Olá Lista,

Décio, muito obrigado pelas respostas, achei de imensa clareza num tópico tão 
confuso como esse!

Vendo você falar sobre os elétrons do Hélio, me veio Wittgenstein (acho que no 
Investigações) quando diz sobre nossas unidades de medidas (como o metro) e 
como isso são apenas maneiras de falar, isto é, uma mesa de dois metros de 
comprimento não possui dois objetos *um metro* incorporados a ela, isso é 
apenas uma medida. E eu posso medir começando do início da mesa até a metade, e 
isso dá um metro, e depois até o fim, o que dá o outro metro. Mas posso começar 
a medindo depois de vinte centímetros e ainda assim eu vou achar meu *um 
metro*, mas vai corresponder a um *pedaço físico* da mesa bem diferente do que 
na minha medida anterior, porém, ambos seriam *um metro*. Sem falar que eu 
posso, por exemplo, pegar dez centímetros e colocar numa coluna, daí pego os 
próximos e coloco em outra coluna, daí vou intercalando cada dez centímetros em 
cada uma dessas duas colunas até ambas chegarem ao meu *um metro*. Poderíamos, 
ingenuamente,
 perguntar: *mas então quantos metros distintos existem em uma mesa de dois 
metros de comprimento?*, ou,  *mas então um metro está totalmente espalhado 
pela mesa?*, ou até mesmo *mas então um metro está em dois lugares da mesa ao 
mesmo tempo?*, o que é um absurdo.

Lembrei disso pois os elétrons, na sua msg, me soou muito parecido como mera 
unidade de medida, não como objetos *reais*.  Ou seja, um átomo com dois 
elétrons não possui dois objetos "um elétron" incorporados a ele, assim como o 
metro, é apenas uma unidade de medida de algumas de suas qualidades, e 
dependendo do jeito que eu medir, ele pode estar em qualquer lugar do meu átomo.

O que acha disso? Tem alguém que já trabalhou algo assim?

Abraços,
Júlio César A. Custódio


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 De: Décio Krause <[email protected]>
Para: julio cesar <[email protected]> 
Cc: "[email protected]" <[email protected]> 
Enviadas: Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012 16:58
Assunto: Re: [Logica-l] ontologia e probabilidade - 3
 
Júlio
(e agora paro senão me chamam a atenção)
Os objetos quânticos têm uma peculiaridade, a de serem invariantes por 
permutação. Se há uma coleção deles, digamos dois elétrons em um átomo de Hélio 
em seu estado fundamental, de menor energia, eles estão em superposição. 
Sabe-se que há dois, logo essa "coleção" tem cardinal dois. Mas não se sabe 
qual é qual (se quiser falar em conceitos maremáticos, há um cardinal mas não 
um ordinal, mas tudo isso deve ser qualificado). Como são dois, pode até dar um 
nome de batismo para cada um deles, digamos Alice e Bob. A função de onda que 
descreve o sistema conjunto é anti-simétrica, pois os elétrons são férmions, 
algo como F = A + B. Não é possível fatorar F e obter a descrição de cada um 
deles em separado. O sistema com os dois é um só. Somente quando é feita uma 
medida F colapsa, mas aí o fenômeno quântico desaparece, e surge um  deles  
passeando no jardim. Antes da medida, segundo Bohr e outros, nada pode ser dito.
 Mas onde  estão A e B? Emaranhados, entangled. Se pesarmos neles como 
"objetos" como aas coisas usuais, entramos em uma sinuca. O bacana é o 
seguinte. Se um dos elétrons for trocado por "outro", digamos por ionização, o 
que ocorre? Fisicamente, nada. O átomo continua tendo exatamente as mesmas 
propriedades do anterior. Se a coleção dos dois fosse um conjunto 
(extensionalmente falando), trocando um por "outro" o conjunto mudaria em 
virtude do axioma da extensionalidade. E neste caso? Haveria violação da 
lógica? Se os elétrons forem entendidos como objetos usuais, parece que sim. 
Mas então, o que são eles? Esta é a grande pergunta. Ninguém sabe. 
Ah, como eu disse, elétrons são férmions, e portanto obedecem ao Princípio de 
Exclusão de Pauli, e portanto não pode haver dois deles em um mesmo estado, 
partilhando TODAS as suas características. Então, você pode dizer, há uma 
diferença. Sim, no exemplo dado, há quanto ao spin. Eles têm spins opostos, mas 
o problema é quem não sabemos QUAL tem spin UP e qual tem DOWN. E isso não é 
algo que aponte para uma ignorância de nossa parte, como queria Einstein, 
dizendo que há mais coisas envolvidas, algumas "variáveis ocultas". Na medida 
em que a MQ esteja certa, é impossível atribuir uma identidade a eles. E isso 
importa? Para a física, quase nada, ou  nada, porque o que importa é o quadrado 
de F, que dá a probabilidade, e ainda que F troque de sinal por uma permutação 
dos dois, F ao quadrado não muda, daí a invariância. Já com bósons, a coisa é 
ainda mais estranha porque eles podem partilhar tudo. Aí são indiscerníveis de
 fato. Como pode isso, mss na lógica usual, e na matemática usual, coisas 
indiscerníveis são A MESMA coisa (princípio de Leibniz, teorema da lógica 
usual). Como ficamos? Pois é. Assim como estamos, com uma barafunda enorme, que 
filosoficamente está cheia de gaps, ainda que a física funcione 
maravilhosamente.
D



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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 23/02/2012, às 16:58, julio cesar <[email protected]> escreveu:

> Olá lista,
> 
> aproveitando o papo, tem algumas coisas que nunca entendi, se alguém puder me 
> esclarecer ou indicar algo, ficaria agradecido:
> 
>     - se a função-de-onda for um objeto físico, de que maneira isso seria 
>contra nossas intuições ontológicas (clássica)? Só pela questão da ação 
>fantasmagórica? De fato, isso é um problemaço, mas se não for *só* por isso, 
>por que uma onda do mar não causa o mesmo espanto? Seria pela questão, na MQ, 
>*o que está realmente sendo ondulado ali*? Uma onda, ontologicamente falando, 
>não seria um objeto como qualquer outro com características próprias e tudo 
>mais?
> 
>     - mas se a função-de-onda não for *real* e sim apenas probabilidade, a 
>pergunta volta. Por ex, os jogadores profissionais de Poker trabalham com a 
>probabilidade como se fosse algo real, e ganham (muito) dinheiro com isso 
>porque, em certo sentido, ela é sim algo real! *A sorte não influencia a longo 
>prazo*, é um dito popular no mundo do Poker. A longo prazo, a probabilidade é 
>tão *sólida* quanto qualquer outra coisa. Você pode apostar milhões nela, e 
>você vai ganhar (a longo prazo). Essa questão sobre a ontologia da MQ não se 
>desdobra numa questão sobre a ontologia da probabilidade? 
> 
> tem algum sentido isso?
> 
> abraços,
> Júlio César A. Custódio
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