----- Original Message ----- 
From: Matheus 
To: Ricardo Pereira Tassinari 
Sent: Thursday, January 28, 2010 11:04 PM
Subject: Re: [Bulk] Re: [Bulk] Re: [Logica-l]Explicação do significado da 
implicação clássica



Olá Ricardo

Acho que não fui claro ao mencionar os dois exemplos: são casos em que parecem 
desmentir (e não confirmar) a suposta inadequação da condicional material. 
Quanto disse "desmentir" posso ter passado sem querer a implicatura errada de 
que se tratava de mais um contra-exemplo à adequação da condicional material.

Sobre a hipótese tentadora de que há vários tipos de frases condicionais: num 
certo sentido é uma hipótese verdadeira, mas trivial. No sentido relevante é 
uma hipotese bastante controversa. É verdadeiro (e também trivial) que há 
frases condicionais indicativas e subjuntivas, por exemplo. É importante, mas 
controverso, que isso demonstre que há um mecanismo semântico para cada tipo de 
classificação gramatical das frases condicionais. Stalnaker, por exemplo, 
defende uma teoria que fornece uma explicação do mecanismo semântico de todas 
as condicionais, incluindo indicativas e subjuntivas, sobre uma mesma base de 
similaridade entre mundos possíveis. Outros téoricos, como Jackson, defendem 
que a condicional material fornece as condições de verdade das condicionais 
indicativas ao passo que um mecanismo diferente explica o funcionamento das 
condicionais subjuntivas.  And so on.   

Eu não sei se concordaria em dizer que a condicional material é um tipo de 
condicional por mérito próprio: a condicional material é um conectivo 
verofuncional com um comportamento preciso, que é estabelecido por uma tabela 
de verdade e que foi criada artificialmente para satisfazer determinados fins 
teóricos. Dizer que a condicional material é também um tipo de frase 
condicional me parece tão estranho quanto dizer que um mapa que foi criado para 
representar uma cidade é também um tipo de cidade. 

Abs
Matheus

  ----- Original Message ----- 
  From: Ricardo Pereira Tassinari 
  To: Matheus 
  Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
LOGICA 
  Sent: Thursday, January 28, 2010 8:49 PM
  Subject: [Bulk] Re: [Bulk] Re: [Logica-l]Explicação do significado da 
implicação clássica


  2010/1/28 Matheus <[email protected]>

    Olá Ricardo


  Olá Matheus. 

    eu estou trabalhando com isso na minha pesquisa de mestrado. A condicional 
material parece não captar adequadamente as condições de verdade da condicional 
da linguagem natural. Há um ou outro caso que parece desmentir isso, vou citar 
dois (como não estou certo se os símbolos dos conectivos vão aparecer nos 
emails de todos, vou colocá-los em linguagem natural mesmo:


    P ou Q logo ~P então Q

    Ou o mordomo é o assassino ou o jardineiro é o assassino. Portanto, se o 
mordomo não é o assassino, o jardineiro é o assassino.



    ~(P e Q) logo P então ~Q 

    O mordomo e o criado não são ambos inocentes. Logo, se o mordomo é 
inocente, o criado não é inocente.



  Não entendi o que há de errado com os casos acima, pois se assumirmos as 
premissas (que vem antes do "logo"), devemos assumir a conclusão, não?


    Há também alguns exemplos de linguagem natural, como o mencionado pelo 
Adolfo antes, que parecem reforçar a idéia de que a condicional material capta 
adequadamente as condições de verdade da condicional da linguagem natural. 
Contudo, há uma avalanche de casos que apontam num sentido contrário. Ao meu 
ver a passagem da linguagem natural para a lógica verofuncional é tão 
problemática quanto a passagem da lógica verofuncional para a linguagem 
natural, entendendo por passagem aqui a preservação de validade dos argumentos. 
Por exemplo, Edwards em "A Confusion about If . . . Then" apresenta casos em 
que a condicional material é verdadeira num número maior de circunstâncias do 
que a sua equivalente em linguagem natural e apresenta casos em que a 
condicional material é verdadeira num número menor de circunstâncias que a sua 
equivalente em linguagem natural:


    Casos em que a condicional material é verdadeira num maior número de 
circunstâncias 

    P então Q

    (P então Q) ou R

    ~[(P então Q) então R]

    R então (P então Q)

    ~[R então ~(P então Q)]



    Casos em que a condicional material é verdadeira num menor número de 
circunstâncias


    ~(P então Q)

    ~[(P então Q) ou R]

    ~(P então Q) ou R

    (P então Q) então R

    R então ~(P então Q)

    ~(P então Q) e ~R


  Ah! Essa é uma boa lembrança: em geral, em linguagem natural, dizer que "não 
é o caso que A implica B" não quer dizer "ocorre A e não B" (e que é a negação 
da condiciona, enquanto conectivo).


