*O problema do sentido (lato) da vida*

Na sua obra «Uma Confissão», Tolstoy narra como, quando tinha 50 anos de
idade e no auge da sua carreira, a convicção de que a vida não tinha sentido
o angustiou profundamente:

Há cinco anos, começou a acontecer-me algo muito estranho; ao princípio era
dominado por minutos de perplexidade e depois uma paragem da vida, como se
eu não soubesse como viver ou o que fazer, e ficava perdido e deprimido. Mas
isso passou e eu continuei a viver como antes. Então esses momentos de
perplexidade repetiram-se cada vez mais e sempre exactamente da mesma forma.
Estas paragens da vida expressavam-se sempre através da mesma questão:
«Porquê? Bem, e então?»

Ao princípio pensei que essas eram simplesmente questões despropositadas e
inapropriadas. Pareceu-me que essas questões eram todas bem conhecidas e que
se quisesse dar-me ao trabalho de procurar a sua solução, não me custaria
muito labor, — que agora não tenho tempo de tratar delas, mas que se
quisesse encontraria as respostas adequadas. Mas as questões começaram a
repetir-se cada vez mais e eram exigidas respostas cada vez com mais
persistência, e como pontos que caiem no mesmo sítio, estas questões, sem
quaisquer respostas, engrossaram até formar uma mancha negra....

Senti que aquilo em que estava apoiado tinha desaparecido, que não tinha
base em que me apoiar, que aquilo para que tinha vivido já não existia, e
que não tinha nada para que viver....

«Bem, eu sei?, disse a mim mesmo, tudo aquilo que a ciência procura tão
persistentemente saber, mas não há resposta para a questão acerca do sentido
da vida.»

Talvez quase todas as pessoas sensíveis e reflexivas tenham tido pelo menos
alguns momentos em que medos e questões similares tenham aparecido nas suas
vidas. Talvez as experiências não fossem tão extremas quanto as de Tolstoy,
mas foram mesmo assim penosas. E certamente quase toda a gente em algum
momento perguntou: Qual é o sentido da vida? Tem ela algum sentido? Qual o
propósito de tudo isto? Qual a razão de ser de tudo isto? Parece evidente,
então, que a questão do sentido da vida é uma das questões mais importantes.
E é importante para todas as pessoas e não apenas para os filósofos.

Pelo menos um autor sustentou que é a questão mais premente. Em *O Mito de
Sísifo*, Camus escreve:

Há apenas um problema filosófico verdadeiramente sério, o problema do
suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida equivale a responder à
questão fundamental da filosofia. Tudo o resto — se o mundo tem três
dimensões, se a mente tem nove ou doze categorias — vem depois. Estes são
jogos; primeiro temos de responder.... Se pergunto a mim próprio como
determinar se esta questão é mais premente do que aquela, respondo que
determinamos a partir das acções que ela implica. Nunca vi ninguém morrer
pelo argumento ontológico [a favor da existência de Deus]. Galileu, que
possuía uma verdade científica de grande importância, dela abjurou com a
maior das facilidades assim que tal verdade pôs a sua vida em perigo. E, em
certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, Terra
ou o Sol, gira em redor do outro é completamente indiferente. Para dizer a
verdade, é uma questão fútil. Em contrapartida, vejo muitas pessoas morrerem
por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que,
paradoxalmente, se fazem matar pelas ideias ou ilusões que lhes dão uma
razão de viver (aquilo a que se chama uma razão de viver é também uma
excelente razão para morrer). Concluo, pois, que o sentido da vida é o mais
premente das questões.»

Seja como for que classifiquemos a questão — como a mais premente de todas
ou como uma das mais prementes de todas — a maior parte de nós considera que
esta questão merece a mais séria das atenções. Parte da sua premência deriva
do facto que tem relação com muitas outras questões que enfrentamos nas
nossas vidas quotidianas. Muitas das decisões que fazemos em relação a
carreiras, tempo livre, dilemas morais, e outras matérias dependem de como
respondemos à questão do sentido da vida.

Contudo, a questão pode significar várias coisas. Distingamos algumas delas.
A questão «Qual é o sentido da vida?» pode significar qualquer das seguintes
questões: 1) Por que razão existe o universo? Por que razão existe algo em
vez do nada? Há algum plano para o universo como um todo? 2) Por que razão
os seres humanos (em geral) existem? Existem para algum propósito? Se sim,
qual? 3) Por que razão eu existo? Existo para algum propósito? Se sim, como
poderei saber qual é? Se não, como pode a vida ter algum significado ou
valor?

*Não pretendo sugerir que estas questões são rigidamente distintas. Elas
estão obviamente interrelacionadas. Por essa razão, muitos de nós
interpretamos a questão «Qual é o sentido da vida?» em sentido lato de modo
a que possa incluir uma, duas ou mesmo as três questões. *Ao proceder assim,
estamos a seguir o uso normal.

[Klemke, E. D. "The Question of the Meaning of Life" in Klemke, E. D. *The
Meaning of Life*, pp.1-2. Grifo meu. (
http://www.filedu.com/anunesareligiaoeosentidodaexistencia.html)]
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