Caros colegas

 

Eis uma falácia interessante que ocorre em muitos contextos de discussão.
Alguém faz uma afirmação qualquer P. Outra pessoa apresenta contra-exemplos
inegáveis a P. O proponente original então redefine o termo crucial da
afirmação P, tornando-o tão lato que consegue efectivamente neutralizar os
contra-exemplos. Isto é uma falácia porque dá a ilusão de se tratar de uma
boa resposta ao contra-exemplo, quando na verdade é apenas uma confissão de
que o sentido original da proposição P era realmente falso; apenas mudando o
sentido dos termos se dá a ilusão de que a proposição afinal resiste a
contra-exemplos. Mas o novo sentido lato dado ao termo crucial torna P
verdadeiras, mas desinteressante: trivial (não no sentido lógico do termo). 

 

Deparei-me muitas vezes com este falácia quando era estudante em Portugal.
Escrevei até um pouco sobre ela no apêndice do livro A Arte de Argumentar,
no qual dei um exemplo concreto que irritou imenso muita gente, e ainda bem.


 

Tanto quanto consigo perceber nesta lista ocorreu precisamente isso. Um
colega desta lista, já não me lembro quem, começou por dizer que todos os
filósofos se ocupam principalmente da salvação. Uma afirmação interessante,
nada trivial. Mas é óbvio que há contra-exemplos históricos, até porque o
conceito de salvação é cristão e consequentemente qualquer filósofo anterior
ao cristianismo não terá literalmente qualquer conceito de salvação. Mas
então redefine-se o conceito de salvação para significar “qualquer reflexão
sobre o sentido da vida”. Esta é a primeira redefinição falaciosa porque só
num sentido muito lato se pode dizer que qualquer reflexão sobre o sentido
da vida é sobre a salvação. 

 

Mesmo com esta redefinição enfrenta-se contra-exemplos óbvios de filósofos
famosos que quase nada escreveram sobre o sentido da vida. Volta-se então a
redefinir a proposição original e agora diz-se não que todos os filósofos se
ocupam primariamente do sentido da vida, mas antes que todos os filósofos se
ocupam do sentido da vida, ainda que secundariamente. Mas a preocupação
primária, acrescenta-se, é realmente o sentido da vida — só que isso não é
explícito. Esta é uma afirmação arbitrária porque ninguém pode saber qual
era a preocupação primária de Aristóteles ou Descartes. 

 

Assim a proposição original foi distorcida e tornou-se em qualquer coisa
como isto: 

 

Todos os filósofos escreveram seja o que for ainda que pouco e vagamente
sobre algo que podemos também vagamente e sem qualquer precisão considerar
uma preocupação com a salvação em sentido amplo, ou seja, com a vida, com a
felicidade, com a vivência e o destino da vida humana na Terra. 

 

Acontece que mesmo esta proposição precisa de mais algumas redefinições
falaciosas, pois mesmo neste sentido imensamente lato filósofos como Kuhn
parecem constituir um contra-exemplo histórico. Aguardo então essa
redefinição. J

 

Fora de brincadeiras, este caso, como muitos outros do mesmo género, é
interessante por pelo menos uma razão. O que pode levar alguém a não se
permitir argumentar directamente a favor de uma dada ideia, tendo de se
refugiar em teses históricas problemáticas? Uma pessoa pode perfeitamente
defender o seguinte: 

 

a)      O único problema genuíno ou o problema central da filosofia é o
problema da salvação. 

 

A pessoa pode defender isto e reconhecer que muitos filósofos aparentemente
não pensam isto. Qual é o problema? Imagine-se a tolice que seria um pintor
ter de provar que a sua abordagem à pintura na verdade, se vermos bem, já
estava presente e já era legítima desde o início das artes e todos os
artistas concordavam com ela. Ou a tolice que seria Einstein defender as
suas ideias dizendo que na verdade, se lermos bem Newton e Ptolomeu, vemos
que já eles defendiam ideias como as suas. Ou a tolice que seria Kant dizer
que se virmos bem, na verdade tanto Descartes como Hume já defendiam
precisamente as suas ideias. 

 

O que leva alguém a procurar substituir uma tese filosófica interessante por
uma tese histórica falaciosamente redefinida para se tornar irrefutável
historicamente (e como tal vácua e desinteressante) é uma formação mental
baseada na autoridade e não na argumentação. A pessoa sente-se incapaz de
defender uma ideia a menos que uma legião de homens famosos mortos a tenham
defendido; então, se todas as evidências mostram que eles não a defenderam,
finge-se que sim, que a defenderam. E disfarça-se assim uma tese filosófica
interessante, e susceptível de ser discutida, numa vagueza histórica
desinteressante porque vácua. 

 

Não poderemos fazer filosofia enquanto não nos libertarmos deste atavismo
autoritário que impede as pessoas de filosofar por si, defender ideias
próprias, mesmo que seja contra muitos homens ilustres mortos. Ouse-se
filosofar. 

 

Um abraço,

Desidério

 

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