Caro Professor,

Mas, sem querer ser insistente, qual é a lógica de ensinar uma lógica com a
qual não se trabalha e com um punhado de coisas para as quais não há plano
de pesquisa. O conceito de ensino superior é justamente aquele em que não
somente se ensina para além do ensino secundário, mas que casa a pesquisa
com o ensino.

Eu já não sei por que razões, ademais, a lógica clássica precisa ser
aprendida além de uma tradição. Em outro post vimos que Aristóteles não
somente conhecia mas excluía da sua lógica o princípio de pseudo-Scottus.
Ele diz e mostra que modalmente as contradições só geram contingências e em
primeira ordem só geram absurdos. A lógica clássica atual incorpora esse
princípio porque foi derivada do esforço dos lógicos medievais de
reconstituir a lógica aristotélica, à qual eles não acediam totalmente por
falta de textos e traduções. Só vale a pena estudar essa lógica clássica
moderna mais adiante a partir de um ponto de vista crítico.

Em 17 de março de 2013 03:11, Decio Krause <[email protected]> escreveu:

> Tony
> Acho que, no presente momento (isso pode mudar em 100, 200 anos),
> independentemente de onde se esteja e do que façam nos departamentos,
> deve-se sim começar os estudos de lógica pela clássica. Isso é a que mais
> aparece, e precisa ser conhecida. Agora se em um certo local há muito
> trabalho, digamos, em lógica relevante, nada obsta (puxa!) que de dêem
> algumas pinceladas no assunto, até para motivar os alunos e angariar
> futuros estudantes. Mas não vejo como fugir do velho cálculo proposicional
> clássico e do cálculo de predicados clássico. Agora, como fazer isso é
> questão de gosto. Eu particularmente acho que estudantes de filosofia devem
> saber o que é o método axiomático e como usá-lo. Por isso, se não tiver
> tempo, opto por uma coisa "ao estilo Hilbert". Mas, se há chance, claro que
> uma dedução natural cai bem e mesmo os tableaux de algum jeito. Mas
> depende. O bacana seria chamar os alunos para outros papos extra-aula, e
> isso sim faria com que tivéssemos universidades. Mas, com a quantidade de
> aulas e de outras tarefas que temos....
> Para um excelente curso inicial de LC, veja o livro de P. Suppes e S.
> Hill, A first course in mathematical logic. Dá para baixar a versão
> espanhola em djvu. Bom para filósofos e outros cursos não tão "matemáticos".
> Abraço
> D
>
> ________________________________
> Décio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
> deciokrause[at]gmail.com
> www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> ________________________________
>
>
>
>
>
>
>
> Em 12/03/2013, às 16:25, Tony Marmo escreveu:
>
> Aos dois grandes mestres,
>
> 1. A parte da experiência de ensinar matemática é real: muitas vezes quem
> vai ensinar não sabe ensinar. Talvez mesmo desconheça a matéria, mas isso
> já é o pior dos casos. Normalmente, os professores começam sem avaliar em
> que nível os alunos estão e não pensam que o principal é que os alunos
> saiam melhor do que entraram. Acham que os alunos têm uma meta X para
> alcançar, digamos, K% de um conteúdo C. No caso de matemática, existe o
> problema comum do aluno aprender e o professor não conseguir entender que o
> aluno aprendeu, porque não sabe avaliar. Nessa entra o mito do ensino
> tradicional de que professor bom é o que reprova, o que dá prova difícil,
> etc., tudo parte dessas teses educacionais que não funcionam.
>
> 2. A parte da lógica por onde começar, para mim é óbvio: pelas questões
> com as quais os grupos de lógicos em determinada instituição estão
> trabalhando. Não faz sentido começar com o cálculo proposicional clássico
> ou intuicionista num lugar que, por exemplo, se destaca por estudar ou
> enfatiza o estudo de lógica difusa, ou lógica paraconsistente, etc Como
> lógica não é ensinada antes da faculdade, em filosofia é apenas um capítulo
> do ensino médio, não faz sentido senão casar o ensino com a pesquisa.
>
> Em 12 de março de 2013 15:34, Décio Krause <[email protected]>escreveu:
>
>> Marcelo
>> Não é do seu tempo, mas eu fui educado na "matemática moderna". Depois,
>> eu li muito sobre o assunto e para mim transpareceu o que relata:
>> professores não adaptados. Eles simplesmente não sabiam do que se tratava.
