Caro Jessé,

O que poderia acrescentar para quem está iniciando é o seguinte apontamento que 
pode 
ajudar na leitura de Aristóteles:

As chamadas três leis básicas do pensamento são, como você mesmo já sabe, a lei 
da 
identidade, a do terceiro excluído e a da não-contradição. A tradição 
aristotélica cultivou
duas atitudes a respeito dessas leis, a saber, primeiro acreditar nelas e 
segundo sustentar
que são a mesma lei.

Que as três sejam a mesma lei, isso hoje em dia o uso de linguagem simbólica 
(proposicional) permite ver imediatamente. Há dois mil anos, todavia, esta 
visão 
precisava ser elaborada mais demoradamente.

No livro Gamma da Metafísica de Aristóteles toda a defesa do princípio da 
não-contradição 
já se apoia justamente na ideia de que não é viável descartar tal princípio sem 
jogar fora
a lei da identidade ou o terceiro excluído.

Outras tradições vieram e essas três leis foram questionadas e já se arguiu 
pela separação 
delas. Entretanto, na Filosofia e na Lógica é inevitável proceder por pelo 
menos dois
passos fundamentais: conceber uma clivagem inicial e depois estabelecer uma 
hierarquia.
A Lógica da Antiguidade procedia assim e idem nos nossos dias, mesmo no caso de 
lógicas 
não-clássicas.

Outros temas você encontrará na minha página do site Academia.edu. Eu escrevi 
uns artigos 
explicando a visão não-clássica com propósito maior de divulgação das ideias.
Também lá você encontra minha visão sobre a História e a Filosofia da Lógica que
está na minha tese de doutorado. Lá eu descrevo os rumos que a Lógica tomou e 
dou
algumas explicações sobre as causas das principais mudanças. Não pretendi 
exaurir 
todas as minúcias, mas acho que foi possível esclarecer o pouco que resolvi 
analisar.

