Olá Júlio,

Poderia dizer o mesmo quanto a uma maçã clássica, rs. O que vemos são maçãs, 
poderia dizer que o que vejo são determinados objetos que chamamos maçã, que 
possuem tais e tais propriedades, inclusive a propriedade de não ser totalmente 
vermelha mesmo sendo vermelha, mas isso me comprometeria com a existência tanto 
de objeto quanto de propriedades, esses são comprometimentos metafísicos 
fortes, nãosei se assinar tal promissória metafísica seja uma boa coisa. Mas, 
por outro lado negar ao mundo a possibilidade de contradições é uma posição 
metafísica ainda mais forte que essa. Posso não ter visto contradições por aí, 
mas isso não é suficiente pra dizer que não há contradições por aí. Não vejo 
números andando por aí, mas não sei se posso dizer que não há números.

Por outro lado, o Décio tem razão quando afirma que preciso de um certa 
definição de negação para entender ou ver contradição em um determinado sistema 
ou teoria, isso torna a coisa ainda mais complicada, que é o mundo então, como 
e que tipo de negações se aplicam a ele?

Abraços,
Dídimo Matos
http://didimogeorge.blogspot.com/
http://twitter.com/didimogeorge
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Para algumas pessoas, antes morrer que pensar. E, morrem antes mesmo.
Russell em tradução de Rodrigo Jungman.


From: julio cesar 
Sent: Monday, August 09, 2010 9:47 PM
To: [email protected] ; Dídimo Matos ; [email protected] ; 
[email protected] 
Subject: res: semântica paraconsistente



Olá, pessoal!

 

            Bem, de fato, posso estar me atrapalhando em algumas coisas. O 
buraco é mais embaixo e mais complexo do que eu imaginava. E acredito que minha 
questão seria melhor colocada se, em vez de dizer "semântica paraconsistente" 
eu tivesse dito "meta-linguagem inconsistente".

            No entanto, com o risco de me embananar ainda mais nos conceitos 
(pois acredito que não consegui dizer o que queria), tentarei mostrar porque 
ainda acho que o problema persiste. (coloquei tudo numa única mensagem para não 
encher a lista de mensagens separadas...)

 

 

> Décio Krause

 

            Você não concordaria então que é impossível estabelecer um sistema 
formal qualquer sem utilizar uma meta-linguagem consistente (ainda que seja só 
no primeiro passo)?

 

 

 

> Didimo Matos

 

            Bem, como o Décio falou, eu também nunca topei com uma contradição 
no mundo. Quanto a mim, não vejo metafísica nisso, pelo contrário. Não acredito 
ser possível dizer que o mundo é ou não contraditório sem usar uma linguagem 
que o represente, assim, prefiro não entrar no mérito sobre como o mundo seria 
fora de tal representação. Ou seja, a contradição, como qualquer outra lei ou 
princípio lógico, a meu ver, diz respeito apenas sobre nossa linguagem. Não há 
como encontrar alguma contradição no mundo (ou em maçãs), mas apenas em nossas 
teorias sobre o mundo (ou sobre maçãs).

 




> Carolina Blasio:

 

            Se eu precisar de tantos níveis de verdade quanto forem as 
diferenças cromáticas, a complexidade não diminui em nada, sendo assim, por que 
não estabelecer, para cada diferença, um predicado diferente? Sem falar que, 
para um computador, trabalhar complexidades não é difícil. E mesmo que eu 
admitir os infindáveis níveis de verdade, acredito que a questão da bivalência 
ainda se coloca, pois, ainda que eu esteja tratando do enunciado do valor de 
uma fórmula (e é justamente esse o problema), eu só consigo tratar desse 
enunciado de maneira bivalente (a meta-linguagem que apresenta a 
linguagem-objeto Fuzzy, acredito, ainda é bivalente).

 

  

 

> Jõao Marcos:

        Agora você me confundiu de vez. Se aquilo que Frege fez não é 
considerado mais lógica clássica, então estou completamente perdido no assunto 
(como classificam Frege hoje em dia?). Mas, com certeza, se alguém me apertar, 
vou ser obrigado a dizer que, nessa discussão, estou considerando como Lógica 
Clássica qualquer Sistema Formal -ou considerações lógicas- que exija pelo 
menos a Consistência e a Bivalência (sei que isso é vago mas, por hora, creio 
que é suficiente...). Por isso, a meu ver, Frege é clássico (tanto que 
abandonou o logicismo unicamente por causa da contradição). 

 

            De qualquer forma, acredito que a questão pode sim ser colocada em 
Frege e até em Aristóteles. De fato, ambos não tinham uma semântica explícita, 
mas suas teorias, ao menos, utilizavam uma meta-linguagem coerente com a lógica 
que tentaram estipular. E minha questão original é exatamente essa: como 
rivalizar com a consistência sendo que sua meta-linguagem ainda é consistente?

 

            Sobre a Fuzzy, mesmo que seja aquela uma definição derivada de um 
tipo de *função* matemática, essa definição não deixa, por causa disso, de 
depender da bivalência (é verdade que tenha aquele valor e falso que seja 
qualquer outro), e se a Fuzzy depende de tal tipo de função, sua polivalência 
dependeria, em última análise, da bivalência, ao menos enquanto meta-linguagem. 
A questão aqui se desdobra em: como rivalizar com a bivalência sendo que sua 
meta-linguagem ainda é bivalente?

 

            A meu ver, não há rivalidade em nenhum dos casos. Não estou 
questionando a utilidade, muito menos o rigor, de tais sistemas, mas apenas a 
tentativa de abandonar por completo a consistência ou a bivalência.

 

            Sobre a maçã, mesmo num sistema analógico, ou vários sensores 
independentes, como eu reconstruiria por computador a imagem da minha maçã - 
num determinado instante de tempo - simplesmente aceitando contradições nos 
sensores? Alguma hora eu teria que optar pela informação de um ou de outro, com 
o perigo de deixar aquele pedacinho sem cor (ou apelar para uma mistura das 
informações contraditórias, mas não sei como isso seria uma descrição mais 
eficiente da maçã).

 

Obs: sem falar que conheço uns por aí que já acreditam que estão comendo maçãs 
contraditórias: "ela era vermelha e amarela, ou seja, vermelha e não-vermelha" 
(!)

 

 

> Walter Carnielli

            

Poxa, eu concordo plenamente que não é um demérito utilizar uma meta-linguagem 
clássica. O que não entendo é a maneira que muitas vezes as lógicas 
não-clássicas são apresentadas contra a lógica clássica como alternativas ou 
sistemas distintos e completamente (desculpa a expressão) *auto-sustentáveis*, 
sendo que, repetindo, não sei como uma meta-linguagem inconsistente poderia 
sequer estabelecer uma sintaxe em sua linguagem-objeto.

            (Agradeço os textos que me enviou - ainda não li mas já vou ler! - 
no entanto, o link do seu *Paraconsistent Machines and their Relation to 
Quantum Computing* me parece estar errado, e como sou programador, só o título 
já me instigou muito...)

 

 

 

Sei que posso estar soando um tanto categórico demais, mas isso é unicamente 
por questões de brevidade e não, por assim dizer, de *certezas*. Aproveito para 
agradecer a todos que me responderam pois isso está me ajudando, 
indiscutivelmente, a deixar uma questão tão complexa cada vez mais clara.




Novamente, desculpe qualquer coisa.




Abraços a todos,

Júlio César A. Custódio





 
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