Didimo, Julio
Da mesma forma, uma cor não existe por si. A maçã não é *vermelha* ou *verde*. Se lerem o meu review do livro do Priest, eu comento algo baseado em Brian Davis, um matemático de Cambridge que tratou do assunto em um livro excelente chamado "Science in the Looking Glass". Schrödinger dizia o mesmo; nunca o *meu* vermelho é o *seu* vermelho, pois depende de vários fatores como comprimento de onda que chega às nossas retinas, etc. Não confundam uma teoria com uma aplicação dessa teoria, e isso vale mesmo para uma lógica.
Abraços,
D.

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Decio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-990 Florianópolis, SC -- Brasil
[email protected]
www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Doctor Bell say we’re connected,
He called me on the phone,
But if we’re really together baby,
How can I feel so all alone?
(Bell's Theorem Blues)

Em 09/08/2010, às 22:53, Dídimo Matos escreveu:

Olá Júlio,

Poderia dizer o mesmo quanto a uma maçã clássica, rs. O que vemos são maçãs, poderia dizer que o que vejo são determinados objetos que chamamos maçã, que possuem tais e tais propriedades, inclusive a propriedade de não ser totalmente vermelha mesmo sendo vermelha, mas isso me comprometeria com a existência tanto de objeto quanto de propriedades, esses são comprometimentos metafísicos fortes, nãosei se assinar tal promissória metafísica seja uma boa coisa. Mas, por outro lado negar ao mundo a possibilidade de contradições é uma posição metafísica ainda mais forte que essa. Posso não ter visto contradições por aí, mas isso não é suficiente pra dizer que não há contradições por aí. Não vejo números andando por aí, mas não sei se posso dizer que não há números.

Por outro lado, o Décio tem razão quando afirma que preciso de um certa definição de negação para entender ou ver contradição em um determinado sistema ou teoria, isso torna a coisa ainda mais complicada, que é o mundo então, como e que tipo de negações se aplicam a ele?

Abraços,
Dídimo Matos
http://didimogeorge.blogspot.com/
http://twitter.com/didimogeorge
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Para algumas pessoas, antes morrer que pensar. E, morrem antes mesmo.
Russell em tradução de Rodrigo Jungman.

From: julio cesar
Sent: Monday, August 09, 2010 9:47 PM
To: [email protected] ; Dídimo Matos ; [email protected] ; [email protected]
Subject: res: semântica paraconsistente


Olá, pessoal!

Bem, de fato, posso estar me atrapalhando em algumas coisas. O buraco é mais embaixo e mais complexo do que eu imaginava. E acredito que minha questão seria melhor colocada se, em vez de dizer "semântica paraconsistente" eu tivesse dito "meta-linguagem inconsistente". No entanto, com o risco de me embananar ainda mais nos conceitos (pois acredito que não consegui dizer o que queria), tentarei mostrar porque ainda acho que o problema persiste. (coloquei tudo numa única mensagem para não encher a lista de mensagens separadas...)


> Décio Krause

Você não concordaria então que é impossível estabelecer um sistema formal qualquer sem utilizar uma meta-linguagem consistente (ainda que seja só no primeiro passo)?



> Didimo Matos

Bem, como o Décio falou, eu também nunca topei com uma contradição no mundo. Quanto a mim, não vejo metafísica nisso, pelo contrário. Não acredito ser possível dizer que o mundo é ou não contraditório sem usar uma linguagem que o represente, assim, prefiro não entrar no mérito sobre como o mundo seria fora de tal representação. Ou seja, a contradição, como qualquer outra lei ou princípio lógico, a meu ver, diz respeito apenas sobre nossa linguagem. Não há como encontrar alguma contradição no mundo (ou em maçãs), mas apenas em nossas teorias sobre o mundo (ou sobre maçãs).


