Oi Júlio,

Obrigado pela mensagem!

Pois é... depois daquele dia fiquei pensando na nossa conversa e acho que
você tinha razão. Eu disse uma coisa errada.

Imitando o desdém dos físicos, temos vários "formalismos" que resolvem a
mesma classe de problemas:

1) Newton e Leibniz (cálculo com infinitesimais ou quantidades
evanescentes);

2) Análise clássica, forma predominante hoje, que é o paradigma
Weierstrass-Dedekind-Cantor;

3) Análise não-standard, do Abraham Robinson (com infinitesimais e lógica
clássica);

4) Análise Infinitesimal suave, Lawvere-Kock (com infinitesimais e "lógica
intuicionista", topos logic, mais precisamente);

5) Análise construtiva, do Bishop (sobre essa não sei nada exceto que é
construtiva).

Então, são pelo menos cinco formas distintas de atacar a mesma classe de
problemas...

Eu supus que houvesse algo invariante sob essas distintas "linguagens", e
que esse algo invariante fosse o pensamento matemático, um tipo de
racionalidade...

E aí você observou que talvez houvesse círculo vicioso ou petição de
princípios no que eu estava sugerindo.

Então pensei bem e acho que você estava certo... o que é invariante aí são
os problemas.

Se o conhecimento é um tipo de criação da mente, e essas criações são
claramente distintas, a invariancia está nos problemas e nas repostas
finais... mas o modo de obter as repostas depende de criações distintas e
são, portanto, produtos de conhecimentos distintos...

Então, concordo com você: temos vários cálculos, mas só uma natureza lá
fora. É o exterior que é invariante, não o nosso modo de atacá-lo.

Estou tentando chegar numa formulação em que a matemática é histórica sem
ser relativista, e em um pluralismo pragmático. Vamos ver se consigo.

Quanto às formas superiores do conhecimento que derivam da análise moderna,
acho que talvez existam modos alternativos de chegar a esses pontos, talvez
essa geometria diferencial sintética da teoria dos topos... Mas acho que
você está certo no fundamental: existe progresso feito a partir da análise
moderna. Não posso desprezá-la em favor de um historicismo que ignore o
progresso. Quero manter o progresso...

A formulação tem que ser mais ou menos: matemática histórica sem ser
relativista, com reconhecimento de que existe progresso, pluralismo de
frameworks e critério pragmático de escolha entre frameworks.

Acho que é isso.

Obrigado mais uma vez!

Abração!

M.



Em domingo, 28 de junho de 2026, Júlio Barczyszyn <[email protected]>
escreveu:

