/18/tse-exalta-acao-de-hackers-nas-urnas-mas-descarta-teste-promovido-pela-web/>
 
[6], quando disse que nenhuma estratégia de ataque havia tido sucesso, 
que o teste de Sérgio foi bem sucessido (sic), mas fez ressalvas."

Aí, volta à cena o maior cartel midiático do país, defendendo seu cacife 
no jogo da eleição-como-espetáculo, do eleitor-como-espectador (nunca 
como fiscal da contagem de votos). Encilha o premiado e lhe pesca com 
aspas, as quais o expoem pedalando para trás, perante o maior público. A 
estratégia de ataque de Sérgio Feitas, baseada na técnica conhecida como 
"Van Eck Phreaking", teria tido sucesso só "teórico" 
<http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/11/21/tse-vai-investigar-email-falso-sobre-violacao-de-urnas-eletronicas-914868176.asp>
 
[7] Absoluta ressalva, da qual o IDG segue se defendendo 
<http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/24/perito-premiado-esclarece-teste-de-seguranca-com-urna-eletronica/IDGComment_view?id=11713&start:int=0>
 
[8]. E você? Entenda: nesse teatro, os reais significados de 
"convocado", de "mais alto gabarito", de "sistema seguro", de "ataque só 
teórico" e outros, não são aqueles que saltam logo à mente do leigo 
nesse enredo faz-de-conta.


      Vocação cívica

Convocados, talvez treze; mas não por lhes ser mandada uma ordem 
judicial, como aos mesários nas sessões eleitorais. Dos vinte 
"especialistas" (e não 32 ou 37) que aceitaram as regras e apareceram 
para testar ataques pré-autorizados, nenhum deles apresenta histórico de 
sucesso anterior em ataques de adulteração de software. Treze deles são 
funcionários públicos, técnicos escalados pelo chefe que atendera por 
telefone algum pedido nesse sentido. Pois com o sufoco do prazo de 
inscrição vencendo, e apenas um interessado submetendo-se às regras 
impostas, a saída foi adiar o prazo, culpar a greve dos correios, e 
partir para a criatividade. Convocação, digamos, cívica.

Especialistas do mais alto gabarito, mas, não no sentido técnico. Talvez 
nalgum sentido cívico, por terem aceitado substituir, de surpresa e sob 
inócuas condições, os partidos políticos que haviam solicitado 
autorização para efetuarem testes independentes, afastados pelas regras 
impostas. Sem direito de acessar ou compilar código fonte dos softwares 
(pois "foge ao escopo"), e sem tempo para conhecer detalhes de 
implementação do sistema, restava a esses técnicos -- imaginou-se -- 
tentar adulterar algum código executável, na busca de sucesso em ataques 
pré-autorizados. Porém, nenhum dos vinte tinha conhecimento suficiente 
em linguagem Assembly no modo protegido dos processadores da urna. 
Técnicos que ali não eram hackers, eram lamers "do bem."

Sistema seguro, mas, seguro para quem, e contra o quê? Quem quiser 
fraudar eleição não vai submeter-se às mesmas regras desse teste. Vai 
fugir para o escopo do tráfico de influências, em busca de fontes e 
acessos privilegiados. Vai, no processo, tocaiar-se em sorrateiros 
"puxadinhos". Desse jeito o sistema pode ser seguro, sim, para quem o 
controla. Seguro contra revelação de falhas, vulnerabilidades e 
eventuais penetrações, se todas as formas de penetrá-lo forem conhecidas 
dos controladores. Mas, no sufoco, o Sérgio foi convidado. E ele sabia 
da forma "Van Eck Phreaking". Van do quê? O inimaginado teste foi 
autorizado, e deu no que deu. Adeus, camuflagem da nudez hodierna do 
voto limpo-e-secreto. Ou não?