> Carolina Blasio:

Se eu precisar de tantos níveis de verdade quanto forem as diferenças cromáticas, a complexidade não diminui em nada, sendo assim, por que não estabelecer, para cada diferença, um predicado diferente? Sem falar que, para um computador, trabalhar complexidades não é difícil. E mesmo que eu admitir os infindáveis níveis de verdade, acredito que a questão da bivalência ainda se coloca, pois, ainda que eu esteja tratando do enunciado do valor de uma fórmula (e é justamente esse o problema), eu só consigo tratar desse enunciado de maneira bivalente (a meta-linguagem que apresenta a linguagem-objeto Fuzzy, acredito, ainda é bivalente).



> Jõao Marcos:
Agora você me confundiu de vez. Se aquilo que Frege fez não é considerado mais lógica clássica, então estou completamente perdido no assunto (como classificam Frege hoje em dia?). Mas, com certeza, se alguém me apertar, vou ser obrigado a dizer que, nessa discussão, estou considerando como Lógica Clássica qualquer Sistema Formal -ou considerações lógicas- que exija pelo menos a Consistência e a Bivalência (sei que isso é vago mas, por hora, creio que é suficiente...). Por isso, a meu ver, Frege é clássico (tanto que abandonou o logicismo unicamente por causa da contradição).

De qualquer forma, acredito que a questão pode sim ser colocada em Frege e até em Aristóteles. De fato, ambos não tinham uma semântica explícita, mas suas teorias, ao menos, utilizavam uma meta-linguagem coerente com a lógica que tentaram estipular. E minha questão original é exatamente essa: como rivalizar com a consistência sendo que sua meta-linguagem ainda é consistente?

Sobre a Fuzzy, mesmo que seja aquela uma definição derivada de um tipo de *função* matemática, essadefinição não deixa, por causa disso, de depender da bivalência (é verdade que tenha aquele valor e falso que seja qualquer outro), e se a Fuzzy depende de tal tipo de função, sua polivalência dependeria, em última análise, da bivalência, ao menos enquanto meta-linguagem. A questão aqui se desdobra em: como rivalizar com a bivalência sendo que sua meta-linguagem ainda é bivalente?

A meu ver, não há rivalidade em nenhum dos casos. Não estou questionando a utilidade, muito menos o rigor, de tais sistemas, mas apenas a tentativa de abandonar por completo a consistência ou a bivalência.

Sobre a maçã, mesmo num sistema analógico, ou vários sensores independentes, como eu reconstruiria por computador a imagem da minha maçã - num determinado instante de tempo - simplesmente aceitando contradições nos sensores? Alguma hora eu teria que optar pela informação de um ou de outro, com o perigo de deixar aquele pedacinho sem cor (ou apelar para uma mistura das informações contraditórias, mas não sei como isso seria uma descrição mais eficiente da maçã).

Obs: sem falar que conheço uns por aí que já acreditam que estão comendo maçãs contraditórias: "ela era vermelha e amarela, ou seja, vermelha e não-vermelha" (!)


> Walter Carnielli

Poxa, eu concordo plenamente que não é um demérito utilizar uma meta- linguagem clássica. O que não entendo é a maneira que muitas vezes as lógicas não-clássicas são apresentadas contra a lógica clássica comoalternativas ou sistemas distintos e completamente (desculpa a expressão) *auto-sustentáveis*, sendo que, repetindo, não sei como uma meta-linguagem inconsistente poderia sequer estabelecer uma sintaxe em sua linguagem-objeto. (Agradeço os textos que me enviou - ainda não li mas já vou ler! - no entanto, o link do seu *Paraconsistent Machines and their Relation to Quantum Computing* me parece estar errado, e como sou programador, só o título já me instigou muito...)



Sei que posso estar soando um tanto categórico demais, mas isso é unicamente por questões de brevidade e não, por assim dizer, de *certezas*. Aproveito para agradecer a todos que me responderam pois isso está me ajudando, indiscutivelmente, a deixar uma questão tão complexa cada vez mais clara.



Novamente, desculpe qualquer coisa.



Abraços a todos,

Júlio César A. Custódio




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