> On 15 Sep 2018, at 17:24, Jessé Silva <[email protected]> wrote:
> 
> Carlos, realmente muito interessante. Apesar de que muitos autores, como o 
> próprio Mario F. dos Santos, também fazerem uma abordagem de cunho 
> psicológico e antropológico (talvez você desconheça isso, não sei seu nível 
> de conhecimento em relação ao Mario). Mas consegui entender um pouco do seu 
> posicionamento, apesar de me parecer bem questionável, confesso que me parece 
> mais coerente a existência de algo que se impõe, como Deus, de onde adviria 
> todas as coisas, e dentre elas, os próprios princípios da lógica, ao menos em 
> última análise.
> 
> Mas estou aqui pra colher também opiniões e conclusões das mais diversas 
> mesmo, muito obrigado pelos autores citados. Vai me ajudar muito nas minhas 
> pesquisas.
> 
>> Em sáb, 15 de set de 2018 às 15:32, Carlos Gonzalez <[email protected]> 
>> escreveu:
>> Prezado Jessé,
>> 
>> Durante milhares de anos diferentes tipos de pensadores, como filósofos, 
>> lógicos, matemáticos, teólogos,etc., sofreram a doença dos princípios. Mas 
>> não como organizadores de teorias ou maneiras de estruturar o pensamento, 
>> mas dando um sentido metafísico e visto muitas vezes como algo real. De ai a 
>> mania dos 3 princípios lógicos. Não porque ninguém tinha escrito coisas 
>> interessantes, como os comentários de Hegel na Ciência da Lógica, mas porque 
>> deu lugar a muito fanatismo e bobagem, como o texto citado por você de MF 
>> dos Santos.
>> 
>> A explicação dos 3 princípios lógicos, quando diminui o dogmatismo, não é 
>> lógica, mas psicológica e antropológica. Arkhe é o mando, o príncipe. A 
>> pergunta pelo princípio é uma pergunta política: "quem manda na natureza?", 
>> "quem manda na lógica?". A procura de  uma ordem é um desiderato quase que 
>> eterno na história do pensamento. Aristóteles, a árvore de Porfírio, Fichte 
>> e outros são casos extremos da procura da ordem, do princípio, do mando.
>> 
>> Hoje pareceria que tem começado a percorrer outros caminhos, por fim se 
>> afastando de tanto principismo e procura pela ordem. Pareceria que o 
>> anti-essencialismo tende a uma maior difusão. O misticismo da classificação 
>> é abandonado por autores como Ereshefsky. E eu continuo recomendando o conto 
>> de Borges "O idioma analítico de John Wilkins".
>> 
>> Carlos
>> 
>> @book{ereshefsky2001povertylinneanhierarchy,
>>   title = "The poverty of the {L}innaean hierarchy: A philosophical study of 
>> biological taxonomy",
>>   author = "Marc Ereshefsky",
>>   year = 2001,
>>   publisher = "Cambridge University Press",
>>   address = "Cambridge",
>> }
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 2018-09-15 1:40 GMT-03:00 Jessé Silva <[email protected]>:
>>> Antonio Marmo, interessante.
>>> 
>>> Já tinha visto muito vagamento sobre o problema do "homem não poder banhar 
>>> duas vezes no mesmo rio", mas não sabia que ele se chamava "princípio do 
>>> fluxo".
>>> 
>>> Vou ter que estudar mais ainda pra compreender isso, porque não sei como se 
>>> deu esse conflito.
>>> Mas obrigado pelas dicas, preciso ler o Metafísica e o Organon, eu acho que 
>>> tenho eles em PDF por aqui.
>>> 
>>> Muito obrigado pela ajuda.
>>> 
>>> Eu não quero lhe importunar, mas apenas se não se incomodar, e falar mais 
>>> sobre o tema, eu tenho interesse (pelo fato de eu ser iniciante necessito 
>>> as vezes de um pouco de explicação).
>>> 
>>> De qualquer maneira, seus pronunciamentos já foram de grande ajuda, muito 
>>> obrigado mesmo.
>>> 
>>> 
>>>> Em sáb, 15 de set de 2018 às 01:26, Antonio Marmo <[email protected]> 
>>>> escreveu:
>>>> Está espalhado na “Metafísica” que é uma coleção escrita pelo próprio 
>>>> Aristóteles.
>>>>  O “Organon” é outra coleção. Nessa primeira coleção há uma defesa dos 
>>>> princípios mais 
>>>> “caros” à Filosofia, nem sempre uma demonstração direta. Muitas vezes, usa 
>>>> da 
>>>> argumentação por redução ao absurdo, etc. 
>>>> 
>>>> Você conhece o problema do “mesmo homem não poder banhar-se no mesmo rio 
>>>> duas vezes”? Isto é o chamado princípio do fluxo. Aristóteles relacionou 
>>>> esse problema 
>>>> ao aparente conflito entre as proposições “tudo é verdade” e “nada é 
>>>> verdade”, 
>>>> ou seja, confrontou o Problema de Protagoras e o de Heráclito. 
>>>> 
>>>> Como Aristóteles não “se rende”, mas argumenta contra ambos filósofos, 
>>>> uma das defesas do princípio de identidade que usa é justamente o seu 
>>>> ataque ao princípio do fluxo.
>>>> 
>>>> 
>>>>> On 15 Sep 2018, at 00:37, Jessé Silva <[email protected]> wrote:
>>>>> 
>>>>> Antonio Marmo, novamente obrigado pelo material, pesquisando aqui parece 
>>>>> ser bem interessante mesmo. 
>>>>> Já estou salvando alguns PDF para ler.
>>>>> 