    Entre outras coisas isso quer dizer que a condicional material é 
logicamente mais fraca do que a condicional da linguagem natural, asserindo 
menos do que ela, ao passo que a negação da condicional material ~(P então Q) é 
mais forte em relação à negação da condicional natural.


  Concordo (se entendi bem o que disse), alias, a segunda parte segue "por 
contraposição" da primeira, não?

    A partir disso ele mostra que dada qualquer afirmação contendo um 
"se-então", se ele ocorre como uma premissa em um argumento e a substituição do 
"se-então" pela condicional material é inofensiva, então a substituição não 
será inofensiva em qualquer argumento em que essa afirmação for a conclusão.



    E, vice versa, dada qualquer afirmação contendo um "se, então", se ela 
ocorre como a conclusão de um argumento e a substituição de "se, então" pela 
condicional material é inofensiva, então a substituição não será inofensiva em 
qualquer argumento em que essa afirmação apareceu como uma premissa. Ao dizer 
que a substituição de "se, então" pela condicional material é inofensiva, eu 
quero dizer que se o argumento em que a condicional material ocorre é válido de 
acordo com o cálculo proposicional, então o argumento em que "se, então" 
aparece é válido".  



    Penso que o exemplo que o Adolfo apresentou é fraco se comparado com outros 
exemplos da linguagem natural que mostram inadequação da condicional material. 
Para citar só dois exemplos.

    1) Todo mundo conhece a regra de fortalecimento do antecedente que nos 
permite a inferência: P então Q, logo (P e R) então Q

    O problema é que se aceitarmos isso teremos que dizer que os argumentos 
abaixo são válidos:

    ‘Se risco o fósforo, ele ascenderá’. Logo, ‘se mergulho o fósforo por uma 
noite inteira na água e o risco, então ele ascenderá’.



    “Se eu colocar açúcar no meu café ele ficará saboroso. Se eu colocar açúcar 
e óleo diesel no meu café, ele fiará saboroso”. 

  Acho que o Adolfo só quis mostrar casos em que a implicação material é 
válida, sem discutir o grau de sua adequação à linguagem natural.


  O que acho importante, nesta discussão da implicação material, reconhecê-la 
como UM TIPO de implicação, como escrevi no outro e-mail. Se reconhecermos 
isso, podemos usá-la, sabendo de suas características indesejáveis, como a que 
apontou acima. Porém ela tem uma característica muito boa (que penso que é o 
que a mantém até hoje): a simplicidade de sua definição.



    2) Sabemos que a condicional material é um cáculo verofuncional a partir do 
valor de verdade de suas partes componentes. Não há meios de avaliar o conteúdo 
das condicionais na tabela de verdade e qualquer exigência de relevância do 
antecedente para o consequente é descartada. O problema é que há inúmeros 
exemplos de condicionais que são verdadeiros ou falsos em função da relevância 
do antecedente para o consequente. Por exemplo, a frase "Se Fernando Pessoa é 
australiano, então ele é português" é falsa, pois exprime uma conexão 
geográfica incorreta. O problema é que a partir da lógica clássica teremos que 
dizer que é uma frase condicional verdadeira, pois o consequente "ele é 
português" é verdadeiro.



  Ok, e esta é uma das motivações da Lógica da Relevância... 



    É importante entender o significado dessa discussão sobre a adequação da 
condicional natural. Isso não é uma disputa entre partidários da lógica 
clássica e defensores de lógicas não-clássicas mais desviantes, nem é uma 
disputa entre partidários de uma concepção de linguagem comum e partidários de 
uma concepção de linguagem ideal. Um defeito na lógica clássica não estabelece 
a vantagem de lógicas rivais nem implica que devemos confiar apenas numa noção 
intuitiva de validade. A questão é saber se a condicional material é uma 
tradução correta da condicional natural. A discussão de revisão ou não da 
lógica clássica e propostas de novos sistemas formais que captem melhor o 
funcionamento semântico da condicional natural é uma discussão que é 
relacionada, mas é diferente. É claro que esta também é uma discussão 
importante, sobretudo em semântica formal. Basta ver a quantidade enorme de 
propostas e sistemas na literatura de lógica dos condicionais. Só pra citar 
alguns nomes pensem nos sistemas de  Belnap e Anderson, N. Rescher, Ernest 
Adams e William Cooper.



  Ok. E repedindo o que escrevi no outro e-mail:


  Penso que, na linguagem natural, não temos apenas UM tipo de implicação, mas 
VÁRIOS.


