Bom, como sou uma alminha boa, que fica melhor depois de uma elogio do Sr.
Favinha, então dou minha contribuição para a ressureição do Beco.

Abaixo, em primeiríssima mão, a última crônica escrita com base no ENE -
Encontro Natalense de Escritores.







*                                                       COMEÇAR PELO FIM*

* *

* *

            Como o próprio título sugere, este foi o último parágrafo que
escrevi, apesar de estar usando-o agora, na esperançosa tentativa de melhor
compreender, e transcrever, o surpreso e novo raciocínio que passei a ter
sobre a assertiva acima.

"Começar pelo fim" foi um conselho proferido por Ruy Guerra durante o II ENE
-Encontro Natalense de Escritores. É a maneira por ele tida como mais eficaz
para escrever um texto literário. Ruy é cineasta e dirigiu filmes notáveis
como "Os Fuzis","Kuarup","Ópera do Malandro", "Estorvo", "Erendira" e
"Veneno da Madrugada", estes últimos obras de Gabriel Garcia Márquez, de
quem é amigo pessoal. É escritor e compositor ao lado de ícones da MPB como
Edu Lobo e Chico Buarque.

A referida frase, usada como recomendação para dar fluidez a um texto foi
citada sem deixar de reconhecer sua autoria em Edgar Allan Poe, que a
utilizou num ensaio descritivo sobre o seu famoso poema "The Raven"
afirmando que a melhor maneira de escrever um poema é iniciá-lo pelo final.

Começar pelo final pode se configurar como uma opção que oferece múltiplas
possibilidades de desenvolvimento. Aplicável para inícios que tiveram meio e
finais difíceis, não seria, entretanto, um recomeço, posto que não haveria
repetição das ações já comprovadamente falhas; seria antes uma reinvenção,
um novo olhar sob um outro prisma. É uma máxima facilmente adaptável a
muitas situações em nossa vida fragmentária, classificável, empacotada,
quando a relatividade dos valores, sentimentos, percepções pode passar a
adquirir novas significações de acordo com mudanças circunstanciais.

Verdades simples e absurdamente desconhecidas podem ser captadas em momentos
como esses, de troca de conhecimentos. E dentre as novas verdades trazidas
por Ruy Guerra, o enaltecimento à maturidade (para não usar a melancólica
palavra "velhice") e seus inerentes frutos tais como a diminuição da
audição, visão, memória, entre outras habilidades comprovadamente limitadas
pelos que já adentraram as faixas dos 60/70 anos, foi o que mais chamou a
atenção. Sua leitura própria e positiva sobre o tema foi mais específica no
tocante à perda parcial da memória. Relatou Ruy que o que poderia ser
considerado negativo - pelo prejuízo do esquecimento - pode ser usado como
artifício para se reinventar a própria história de vida partindo do final no
qual nos encontramos e recriando um novo início e meio, desta feita até
mesmo mais feliz, haja vista poder ser criado ao bel prazer.

Como podemos perceber, a criatividade aliada à coragem dos que ousam fugir
aos padrões pré-estabelecidos, ao normal e aceito como verdade absoluta, é
uma nova arma não só para a composição de textos bem estruturados como para
o combate à mesmice, ao lugar comum. Uma oportunidade para reescrever e
revalorizar a própria história de vida. Começar pelo fim é viver com
esperança em dias melhores. É não repetir fórmulas equivocadas e receitas
simplórias. É acender a chama do desejo pelo novo, do anseio pelo
desconhecido, da saudável instigação e curiosidade que nos motiva a viver
com mais prazer.





Natal, 28 de novembro de 2007

   Ana Cristina Cavalcanti

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-- 
Crys

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