Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena
dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? Falar
de «algo pelo qual viver» tem um certo travo vagamente religioso, mas muitas
pessoas que não são absolutamente nada religiosas têm uma sensação incómoda
de poderem estar a deixar escapar qualquer coisa básica que conferiria às
suas vidas uma importância que, de momento, lhes falta. E estas pessoas
também não têm qualquer compromisso profundo com uma cor política. Ao longo
do último século, a luta política ocupou frequentemente o lugar que era
consagrado à religião noutros tempos e culturas. Ninguém que reflicta acerca
da nossa história recente pode agora acreditar que a política, por si só,
bastará para resolver todos os nossos problemas. *Mas para que outra coisa
poderemos viver? No presente livro, dou uma resposta. É tão antiga como o
alvor da filosofia, mas tão necessária nas circunstâncias actuais como
sempre foi. A resposta é que podemos viver uma vida ética. Ao fazê-lo,
passaremos a integrar uma vasta tradição que atravessa culturas. *Além
disso, descobriremos que viver uma vida ética não constitui um sacrifício
pessoal, mas uma realização pessoal.

Se conseguirmos alhear-nos das nossas preocupações imediatas e encarar o
mundo como um todo e o nosso lugar nele, veremos que existe algo absurdo na
ideia de que as pessoas têm dificuldade em encontrar por que viver. Afinal,
há tanto que precisa de ser feito. Quando este livro estava prestes a
concluir-se, as tropas das Nações Unidas entraram na Somália numa tentativa
de assegurar que os alimentos chegavam às populações famintas. Apesar de
esta tentativa ter corrido muito mal, constituiu, pelo menos, um sinal
positivo de que as nações ricas estavam preparadas para fazer alguma coisa
acerca da fome e do sofrimento em áreas distantes. Podemos tirar as devidas
lições deste episódio, de modo a que as tentativas futuras sejam mais bem
sucedidas. Talvez estejamos no início de uma nova era na qual não nos
limitaremos a ficar sentados à frente dos nossos televisores a ver crianças
morrer e depois continuar a viver as nossas vidas abastadas sem sentir
qualquer incongruência. Mas não são apenas as grandes crises dramáticas e
com honras de noticiário que requerem a nossa atenção: há inúmeras
situações, numa escala mais reduzida, que são tão horríveis e evitáveis como
as maiores. Ainda que esta tarefa se nos afigure imensa, trata-se apenas de
uma das muitas causas igualmente urgentes às quais se podem dedicar as
pessoas que buscam um objectivo digno.

(Singer, Peter. *Como Havemos de Viver?: A ética numa época de
individualismo*, pp. 13-14 [
http://www.filedu.com/anunesareligiaoeosentidodaexistencia.html] Grifo meu,
edg.)
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