  E penso que a forma do pensar ultrapassa os sistemas formais, que descrevem 
apenas uma PARTE dessa FORMA.



    Abs 

    Matheus




  Abraços,
  Ricardo. 


     Original Message ----- 
      From: Ricardo Pereira Tassinari 
      To: Adolfo Neto 
      Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
LOGICA 
      Sent: Thursday, January 28, 2010 3:49 PM
      Subject: [Bulk] Re: [Logica-l]Explicação do significado da implicação 
clássica


      Olá Adolfo e a todos. 


      Abaixo uma pequena reflexão que gostaria de compartilhar sobre a 
implicação na linguagem natural entre duas sentenças (que designarei por "se A 
então B") e o conectivo condicional.


      Notemos então que o condicional pode ser parafraseado, em linguagem 
natural por: "não é o caso que A e não B", já que ele é equivalente a ~(A&~B).


      Quando passamos DA IMPLICAÇÃO DA LINGUAGEM NATURAL PARA O CONECTIVO 
CONDICIONAL, NÃO TEMOS PROBLEMA (como no exemplo que citou ou em "Se chove, 
então a rua está molhada"), pois, se A então B, então temos que: não é o caso 
que A e não B. Exemplo, se assumimos que "se chove, então a rua está molhada", 
podemos sempre concluir que "não é o caso que chove e a rua não está molhada".


      A VOLTA QUE É PROBLEMÁTICA, OU SEJA, PASSAR DO CONECTIVO CONDICIONAL PARA 
A IMPLICAÇÃO NA LINGUAGEM NATURAL, ou ainda, passar de "não é o caso que A e 
não B" para "se A então B". Exemplo: todos nós concordamos que "não é o caso 
que a Lua é de queijo e o Sol é de gelo", mas nos é estranho dizer que "se a 
Lua é de queijo então o Sol é de gelo".


      Ou seja, assumir que existe uma implicação na linguagem natural é 
condição suficiente (mas não necessária) para assumirmos uma implicação 
condicional.


      Assim, se um argumento é válido na linguagem natural (isto é se assumir 
as premissas implica em assumir a conclusão), então sua formalização com o 
condicional (conjunção das premissas condicional conclusão) será sempre 
verdadeira; por isso, se o argumento é válido, então sua formalização tem que 
ser, isto é, nunca encontraremos premissas verdadeiras e conclusão falsa, mas 
nem sempre uma argumento formalmente válido fica bem em linguagem natural.


      Abraço a todos,
      Ricardo.


      2010/1/28 Adolfo Neto <[email protected]>

        Gostei do exemplo abaixo...

        Fonte: Introdução à Álgebra Abstrata, de Jaime Evaristo
        http://professor.ic.ufal.br/jaime/livros/Capitulo%25201.pdf
        p.11-12

        O exemplo a seguir mostra que o significado matemático do se então,
        embora inusitado, tem
        sentido também no nosso dia a dia. Imagine que um pai anuncie para sua
        filha que vai fazer o
        vestibular para um curso de Medicina: se você passar, então eu lhe dou 
um carro.

        Se a filha foi aprovada (p verdade) e recebeu o carro (q verdade), o
        pai cumpriu a promessa
        (p => q verdade); se a filha foi aprovada (p verdade) e não recebeu o
        carro (q falso), o pai
        descumpriu a promessa (p => q falso); se a filha não foi aprovada (p
        falso) e não recebeu o carro (q
        falso), o pai não descumpriu a promessa (p => q verdade); finalmente,
        se a filha não foi aprovada
        (p falso) e recebeu o carro (q verdade), o pai também não descumpriu a
        promessa e, portanto p => q
        é verdadeiro (nesse caso, o pai pode ter entendido que a filha, mesmo
        não tendo sido aprovada,
        merecia, pelo resultado obtido, o prêmio - foi a primeira dos não
        aprovados, por exemplo).

        Como p => q só é falso se p é verdadeiro e q é falso, a demonstração de
        uma assertiva do tipo
        "se p então q" pode ser feita supondo-se que p é verdade e provando
        que, a partir daí, q também o é.
        Normalmente, o predicado p é chamado hipótese (que é o que se supõe
        ser verdadeiro) e o
        predicado q é chamado tese (que é o que se quer provar que é 
verdadeiro).


        ==========================================
        Adolfo Neto
        Departamento Acadêmico de Informática
        Universidade Tecnológica Federal do Paraná
        Fone: (41) 3310-4644 / Fax: (41) 3310-4646
        Web: http://www.dainf.ct.utfpr.edu.br/~adolfo
        Blog: http://professoradolfo.blogspot.com
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      Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
      UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências - Marília
      Homepage: http://www.marilia.unesp.br/ricardotassinari




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