Caros, O Desidério gosta muito de apontar falácias na argumentação dos outros, mas não se dá conta das suas. A preferida dele é o Bulverismo. Ele não se cansa de explicar os mecanismos psicológicos pelos quais os incompetentes e imaturos são impossibilitados de pensar outra vez [como se pensar certo uma vez fosse pior que pensar errado duas]. E ele faz isso ao mesmo tempo que afirma não se poder saber quais eram as preocupações primárias dos filósofos mortos: então dos vivos se pode?
A resposta ao Desidério é muito simples: salvação, tal como usada pelo colega antes de mim e por Luc Ferry em O que é uma vida bem-sucedida, não tem um sentido exclusivamente cristão. [O sentido da vida para os gregos era o cosmo, a physis; para os cristãos, Deus; para os primeiros modernos, o sentido da vida devia ser procurado no próprio homem, ora racional ora sensível; depois o sentido foi buscado na história e em seguida na linguagem em sentido lato. Hoje enfrentamos uma crise de sentido, daí se falar não só da morte de Deus, mas do próprio homem, do sujeito, e de se escrever sobre o sentido do sentido e coisa parecida.] Mas a associação com a religião é óbvia. Apenas, a religião pode assumir várias formas, inclusive atéias, civis etc. Marx, ateu materialista, estava preocupado com quê, senão com a salvação? E Hume, o cético empirista, quando criou a ciência do homem? --Aliás, o mesmo Hume que mandava queimar livros de metafísica, dizia que um povo inteiramente privado de religião pouco difere dos animais. Não sei dizer se Kuhn tratou ou não do sentido da questão da salvação ou do sentido da vida etc., pois não conheço toda a obra desse pensador [com certeza se preocupava pelo menos com um tipo de salvação: o da "aberração" científica]. Mas digamos que ele seja uma exceção. Se todos os grandes filósofos, de Sócrates a Popper, tiveram uma preocupação soteriológica, como fica então Kuhn diante disso? É simples: se ele não faz o que os filósofos fazem, então não é filósofo. Ou o contrário: para quem a filosofia é o que o Kuhn, ou Carnap ou seja lá quem for, faz, então todos os grandes filósofos não eram... filósofos. Se me permitem uma indicação, o mesmo Luc Ferry, acima citado, escreveu um livro popular em que procura evidenciar a vocação soteriológica da filosofia: Aprender a viver. -- Mandar estudar é outra falácia muito praticada pelo amigo português. Eu não tenho a menor dúvida que eu faço filosofia. Mas também tenho certeza de que eu não faço a mesma coisa que o Desidério faz. Abraço, edg 2008/9/30 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]> > Caros colegas > > > > Eis uma falácia interessante que ocorre em muitos contextos de discussão. > Alguém faz uma afirmação qualquer P. Outra pessoa apresenta contra-exemplos > inegáveis a P. O proponente original então redefine o termo crucial da > afirmação P, tornando-o tão lato que consegue efectivamente neutralizar os > contra-exemplos. Isto é uma falácia porque dá a ilusão de se tratar de uma > boa resposta ao contra-exemplo, quando na verdade é apenas uma confissão de > que o sentido original da proposição P era realmente falso; apenas mudando o > sentido dos termos se dá a ilusão de que a proposição afinal resiste a > contra-exemplos. Mas o novo sentido lato dado ao termo crucial torna P > verdadeiras, mas desinteressante: trivial (não no sentido lógico do termo). > > > > Deparei-me muitas vezes com este falácia quando era estudante em Portugal. > Escrevei até um pouco sobre ela no apêndice do livro *A Arte de > Argumentar, *no qual dei um exemplo concreto que irritou imenso muita > gente, e ainda bem. > > > > Tanto quanto consigo perceber nesta lista ocorreu precisamente isso. Um > colega desta lista, já não me lembro quem, começou por dizer que todos os > filósofos se ocupam principalmente da salvação. Uma afirmação interessante, > nada trivial. Mas é óbvio que há contra-exemplos históricos, até porque o > conceito de salvação é cristão e consequentemente qualquer filósofo anterior > ao cristianismo não terá literalmente qualquer conceito de salvação. Mas > então redefine-se o conceito de salvação para significar "qualquer reflexão > sobre o sentido da vida". Esta é a primeira redefinição falaciosa porque só > num sentido muito lato se pode dizer que qualquer reflexão sobre o sentido > da vida é sobre a salvação. > > > > Mesmo com esta redefinição enfrenta-se contra-exemplos óbvios de filósofos > famosos que quase nada escreveram sobre o sentido da vida. Volta-se então a > redefinir a proposição original e agora diz-se não que todos os filósofos se > ocupam primariamente do sentido da vida, mas antes que todos os filósofos se > ocupam do sentido da vida, ainda que secundariamente. Mas a preocupação > primária, acrescenta-se, é realmente o sentido da vida — só que isso não é > explícito. Esta é uma afirmação arbitrária porque ninguém pode saber qual > era a preocupação primária de Aristóteles ou Descartes. > > > > Assim a proposição original foi distorcida e tornou-se em qualquer coisa > como isto: > > > > *Todos os filósofos escreveram seja o que for ainda que pouco e vagamente > sobre algo que podemos também vagamente e sem qualquer precisão considerar > uma preocupação com a salvação em sentido amplo, ou seja, com a vida, com a > felicidade, com a vivência e o destino da vida humana na Terra. * > > > > Acontece que mesmo esta proposição precisa de mais algumas redefinições > falaciosas, pois mesmo neste sentido imensamente lato filósofos como Kuhn > parecem constituir um contra-exemplo histórico. Aguardo então essa > redefinição. J > > > > Fora de brincadeiras, este caso, como muitos outros do mesmo género, é > interessante por pelo menos uma razão. O que pode levar alguém a não se > permitir argumentar directamente a favor de uma dada ideia, tendo de se > refugiar em teses históricas problemáticas? Uma pessoa pode perfeitamente > defender o seguinte: > > > > a) O único problema genuíno ou o problema central da filosofia é o > problema da salvação. > > > > A pessoa pode defender isto e reconhecer que muitos filósofos aparentemente > não pensam isto. Qual é o problema? Imagine-se a tolice que seria um pintor > ter de provar que a sua abordagem à pintura na verdade, se vermos bem, já > estava presente e já era legítima desde o início das artes e todos os > artistas concordavam com ela. Ou a tolice que seria Einstein defender as > suas ideias dizendo que na verdade, se lermos bem Newton e Ptolomeu, vemos > que já eles defendiam ideias como as suas. Ou a tolice que seria Kant dizer > que se virmos bem, na verdade tanto Descartes como Hume já defendiam > precisamente as suas ideias. > > > > O que leva alguém a procurar substituir uma tese filosófica interessante > por uma tese histórica falaciosamente redefinida para se tornar irrefutável > historicamente (e como tal vácua e desinteressante) é uma formação mental > baseada na autoridade e não na argumentação. A pessoa sente-se incapaz de > defender uma ideia a menos que uma legião de homens famosos mortos a tenham > defendido; então, se todas as evidências mostram que eles não a defenderam, > finge-se que sim, que a defenderam. E disfarça-se assim uma tese filosófica > interessante, e susceptível de ser discutida, numa vagueza histórica > desinteressante porque vácua. > > > > Não poderemos fazer filosofia enquanto não nos libertarmos deste atavismo > autoritário que impede as pessoas de filosofar por si, defender ideias > próprias, mesmo que seja contra muitos homens ilustres mortos. Ouse-se > filosofar. > > > > Um abraço, > > Desidério >
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