Oi Márcio!

Eu fiz graduação, mestrado e uma parte do doutorado na PUC-Rio, num
departamento de Matemática em que todos os professores consideravam
variáveis dependentes e "dx"s sem o sinal de integral (obs: esqueça
formas diferenciais por enquanto!) como abusos de linguagem
impossíveis de formalizar, e que tinham tantos casos ambíguos que era
melhor evitar usá-los...

Há uns anos atrás eu comecei a tentar entender como essas notações
eram usadas pelas pessoas que sabiam usá-las bem, e fiz um monte de
perguntas sobre isso na mailing list do Maxima. Os dinossauros da
lista me mostraram que o Maxima implementa algumas operações com
variáveis dependentes e com diferenciais, mas não conseguiram apontar
pros artigos - que eu desconfiei que existissem, mas até agora não
tenho certeza - das pessoas que implementaram essas operações no
Maxima nas décadas de 70 e 80...

Eles também me recomendaram o "Structure and Interpretation of
Classical Mechanics". Começa por essa resenha daqui,

  https://www.ias.edu/piet/publ/other/sicm

e pelo prefácio do SICM - desconfio que você vai encontrar muitas
idéias úteis lá.

  [[]],
    Eduardo

On Sun, 28 Jun 2026 at 12:47, Márcio Palmares <[email protected]> wrote:
>
> Pessoal,
>
> Estou com uma dúvida aqui e agradeceria qualquer palpite, dica, correção, 
> crítica ou ajuda...
>
> A Margareth E. Baron, matemática e historiadora, escreveu um livro sobre as 
> origens e a história do cálculo diferencial e integral. Foi publicado em 
> 1969. É uma referência meio canônica, ao lado do livro do Boyer sobre o mesmo 
> tema, publicado vinte anos antes (de fato, o D.J. Struik afirma em uma 
> resenha que os dois livros formam um todo, são complementares).
>
> Ao analisar a contribuição de Arquimedes, Baron recorreu a uma interpretação 
> interessante dos Bourbakis, segundo a qual, às vezes, na história da 
> matemática, ocorre uma separação, uma fenda, um distanciamento entre a 
> prática matemática real, os métodos efetivos de descoberta, heurística, 
> invenção, e a superestrutura conceitual, lógica e dedutiva usada para 
> demonstrar, encadear teoremas e expor resultados. Quanto maior essa fenda, 
> esse gap, mais problemática e sujeita a crises (progressivas ou regressivas) 
> está a matemática em questão.
>
> O caso de Arquimedes é emblemático porque ele expunha suas descobertas sobre 
> quadraturas, cálculo de volumes, etc., segundo o cânone da época, usando o 
> método de exaustão, para se adaptar à superestrutura intelectual aceita na 
> época. Mas o método de exaustão não é um método de cálculo: é um método de 
> demonstração. Ele não serve para calcular. Serve para demonstrar resultados 
> já obtidos.
>
> Sabemos hoje, graças à descoberta do palimpsesto que continha "o método 
> mecânico" de descoberta, que o cálculo efetivo de Arquimedes envolvia os 
> indivisíveis de Demócrito e, portanto, recorria ao infinito atual, recusado 
> no método de exaustão. A superestrutura lógica e dedutiva estava divorciada 
> da infraestrutura técnica (o laboratório) e da estrutura (a matemática real, 
> o cálculo real que conduz às descobertas). [A analogia com conceitos de Marx 
> está por minha conta, não está na Baron ou nos Bourbakis.]
>
> Vejamos agora nossa situação presente.
>
> Eu fui um estudante de matemática muito cabeça dura: levava muito a sério 
> tudo o que eu lia nos livros...
>
> No meu livro favorito de cálculo, a segunda edição do "Calculus" do Tom M. 
> Apostol (considero este livro uma obra de arte), há uma passagem em que o 
> autor diz que o dx que aparece no integrando de uma integral indefinida 
> típica, não devemos considerar que a partícula dx tenha qualquer significado 
> próprio. Em "integral de f(x)dx" a expressão f(x)dx deve ser vista como um 
> todo
>
> do mesmo modo como o dicionário dá o significado da palavra 'Marte' sem fazer 
