Olá, Julio: > Agora você me confundiu de vez. Se aquilo que Frege fez não é > considerado mais lógica clássica, então estou completamente perdido no > assunto (como classificam Frege hoje em dia?). Mas, com certeza, se alguém > me apertar, vou ser obrigado a dizer que, nessa discussão, estou > considerando como Lógica Clássica qualquer Sistema Formal -ou considerações > lógicas- que exija pelo menos a Consistência e a Bivalência (sei que isso é > vago mas, por hora, creio que é suficiente...). Por isso, a meu ver, Frege é > clássico (tanto que abandonou o logicismo unicamente por causa > da contradição).
Justo, mas para ter "medo" de contradições Frege poderia ser intuicionista... (Temos colegas, aliás, que tem defendido seriamente a ideia de que a silogística aristotélica era intuicionista.) Continuo acreditando que se o seu problema pega mais em baixo, e diz respeito a *semânticas não-clássicas em geral*, e você deveria se esforçar portanto a formulá-lo em tal nível. * * * Uma coisa que confunde muita gente, e excita aqueles que se entusiasmam pelo "irracional" (no sentido em que este termo trabalhado no livro homônimo de G.G. Granger), é a convicção espúria de que a *lógica paraconsistente* tem "preferência" pelas contradições, ou que até mesmo as busca --- talvez com uma intenção estética, talvez por puro senso de humor, ou talvez com a intenção de chacrinhar(*) o mundo. Na realidade a coisa é bem mais sutil e bem menos ousada. A proposta da lógica paraconsistente veio apenas para ajudar a acomodar situações (tenham elas uma origem ontológica, epistemológica, ou mateológica) em que precisamos trabalhar, agir e tomar decisões razoáveis *mesmo na presença* de contradições, isto é, para trabalhar no domínio do inconsistente mesmo sem aceitar o vale-tudo, sem dar suporte ao oba-oba geral. Se *todas* as contradições forem de alguma forma aceitáveis, contudo, deixa de fazer sentido, ou de ser necessária, uma lógica paraconsistente, pois estamos no domínio da inconsistência dita absoluta (ou trivialidade), e aí faz pouca diferença o que você faz ou deixa de fazer, o que diz ou deixa de dizer. A lógica paraconsistente só tem utilidade enquanto ainda é possível "fazer a diferença", e é justamente para estender o domínio desta possibilidade que esta lógica foi proposta. > De qualquer forma, acredito que a questão pode sim ser colocada > em Frege e até em Aristóteles. De fato, ambos não tinham uma semântica > explícita, mas suas teorias, ao menos, utilizavam uma meta-linguagem > coerente com a lógica que tentaram estipular. E minha questão original é > exatamente essa: como rivalizar com a consistência sendo que sua > meta-linguagem ainda é consistente? > > Sobre a Fuzzy, mesmo que seja aquela uma definição derivada de > um tipo de *função* matemática, essa definição não deixa, por causa > disso, de depender da bivalência (é verdade que tenha aquele valor > e falso que seja qualquer outro), e se a Fuzzy depende de tal tipo de > função, sua polivalência dependeria, em última análise, da bivalência, ao > menos enquanto meta-linguagem. A questão aqui se desdobra em: > como rivalizar com a bivalência sendo que sua meta-linguagem ainda é > bivalente? Todos usamos meta-linguagens "coerentes", inclusive os temidos paraconsistentistas... Agora, a partir do momento em que sequer formos capazes de saber se o conceito de *função* se aplica ou não a um certo objeto matemático de interesse, perde de fato o sentido usá-lo para fins práticos! Você pode trabalhar com uma meta-linguagem clássica de ordem superior, ou algo perto disso, para mais ou para menos. Mas pode também tentar trabalhar, se realmente tiver um motivo para tanto, em uma meta-linguagem genuinamente não-clássica. Nem mesmo se este "não-clássico" significar "paraconsistente", contudo, você poderá aceitar *todas* as contradições --- sob o risco de se tornar irrelevante. > A meu ver, não há rivalidade em nenhum dos casos. Não estou > questionando a utilidade, muito menos o rigor, de tais sistemas, mas apenas > a tentativa de abandonar por completo a consistência ou a bivalência. Você tem que avaliar o que quer dizer com este "abandono completo". Opor-se à validade universal de algo não significa em geral afirmar universalmente o seu oposto. > Sobre a maçã, mesmo num sistema analógico, ou vários sensores > independentes, como eu reconstruiria por computador a imagem da minha maçã - > num determinado instante de tempo - simplesmente aceitando contradições nos > sensores? Alguma hora eu teria que optar pela informação de um ou de outro, > com o perigo de deixar aquele pedacinho sem cor (ou apelar para uma mistura > das informações contraditórias, mas não sei como isso seria uma descrição > mais eficiente da maçã). Não entendi onde é que a questão da "eficiência" entra nesta história, ou o que você quer dizer exatamente com este termo, apesar de tê-lo usado várias vezes. > Poxa, eu concordo plenamente que não é um demérito utilizar > uma meta-linguagem clássica. O que não entendo é a maneira que muitas vezes > as lógicas não-clássicas são apresentadas contra a lógica clássica como > alternativas ou sistemas distintos e completamente (desculpa a expressão) > *auto-sustentáveis*, sendo que, repetindo, não sei como > uma meta-linguagem inconsistente poderia sequer estabelecer uma sintaxe em > sua linguagem-objeto. A definição de qualquer _sintaxe_ é feita *antes* da construção do sistema propriamente dito, seja em Teoria das Demonstrações, seja em Teoria dos Modelos. > Novamente, desculpe qualquer coisa. Não precisa se desculpar por nada. Uma das contrapartes "sociais" do nosso trabalho como cientistas pressupõe o esclarecimento daquilo que fazemos em termos tão pedestres quanto possível, bem como a reavaliação das nossas crenças e a defesa dos nossos pontos de vista. A batalha é ganha dia-a-dia, mas é infindável. Abraços, Joao Marcos -- http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ (in absentia, post-doc in cives vindobonensis) _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