> Oi, Márcio!
>
> Sobre sua pergunta dois, acho que dá para ver a coisa por essa perspectiva
> (para além da justificação rigorosa de teoremas):
>
> No formalismo da Relatividade Especial, recuperamos resultados que já
> sabemos que devem ocorrer na Mecânica Clássica, talvez com alguma pequena
> novidade, diferença, generalização. Mas, além disso, temos algumas
> novidades ou restrições.
>
> Sobre epsilon-delta, talvez no caso da reta a gente prove coisas
> intuitivas já conhecidas a partir desse formalismo (Teorema do Valor Médio,
> por exemplo), mas eu não consigo imaginar um estudo de Análise Funcional ou
> Teoria da Medida que não precise de tal "tecnologia".
>
> De todo modo, parte do seu espanto está relacionado com o que eu já havia
> mencionado num outro e-mail: em que medida esses cálculos são "o" Cálculo,
> de forma equivalente? Acredito que tudo que você menciona, para além da
> história e sociologia, nos faz acreditar que há motivos para suspeitar que
> há de fato cálculos, no plural.
>
> Grande abraço,
> Júlio
>
>
> On Jun 28, 2026 12:47, Márcio Palmares <[email protected]> wrote:
>
> Pessoal,
>
> Estou com uma dúvida aqui e agradeceria qualquer palpite, dica, correção,
> crítica ou ajuda...
>
> A Margareth E. Baron, matemática e historiadora, escreveu um livro sobre
> as origens e a história do cálculo diferencial e integral. Foi publicado em
> 1969. É uma referência meio canônica, ao lado do livro do Boyer sobre o
> mesmo tema, publicado vinte anos antes (de fato, o D.J. Struik afirma em
> uma resenha que os dois livros formam um todo, são complementares).
>
> Ao analisar a contribuição de Arquimedes, Baron recorreu a uma
> interpretação interessante dos Bourbakis, segundo a qual, às vezes, na
> história da matemática, ocorre uma separação, uma fenda, um distanciamento
> entre a prática matemática real, os métodos efetivos de descoberta,
> heurística, invenção, e a superestrutura conceitual, lógica e dedutiva
> usada para demonstrar, encadear teoremas e expor resultados. Quanto maior
> essa fenda, esse gap, mais problemática e sujeita a crises (progressivas ou
> regressivas) está a matemática em questão.
>
> O caso de Arquimedes é emblemático porque ele expunha suas descobertas
> sobre quadraturas, cálculo de volumes, etc., segundo o cânone da época,
> usando o método de exaustão, para se adaptar à superestrutura intelectual
> aceita na época. Mas o método de exaustão não é um método de cálculo: é um
> método de demonstração. Ele não serve para calcular. Serve para demonstrar
> resultados já obtidos.
>
> Sabemos hoje, graças à descoberta do palimpsesto que continha "o método
> mecânico" de descoberta, que o cálculo efetivo de Arquimedes envolvia os
> indivisíveis de Demócrito e, portanto, recorria ao infinito atual, recusado
> no método de exaustão. A superestrutura lógica e dedutiva estava divorciada
> da infraestrutura técnica (o laboratório) e da estrutura (a matemática
> real, o cálculo real que conduz às descobertas). [A analogia com conceitos
> de Marx está por minha conta, não está na Baron ou nos Bourbakis.]
>
> Vejamos agora nossa situação presente.
>
> Eu fui um estudante de matemática muito cabeça dura: levava muito a sério
> tudo o que eu lia nos livros...
>
> No meu livro favorito de cálculo, a segunda edição do "Calculus" do Tom M.
> Apostol (considero este livro uma obra de arte), há uma passagem em que o
> autor diz que o dx que aparece no integrando de uma integral indefinida
> típica, não devemos considerar que a partícula dx tenha qualquer
> significado próprio. Em "integral de f(x)dx" a expressão f(x)dx deve ser
> vista como um todo
>
> do mesmo modo como o dicionário dá o significado da palavra 'Marte' sem
> fazer menção ao significado de 'Mar' e de 'te'.
>
> Ou seja, toda ocorrência de termos como dx ou dy nos cálculos seria
> destituída de sentido. Seriam meros resíduos sintáticos, ou meras notações,
> meros marcadores de posição...
>
> Eu acreditei nisso e me agarrei nisso com toda a força.
>
> Mas então eu saía da aula de cálculo, caminhava até o prédio ao lado, e
> entrava na aula de física.
>
> E então os dx e os dy estavam plenos de vida e de significado, carregados
> de sentido, de interpretação.
>
> E era lícito calcular com eles: dx/dy é efetivamente uma razão entre
> quantidades infinitamente pequenas!
>
> E as regras de cálculo dadas, por exemplo, por Leibniz, são no curso de
> física regras de cálculo mesmo, onde dx pode ser um "elemento infinitesimal
> de área", um comprimento infinitesimal de um arco de uma curva, etc. E a
> regra da cadeia ou a da derivada da função inversa são quocientes efetivos,
> e não meros símbolos vazios usados no lugar de f'(x)...
>
> Em outras palavras: parece que o gap, a fenda, segue existindo.
>
> Temos uma infraestrutura computacional, a matemática real, efetiva, usada
> para calcular, que emprega o infinitamente pequeno, e uma superestrutura
> lógica e dedutiva usada para dar definições e provas de teoremas: o aparato
> epsilon-delta, os quantificadores, o contínuo discretizado da reta real...
>
> Como eu era fanático, eu sabia dar demonstrações precisas usando a técnica
> epsilon-delta para diversos casos (simples) de funções mais ou menos
> típicas... Mas essas demonstrações não tem nada a ver com o cálculo como a
> matemática que usamos para estudar a variação contínua na natureza, na
> mecânica, no eletromagnetismo...
>
> Essa superestrutura conceitual da análise moderna é tão divorciada da base
> real sobre a qual o verdadeiro drama se desenrola quanto a monarquia
> britânica é divorciada da base econômica atual: o capitalismo monopolista e
> imperialista britânico. A superestrura paira no ar.
>
> Surgem então dois problemas:
>
> 1) É estritamente correto ou justo do ponto de vista historiográfico
> falarmos em "notação de Leibniz"?
>
> Em Newton existe uma notação: pontinhos para denotar a derivada.
>
> Em Leibniz, não é notação: é cálculo efetivo.
>
> Não faço contas com pontinhos, são meros símbolos: não multiplico um
> pontinho por outro, não calculo quocientes de pontinhos... Mas faço
> cálculos com diferenciais.
>
> Uma notação, um símbolo que denota algo, como f'(x), é diferente de uma
> variável geométrica como dx.
>
> Minha hipótese aqui: o que nossos livros atuais de cálculo fazem (mesmo as
> obras primas), ao reproduzir a ideologia da "notação de Leibniz", é
> reproduzir sem querer, de forma inconsciente, o núcleo da acusação de
> plágio que Leibniz sofreu: o núcleo da acusação era o de que em Leibniz não
> havia um cálculo real, apenas uma notória habilidade para construir
> notações favoráveis. Essa noção contudo é falsa: Leibniz foi absolvido da
> acusação de plágio pelo Tribunal da História, mas o prejuízo contra a
> inteligibilidade de sua obra matemática permaneceu. A propósito, o livro da
> Margareth Baron contém um ataque brutal contra Leibniz e que reproduz
> integralmente o conteúdo da acusação de plágio. É um marco historiográfico:
> prova que o dano foi permanente.
>
> 2) Na prática efetiva do cálculo diferencial e integral, o aparato
> epsilon-delta é alguma vez usado de forma produtiva, isto é, para gerar
> resultados novos, ou ele intervém apenas na fase da organização dedutiva de
> um saber já obtido por outros meios?
>
> Eu já tenho a minha tese. Essas perguntas são subprodutos dela. Embora eu
> esteja já quase totalmente convencido, gostaria muito de ouvir as opiniões
> de vocês, se possível.
>
> Obrigado!
>
> Abraços,
>
> M.
>
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