>> Certo que houve abusos, mas o problema era essencialmente esse. O mesmo
>> deve ocorrer com a teoria de categorias, como aponta você. Quem iria
>> ensinar?
>> Se impantassem isso, ia sair m*. Sorry.
>> Abraço
>> D
>>
>> *
>> *
>> *
>> *
>> *------------------------------------------------------*
>> *Décio Krause*
>> *Departamento de Filosofia*
>> *Universidade Federal de Santa Catarina*
>> *88040-900 Florianópolis - SC - Brasil*
>> *http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause*
>> *------------------------------------------------------*
>>
>> Em 12/03/2013, às 11:53, Marcelo Finger <[email protected]> escreveu:
>>
>> 2013/3/12 Decio Krause <[email protected]>
>>
>>> Lembre que Lawvere sugere que se se ensine matemática via categorias.
>>> Por que não?
>>>
>>
>> Porque não há professore(a)s que saibam a matéria para ensinar.
>>
>> O problema não é ensinar lógica clássica/não-clássica.  O problema é que
>> quem ensina não entende patavinas de lógica e, pior, não entende sobre como
>> ensinar lógica.
>>
>> IMHO, bons professores de lógica proposicional clássica resolveriam o
>> problema.
>>
>> []s
>>
>>
>>
>>
>>> Abraço
>>> Décio
>>>
>>> ________________________________
>>> Décio Krause
>>> Departamento de Filosofia
>>> Universidade Federal de Santa Catarina
>>> 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
>>> deciokrause[at]gmail.com
>>> www.cfh.ufsc.br/~dkrause
>>> ________________________________
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>> Em 11/03/2013, às 11:17, Tony Marmo escreveu:
>>>
>>> > Caro Professor Décio,
>>> >
>>> > Aproveitando essa discussão, pergunto: não é esse tipo de dúvida mais
>>> uma prova de que já é o tempo de começar o ensino da lógica não mais pela
>>> lógica clássica?
>>> >
>>> > Em 10 de março de 2013 23:12, Décio Krause <[email protected]>
>>> escreveu:
>>> > Oi, Luiz
>>> > Sim, concordo plenamente que de  P podemos inferir P na maioria dos
>>> casos, mas em algumas lógicas isso não vale. O seu critèrio de P é
>>> verdadeiro sse ~P é falso traz outro problema: o da verdade e da falsidade.
>>> Nos cursos iniciais de Lógica, isso tudo é tomado intuitivamente, mas uma
>>> discussão mais detalhada aponta os problemas.
>>> > Outra coisa. Você colocou  uma boa questão sobre a possibilidade de
>>> haver argumentos que são falaciosos tout court. Isso depende do que chama
>>> se argumento e como eu disse na mensagem anterior, não há uma definição
>>> precisa disso. Mas suponha que você elabore um argumento A. Invente agora
>>> uma lögica que tenha A como regra de inferência. Pronto, ele é válido. Mas
>>> você tem razão em dizer que precisamos pensar mais sobre o assunto.
>>> > Abraço
>>> > Décio
>>> >
>>> >
>>> >
>>> > ------------------------------------------------------
>>> > Décio Krause
>>> > Departamento de Filosofia
>>> > Universidade Federal de Santa Catarina
>>> > 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
>>> > http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
>>> > ------------------------------------------------------
>>> >
>>> > Em 10/03/2013, às 21:35, Luis Rosa <[email protected]> escreveu:
>>> >
>>> > > Caro Decio, muito obrigado pelos comentarios (desculpe a falta de
>>> acentos).
>>> > >
>>> > > Sobre a negacao no argumento falacioso, infelizmente nao tenho
>>> conhecimento sobre o 'nao' intuicionista e paraconsistente e, portanto, nao
>>> tenho uma resposta para lhe dar. Acredito que a definicao extensional de
>>> '~' nos argumentos falaciosos apresentados seja essa: ~P tem valor true sse
>>> P tem valor false.
>>> > >
>>> > > Interessante observar que padroes de derivacao outrora validos em um
>>> determinado sistema sao invalidos em outros - nao havia considerado isso.
>>> Nao sera o caso que alguns padroes de derivacao sao falaciosos em todos os
>>> sistemas? Ha como provar isso? Em particular, ha algum sistema em que (LOE)
>>> seria valido? Preciso pensar sobre o assunto.
>>> > >
>>> > > E sim, nao vejo impedimento em classificar como argumento algo como:
>>> > >
>>> > > (1) P
>>> > > (2) Portanto, P (from 1)
>>> > >
>>> > > Certamente o imperativo 'defina seus termos' precisa ser observado.
>>> > >
>>> > > Thanks,
>>> > > LR
>>> > >
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