> menção ao significado de 'Mar' e de 'te'.
>
> Ou seja, toda ocorrência de termos como dx ou dy nos cálculos seria 
> destituída de sentido. Seriam meros resíduos sintáticos, ou meras notações, 
> meros marcadores de posição...
>
> Eu acreditei nisso e me agarrei nisso com toda a força.
>
> Mas então eu saía da aula de cálculo, caminhava até o prédio ao lado, e 
> entrava na aula de física.
>
> E então os dx e os dy estavam plenos de vida e de significado, carregados de 
> sentido, de interpretação.
>
> E era lícito calcular com eles: dx/dy é efetivamente uma razão entre 
> quantidades infinitamente pequenas!
>
> E as regras de cálculo dadas, por exemplo, por Leibniz, são no curso de 
> física regras de cálculo mesmo, onde dx pode ser um "elemento infinitesimal 
> de área", um comprimento infinitesimal de um arco de uma curva, etc. E a 
> regra da cadeia ou a da derivada da função inversa são quocientes efetivos, e 
> não meros símbolos vazios usados no lugar de f'(x)...
>
> Em outras palavras: parece que o gap, a fenda, segue existindo.
>
> Temos uma infraestrutura computacional, a matemática real, efetiva, usada 
> para calcular, que emprega o infinitamente pequeno, e uma superestrutura 
> lógica e dedutiva usada para dar definições e provas de teoremas: o aparato 
> epsilon-delta, os quantificadores, o contínuo discretizado da reta real...
>
> Como eu era fanático, eu sabia dar demonstrações precisas usando a técnica 
> epsilon-delta para diversos casos (simples) de funções mais ou menos 
> típicas... Mas essas demonstrações não tem nada a ver com o cálculo como a 
> matemática que usamos para estudar a variação contínua na natureza, na 
> mecânica, no eletromagnetismo...
>
> Essa superestrutura conceitual da análise moderna é tão divorciada da base 
> real sobre a qual o verdadeiro drama se desenrola quanto a monarquia 
> britânica é divorciada da base econômica atual: o capitalismo monopolista e 
> imperialista britânico. A superestrura paira no ar.
>
> Surgem então dois problemas:
>
> 1) É estritamente correto ou justo do ponto de vista historiográfico falarmos 
> em "notação de Leibniz"?
>
> Em Newton existe uma notação: pontinhos para denotar a derivada.
>
> Em Leibniz, não é notação: é cálculo efetivo.
>
> Não faço contas com pontinhos, são meros símbolos: não multiplico um pontinho 
> por outro, não calculo quocientes de pontinhos... Mas faço cálculos com 
> diferenciais.
>
> Uma notação, um símbolo que denota algo, como f'(x), é diferente de uma 
> variável geométrica como dx.
>
> Minha hipótese aqui: o que nossos livros atuais de cálculo fazem (mesmo as 
> obras primas), ao reproduzir a ideologia da "notação de Leibniz", é 
> reproduzir sem querer, de forma inconsciente, o núcleo da acusação de plágio 
> que Leibniz sofreu: o núcleo da acusação era o de que em Leibniz não havia um 
> cálculo real, apenas uma notória habilidade para construir notações 
> favoráveis. Essa noção contudo é falsa: Leibniz foi absolvido da acusação de 
> plágio pelo Tribunal da História, mas o prejuízo contra a inteligibilidade de 
> sua obra matemática permaneceu. A propósito, o livro da Margareth Baron 
> contém um ataque brutal contra Leibniz e que reproduz integralmente o 
> conteúdo da acusação de plágio. É um marco historiográfico: prova que o dano 
> foi permanente.
>
> 2) Na prática efetiva do cálculo diferencial e integral, o aparato 
> epsilon-delta é alguma vez usado de forma produtiva, isto é, para gerar 
> resultados novos, ou ele intervém apenas na fase da organização dedutiva de 
> um saber já obtido por outros meios?
>
> Eu já tenho a minha tese. Essas perguntas são subprodutos dela. Embora eu 
> esteja já quase totalmente convencido, gostaria muito de ouvir as opiniões de 
> vocês, se possível.
>
> Obrigado!
>
> Abraços,
>
> M.
>
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