>>>>> Mas no que se refere a Lógica, é possível explicar o princípio da 
>>>>> identidade?
>>>>> 
>>>>> Você citou também que a Metafísica de Aristóteles trata deste problema de 
>>>>> maneiras que interessam à Lógica, você poderia me citar alguns pontos que 
>>>>> demonstram isso para eu compreender melhor? Pois ainda não cheguei a 
>>>>> estudar Aristóteles propriamente.
>>>>> 
>>>>> Desde já muito obrigado pelas respostas, e agradeço a compreensão, ainda 
>>>>> sou iniciante e estou me situando na coisa toda.
>>>>> 
>>>>> 
>>>>>> Em sáb, 15 de set de 2018 às 00:27, Jessé Silva 
>>>>>> <[email protected]> escreveu:
>>>>>> Antonio Marmo, muito obrigado pelo material, irei ver.
>>>>>> 
>>>>>>> Em sáb, 15 de set de 2018 às 00:23, Antonio Marmo 
>>>>>>> <[email protected]> escreveu:
>>>>>>> Jessé,
>>>>>>> 
>>>>>>> Precisa saber se a sua preocupação é mesmo lógica ou epistemológica, ou 
>>>>>>> se vai para o lado metafísico, ou se quer abordar esses dois aspectos 
>>>>>>> de um modo só 
>>>>>>> 
>>>>>>> A “Metafísica” de Aristóteles trata desse problema de maneiras que 
>>>>>>> interessam também à Lógica.
>>>>>>> 
>>>>>>> Mas, se você quer saber sobre filósofos mais recentes, como Hegel que 
>>>>>>> você citou, uma referência é o livro de Paul Ricoeur “O Si-mesmo como 
>>>>>>> um outro”, que trata da clivagem entre identidade e alteridade. 
>>>>>>> 
>>>>>>> Outra obra, de Jan Łukasiewicz, que trata do princípio da 
>>>>>>> não-contradição, levanta uma série de problemas e de insights no plano 
>>>>>>> da Lógica que podem servir também para discutir o princípio da 
>>>>>>> identidade. Há uma tradução para o Italiano “Del principio di 
>>>>>>> contraddizione in Aristotele”.
>>>>>>> 
>>>>>>> Boa sorte.
>>>>>>> 
>>>>>>>> On 14 Sep 2018, at 21:30, Jessé Silva <[email protected]> 
>>>>>>>> wrote:
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Olá pessoal, sou novo aqui e no estudo da lógica formal. E estou com 
>>>>>>>> uma dúvida sobre o princípio da identidade, se alguma alma boa ai 
>>>>>>>> puder me elucidar será de grande ajuda.
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Lendo o livro Lógica e Dialética, do Mario Ferreira dos Santos, 
>>>>>>>> encontrei este trecho numa abordagem sobre a dialética hegeliana:
>>>>>>>> 
>>>>>>>>> O pensamento, que não produz mais que determinações finitas e que 
>>>>>>>>> nelas se move, chama-se inteligência no mais genuíno sentido da 
>>>>>>>>> palavra. Mas, se aprofundarmos um pouco, veremos que a finitude das 
>>>>>>>>> determinações conceituais se produz de duas maneiras: uma, enquanto 
>>>>>>>>> são meramente subjectivas e estão em oposição permanente com o seu 
>>>>>>>>> objecto; outra, enquanto por seu conteúdo limitado, tais 
>>>>>>>>> determinações se contradizem entre si, e muito mais com o absoluto" 
>>>>>>>>> (Idem, pág. 60). Se considerarmos o conceito apenas em si teremos a 
>>>>>>>>> lógica de Aristóteles; se o considerarmos em sua relação com o 
>>>>>>>>> absoluto, ou como parte, ou momento no devir da Idéia teremos a 
>>>>>>>>> posição hegeliana. A primeira constrói o princípio de identidade, que 
>>>>>>>>> apenas revela uma lei do intelecto abstracto, salienta Hegel. "A 
>>>>>>>>> forma da proposição (A = A, do princípio identidade) desde logo se 
>>>>>>>>> contradiz a si mesma, pois toda proposição promete uma diferença 
>>>>>>>>> entre sujeito e predicado, e esta não realiza aqui o que promete por 
>>>>>>>>> sua forma. Mas é de notar, especialmente, que ela é negada pelas 
>>>>>>>>> outras leis do pensamento, que procedem diferentemente. Quando se 
>>>>>>>>> afirma que o princípio de identidade não pode ser provado senão que a 
>>>>>>>>> consciência lhe presta sua adesão e que a experiência, à tal suposta 
>>>>>>>>> experiência é preciso opor a experiência universal de que nenhuma 
>>>>>>>>> consciência pensa, nem tem representações, etc, nem sequer fala, 
>>>>>>>>> segundo esta lei; e que nenhuma existência, qualquer que seja ela, 
>>>>>>>>> existe segundo ela. O falar, segundo esta pretendida lei da verdade 
>>>>>>>>> (um planeta é um... planeta; o magnetismo é... o magnetismo; o 
>>>>>>>>> espírito é... o espírito), passa, com plena razão, como uma falar 
>>>>>>>>> estúpido, e essa, sim, é que é uma experiência universal. A escola na 
>>>>>>>>> que só tinham valor estas leis, com sua lógica em que eram expostas a 
>>>>>>>>> sério, perdeu há muito tempo crédito, tanto ante o bom senso como 
>>>>>>>>> ante a razão" (Enciclopédia, pág. 203-204) 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> - Página 128.
>>>>>>>> 
>>>>>>>> A minha dúvida é: afinal, o princípio da identidade possui seu 
>>>>>>>> fundamento exatamente onde?
>>>>>>>> 
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