Táis certo, amigo Serrão. Vosmecê tem toda razão.
Pois se é assim, aí vai - trecho do que Papo é Esse?, à pág, 103:
No quem-me-quer da João Pessoa, anos 60, todos ficavam encostados nos
carros estacionados nos dois lados da rua a apreciar o movimento; desfilar,
ver, ser visto, paquerar - dizia-se à época, flertar, do inglês flirt. Era
mais um neologismo herdado do pós-guerra - como também aqueles que passavam nos
carros do ano; naquela época, como ainda hoje, relicários de prestígio e
realização pessoal. Havia paquera, gente bonita, desfile de figuras badaladas e
de todos os níveis possíveis; evidentemente, dentro dos padrões culturais da
Natal provinciana a despertar para os tempos pós-modernos. Breno Rela-buxo
Cabral, uma vez, para contestar e escandalizar a cidade alugou três carroças de
burro - com os carroceiros e tudo.
Em uma das carroças Breno colocou uma charanga a tocar músicas
carnavalescas. Ele, ao lado, bêbedo, barbudo, animando a folia e nas outras
duas reuniu várias figuras, inclusive prostitutas de Maria Boa e duas bichas do
bas fond, conhecidas, bem escrachadas, percussoras talvez das hoje prestigiadas
drag queens. Entre elas, eu me lembro, o famoso Nazareno, falecido
recentemente (Deus o tenha), que era veado, mas brigava com uma radio
patrulha inteira. Mesmo assim tinha o seu próprio código de honra e era pessoa
correta, de palavra, macho, no sentido do caráter em si. Este foi,
indubitavelmente, o Madame Satã da terra de Poty.
Nazareno possuía um bar chamado Pé do Gavião, à beira do Rio
Potengi, vizinho ao badalado Briza del Mare. O Pé do Gavião era uma opção
underground da província, - nós o descobrimos e assim o elegemos. Ali foi o
QG do Bloco de Breno e Cia.
Duruca o outro baitola, carismático, tinha uma voz
estridente, esganiçada - engraçadíssimo. Todo maquiado, os beiços todo
calabreado, batom vermelho (chocante), olhos pintados a la Little Richard.
Trabalhava no Vandebá (Wonder Bar), o mais famoso cabaré da Ribeira.
Pois bem, essa troupe desfilou várias vezes pelas ruas do
centro e cada vez que passava em frente à Ki Show, era um deus nos acuda, um
auê inolvidável. Aí, formava-se, ao longo do cotejo, a turma que aderia ao
bloco, acompanhando a pé, levados e embalados pela música contagiante.
Foi o happening de despedida na vida escrachada de Breno
Rela-Buxo, que a partir dali encerrou a sua carreira de presepeiro acho que
ele e Chico Miséria jamais se encontraram, porque aí seria o cúmulo de duas
energias formidáveis. A partir daí, Rela-Buxo se emenda e passa a ter uma vida
normal, com um trabalho importante no esporte amador da cidade. É hoje
competente instrutor de voleibol e professor de educação física, tendo sido um
dos principais mentores da sport star potiguar, Virna Dantas.
Se o comediante Jerry Lewis já foi citado como beat; neste caso,
Breno Cabral também merece a referência. Espero que ele não vá se ofender por
eu estar a citá-lo aqui, mas o que quero colocar é: as performances de Breno
foram demais.
Breno bancou essa turma - com os integrantes a se revezarem -
durante mais de uma semana, em uma farra só. Imaginem, todos badalando pelos
bares da cidade, dia e noite (à noite nas festas e depois nos cabarés)
desfilando em carroças de burro com som ao vivo.
Eu interpreto o acontecimento como uma paródia das famosas
farras que fazia um grupo seleto de empresários (e políticos) de Natal, entre
outros o engenheiro Roberto Freire - que era o mais rico, e foi uma das
primeiras pessoas da elite potiguar - ele e seu grupo - em optar entre alugar
um aeroplano para farrear em Fortaleza ou Recife, ou, por outro lado,
freqüentar os lugares mais inusitados de Natal, com as personagens mais
díspares. Eram beats e nem sabiam.
A performance de Breno Rela Buxo Cabral (a origem deste apelido
é outra zorra memorável) foi, indiscutivelmente, o primeiro desbunde beat
realmente emblemático em irreverência e ousadia. Beat porque, no cortejo,
estavam também alguns Ripes que curtiam uma zorra e beat porque era a coisa
de não estar atado a um mundo castrador, dizia-se à época. Era expandir até
quase o limite máximo sua parcela de liberdade, exercer o anarquismo em sua
gênese filosófica.
O seu feito foi - eu não tenho dúvida - o primeiro carnaval
fora-de-época da city dos Reis Magos.
Franklin Serrão <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
eu quero la saber de história de paulo macedo, nem de j. oliveira,
nem rodrigo levino. vai prá lá. abro sábado sim, vou abrir bem cedim. faça o
seguinte, me conte histórias do movimento ripe em natal, das esculturas de
jordão, de novinil, da galeria do povo, do festival do forte, de joão
gualberto. aí sim , eu escuto.
serrão.
Maurílio Eugênio <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
De nada. Ninguém tem obrigação de saber língua estrangeira...
Eu só tou podendo passar em sua loja no sábado. Vc abre ou não abre?
Responda, porra!
E a historinha sobre Paulo Macedo? Quer saber ou não quer?
Franklin Serrão <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
obrigado maurílio.
Maurílio Eugênio <[EMAIL PROTECTED]> escreveu: O cara apenas
aportuguesou a pronúncia, o que é o correto.
O Brasil talvez seja o único país que não fala as palavras estrangeiras com o
sotaque próprio. Em Portugal, por exemplo, o príncipe Charles é Príncipe
Carlos. Na França, nem se fala, que é o país com a maior consciência
nacionalista entre todos.
Portanto, spleen é splim mermo e acabou.
Esnobismo à parte...
E vosmicê, caro Serrão, não respondeu a todas as minhas perguntas, nem disse
se quer ou não saber a historinha sobre P. Macedo...
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