Caro Tony,

Definir o que seja um paradoxo não é tarefa trivial. Eu disse que não
considero um paradoxo, pois *estrito senso*, não envolve nenhuma
contradição lógica, auto-referência ou circularidade. Mas, concordo que do
ponto de vista do senso comum este tipo de sentença pode ser considerada
"paradoxal".

Fiquei com o pensamento preso neste assunto durante a minha graduação em
Filosofia, tanto é que este foi o tema da minha monografia de bacharelado.
Caso tenha interesse, posso te enviar o texto que escrevi naquela época.
Recordo-me agora da epígrafe que selecionei de um texto do Wittgenstein:

“Ao pensar filosoficamente,
vemos problemas em lugares onde não há nenhum.
Cabe à Filosofia demonstrar
que não há problema algum.”

-- Renato

-
Renato Mendes Rocha



Em 3 de dezembro de 2012 19:24, Tony Marmo <[email protected]> escreveu:

> Caro Renato,
>
> Obrigado pela resposta. Esse tópico dos limites da lógica e do que seja um
> paradoxo têm escopo muito maior que o que proponho aqui. Acho que há um
> paradoxo sim, no mesmo sentido que o problema dos corvos (toda coisa
> não-negra é não-corvo) ou do irmão mais velho que é cinco anos mais novo,
> etc, por exemplo. Todos esses problemas estão citados na literatura como
> paradoxos e são da mesma natureza filosófica.
>
> Concordo, todavia, que uma das interpretações é que o interlocutor possa
> rejeitar a relação causal. Mas, aí também ele rejeita a provável causa
> juntamente com a relação causal.
>
> Em 3 de dezembro de 2012 18:32, Renato Mendes Rocha <[email protected]
> > escreveu:
>
> Caro Tony,
>>
>> Há de se compreender melhor os limites do uso da lógica. Não vejo que
>> este caso que você apresenta consista em um paradoxo, no sentido estrito.
>>
>> Para o senso comum, uma implicação entre dois eventos consiste em um
>> sentença condicional ("Se A, então B") e uma relação de causalidade ("A foi
>> causado por B"). Ou seja, Implicação = condicional + causalidade. Acontece
>> que a lógica proposicional é insuficiente para dar conta do segundo
>> aspecto, pois trata-se de uma questão mais complexa do que a mera
>> construção de uma tabela de verdade.
>>
>> Penso que talvez seja esta a razão de seu interlocutor aceitar:
>>
>> A = "A Holanda lutou para se tornar independente da Espanha",
>>
>> e rejeitar
>>
>> "B => A" = "Se a Holanda pertenceu à Espanha, então a Holanda lutou para
>> se tornar independente da Espanha"
>>
>> e consequentemente também rejeitar,
>>
>> "A =>(B=>A)"
>>
>> O interlocutor nega a relação causal entre os eventos A e B. Neste
>> sentido, são dois eventos logicamente distintos e apenas causalmente
>> contigentes.
>>
>> Abs,
>> Renato
>>
>>
>> Em 28 de novembro de 2012 13:42, Tony Marmo <[email protected]>escreveu:
>>
>>>   Caros Participantes
>>>
>>>
>>>
>>> Essa é uma experiência que eu observei de perto. Pessoas que aceitam como
>>> verdadeira uma proposição A, mas rejeitam simultaneamente a implicação
>>> tautológica A=>(B=>A) e inferir por modus ponens que B=>A, mesmo quando
>>> há
>>> uma relação de relevância entre A e B.
>>>
>>>
>>>
>>> A situação é a seguinte: numa cidade da Holanda, todos os anos, no mês de
>>> outubro, comemora-se a resistência dos habitantes, num cerco, contra
>>> tropas
>>> de Espanha pela independência, também dita libertação, da Holanda.
>>> Pergunte-se a um holandês “independência ou libertação do quê?” e ele
>>> responde normalmente “da Espanha”. Mas, em seguida tente tirar alguma
>>> ilação disso, tal como “se a Holanda se tornou independente da Espanha,
>>> então antes a Holanda era colônia da Espanha?” Automaticamente o mesmo
>>> holandês dirá “jamais”. Pergunte, então “era província da Espanha?” O
>>> mesmo
>>> holandês dirá “evidentemente que não”. Tente reformular uma vez mais a
>>> pergunta: “era possessão espanhola?” “Não mesmo”, dirá o holandês. Tente
>>> mais uma: “digamos então que a Holanda fazia parte da Espanha?” E o
>>> holandês: “Nunca fez, que absurdo!” Pela última vez, experimente mais uma
>>> reformulação da pergunta: “os espanhóis haviam invadido, dominado ou
>>> anexado a Holanda?” E o holandês sentenciará: “aha, eles que tentassem!”
>>>
>>>
>>>
>>> Eu várias vezes tentei colocar a questão para alguns na forma da
>>> implicação:
>>>
>>>
>>>
>>> [1] Se a Holanda lutou para se tornar independente da Espanha, então o
>>> fato
>>> da Holanda ter pertencido à Espanha implica que ela lutou para se tornar
>>> independente.
>>>
>>>
>>>
>>> Mesmo mostrando o raciocínio que teria de existir uma vez aceite a
>>> proposição “a Holanda lutou para se tornar independente da Espanha” e
>>> mesmo
>>> havendo uma conexão de relevância entre esta proposição e “o fato da
>>> Holanda ter pertencido à Espanha”, os holandeses tinham dificuldade de
>>> entender o raciocínio, dado que a ideia do país deles não ter sido
>>> independente é completamente repugnante. É como se “a independência da
>>> Holanda” fosse uma verdade que não pudesse ter nem premissa nem
>>> consequência.
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