      Teoria e prática

O ataque foi, de fato, no campo teórico; o radinho AM-FM que o Sérgio 
usou no seu teste tinha que estar a meio palmo da urna para grampear 
remotamente -- com ajuda de um software analisador de frequências -- as 
teclas do voto digitado. E o que significa isto, na prática? Significa 
que uma maleta especializada, daquelas cuja foto foi usada -- com ajuda 
dos cartéis da mídia -- para detonar um diretor da Polícia Federal por 
excessiva competência, pode fazer mais <http://vimeo.com/2008343> [9]. 
Pode grampear votos à sorrelfa, de boas distâncias. Mas só no campo 
teórico? É o que diz crer o secretário de informática do TSE. Para o 
secretário, conforme declarações publicadas 
<http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/20/perito-quebra-sigilo-eleitoral-e-descobre-voto-de-eleitores-na-urna-eletronica>
 
[4], se o ataque fosse sério o Sérgio teria levado a maleta para o 
teste. Que depois deu meia volta, opinando que se tivesse levado não 
adiantaria 
<http://www.tse.gov.br/internet/eleicoes/arquivos/Comentario_TSE_INPE.pdf> 
[10].

Nessa forma de interação entre autoridades judiciais e cartéis 
midiáticos, eleitor significa ciberbobo 
<http://www.cic.unb.br/%7Epedro/trabs/entrevistaDM.html> [11]. Como se, 
para eleitor, escândalos do tipo painel do senado, ou da grampeagem 
indemonstrável sobre/de autoridades republicanas, fossem só telenovelas 
globais. Para os eleitores, na prática, uma teoria para sigilo e 
integridade do voto de passivos ufanistas, outra teoria para sigilo e 
veracidade da futrica de paranóicos ministros e intocáveis banqueiros. 
Para os eleitores, agora, identificação biométrica obrigatória, por 
atributos de forênsica criminal homologados pelo FBI, exigida em edital 
para compra de 250 mil novas urnas. Com as devidas portas de fundo no 
software, à guisa dos inevitáveis falsos negativos.

Isto para que os eleitores elejam políticos nos quais não confiam, os 
quais aprovam leis que ditam como as eleições devem ser controladas. 
Isso já desandou em revolução, em 1930. Pelo que cabe então perguntar: 
quem vai ter acesso a esse gigantesco cadastro bio-forênsico, quando, 
como, e para quê? Se a resposta for só teórica, cabe ainda uma última 
pergunta, só teórica por enquanto. Para onde caminha essa democracia?  
Aos que quiserem ouvir, encerro com uma visão. A julgar por onde 
caminham outras, e pelos sinais dos tempos, rumo a um governo 
subterrâneo, concentrador e finalmente -- na tribulação -- global e 
tirânico. Para os que ficarem, após o arrebatamento da Igreja de Cristo.


      Referências

[1]- 
http://agencia.tse.gov.br/sadAdmAgencia/noticiaSearch.do?acao=get&id=1255520
[2]- 
http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1386429-5601,00-TSE+PREMIA+ 
HACKERS+QUE+DERAM+CONTRIBUICOES+PARA+O+SISTEMA+ELEITORAL.html
[3]- http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u655263.shtml
[4]- 
http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/20/perito-quebra-sigilo-eleitoral-e- 
descobre-voto-de-eleitores-na-urna-eletronica
[5]- http://www.cic.unb.br/~pedro/trabs/santobyte.html
[6]- 
http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/18/tse-exalta-acao-de-hackers- 
nas-urnas-mas-descarta-teste-promovido-pela-web/
[7]- 
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/11/21/tse-vai-investigar-email-falso- 
sobre-violacao-de-urnas-eletronicas-914868176.asp
[8]- 
http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/24/perito-premiado-esclarece- 
teste-de-seguranca-com-urna-eletronica/IDGComment_view?id=11713&start:int=0
[9]- http://vimeo.com/2008343
[10]- 
http://www.tse.gov.br/internet/eleicoes/arquivos/Comentario_TSE_INPE.pdf
[11]- http://www.cic.unb.br/%7Epedro/trabs/entrevistaDM.html

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* O Autor

Pedro Antonio Dourado de Rezende é matemático e professor concursado no 
Departamento de Ciência da Com­putação da Universidade de Brasília. 
Membro do Conselho do Ins­tituto Brasileiro de Política e Direito de 
In­formática, ex-membro do Conselho da Fundação Softwa­re Li­vre América 
Latina, e do Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas 
Brasileira (ICP-BR), en­tre junho de 2003 e fevereiro de 2006, como 
representante da Sociedade Civil. 
http://www.­cic.unb.br/docentes/pedro/sd.php

*Direitos do Autor*
Pedro A D Rezende, 2008:
Este artigo foi produzido para publicação a convite no portal de 
notícias da UnB, e publicado no portal do autor sob a licença disponível 
em http://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.5/br



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