Olá a todos!

Esta Lista é realmente muito legal! É com prazer e estímulo que participo
dela.

Para mim, o melhor da Lista é que um estudante propõe um problema mais ou
menos assim:

Paulo tem o dobro da idade de Pedro. Pedro tem 10 anos. Qual é a idade de
Paulo?

Aí, o primeiro cara responde 20 anos. O segundo pergunta se o aniversário de
Pedro coincide com o de Paulo. O terceiro considera que a idade evolui de
forma contínua, e não discreta, portanto não há uma resposta "exata", já que
os aniversários não podem ser absolutamente coincidentes. O quarto indaga em
que sistema (métrica) de numeração estão expressas as idades. O quinto expõe
que sendo Paulo um adulto e Pedro uma criança, a massa corporal de Paulo é
maior do que a de Pedro, daí, pela Teoria da Relatividade, o tempo evolui
mais rapidamente para Pedro do que para Paulo - como as massas de ambos não
foram informadas, o problema está indeterminado. O sexto explica que, além
da falta da informação referente às massas, Paulo, por ser mais velho, já
andou (se deslocou) mais do que Pedro, daí (novamente pela Relatividade de
Einstein) o espaço-tempo dos dois é diferente: Paulo já viveu mais do que o
dobro do que viveu Pedro. E por aí vai...

O que quero dizer é que essa discussão sobre integrais e definições, digamos
não ortodoxas, de algumas funções foi bastante interessante. Eu mesmo me
lembro que há 10 - 15 anos atrás (como eu já estou ficando velho!) discuti
com o Nicolau Saldanha sobre a definição da função Gama. Da mesma forma,
tudo começou quando um estudante perguntou o valor numérico do fatorial de
"pi" (pi!). Depois de algumas mensagens, o Nicolau quis estender o domínio
da função Gama para o R^n (ou mesmo matrizes), mas preservando a
correspondência dessa função com o fatorial dos números naturais. Eu já
queria definir a função Gama de acordo com as suas propriedades em Relação à
Transformada de Laplace - bacana, não? Pois é...  

Finalizando, acho que não fui claro em um ponto de minhas mensagens
anteriores:

O que quis dizer foi: ainda não foi descoberto um algoritmo generalizado
para o cálculo das integrais indefinidas. Acredito, até, que se possa provar
a impossibilidade de um algoritmo assim. Daí, EM PRINCÍPIO, não é possível
calcular a integral indefinida de uma função genérica - só é possível
calcular a integral indefinida de determinadas famílias de funções. Daí, EM
PRINCÍPIO, a integral indefinida de uma certa função não pode ser calculada,
até que alguém, por algum método a descubra (aí valendo até a intuição) - é
isto.

Saudações a todos,
Albert Bouskela
[email protected]
[email protected]

> -----Original Message-----
> From: [email protected] [mailto:[email protected]]
> On Behalf Of Bernardo Freitas Paulo da Costa
> Sent: Wednesday, March 25, 2009 4:45 AM
> To: [email protected]
> Subject: [obm-l] Re: [obm-l] Re: [obm-l] RE: [obm-l] Re: [obm-l] Re:
[obm-l] Re:
> [obm-l] Integral de exp(x^-2), por que é impossível?
> 
> Só pra dizer mais umas coisas legais :
> 
> O Elon tem no livro dele (não sei mais se é o Análise Real ou o Curso
> de Análise, volume 1, claro) a mesma idéia pra definir senos e
> cossenos. Pra quem gosta de cálculo diferencial, esse é um prato cheio
> pra lembrar como fazer algumas contas, e, melhor ainda, ver que
> realmente seno e cosseno estão bem-definidas e tal:
> 
> 1) seja f'' + f = 0 uma função tal que f(0) = 0, f'(0) = 1 (qualquer
> semelhança com o seno é pura coincidência)
> 2) Chame (sei lá por quê...) g = f', e note que g'' = f''' = (-f)' =
> -f' = -g, logo g'' + g = 0 também, que legal, e g' = f'' = -f
> 3) Note que g^2 + f^2 = 1 : derivando, dá 2gg' + 2ff' = -2gf + 2fg =
> 0, logo é constante, logo g^2 + f^2 = g(0)^2 + f(0)^2 = 1 + 0 = 1
> 4) Como g(0) = 1 > 1/2, e f' = g, temos que f é monótona crescente num
> intervalo em torno de zero. Como g^2 = 1 - f^2, g é monótona
> decrescente.
> 5) Existe um ponto x > 0 em que g(x) = 0 : senão, g seria sempre maior
> do que zero (pois g(0) = 1 > 0, teorema do valor intermediário), logo
> f seria sempre crescente. Olhando de novo para f' = g, temos que num
> intervalinho em torno do zero, f' > 1/2, logo f > 1/2 * comprimento do
> intervalinho. Como g' = -f, além desse intervalinho (digamos [0,a], g
> está ABAIXO de uma reta de inclinação -f(a) < -a/2. Logo g *tem que*
> cruzar zero.
> 6) Chame esse ponto mágico de primeira anulação de g de A (como anulação
> !)
> Note que g'(A) = 1 ou -1 (porque g' = -f, f(A)^2 = 1 - g(A)^2 !) e
> como g é positiva entre 0 e A, temos f crescente, logo f positiva,
> logo f(A) = 1, logo g'(A) = -1
> 7) Use isso para ver que -g'(x+A) é uma solução também da equação, com
> mesmas condições e o mais. Repetindo duas vezes, você descobrirá que
> f(x+4A) = f(x) (atenção pros sinais)
> 8) Prove agora as fórmulas mágicas de soma e subtração de senos e
> cossenos que você conhece usando derivada, por exemplo : f''(a+x) =
> -f(a+x) é solução da equação diferencial, e (f(a)g(x) + f(x)g(a))'' =
> f(a)g''(x) + f''(x)g(a) = f(a)(-g(x)) + (-f(x))g(a) = -(f(a)g(x) +
> f(x)g(a)) também é solução, e note que f(a+0) = f(a) e f(a)g(0) +
> f(0)g(a) = f(a)*1 +0*g(a) = f(a) e a primeira derivada também
> coincide, logo as funções são iguais.
> 9) Essas funções estão definidas em toda a reta real, f(-x) = -f(x), e
> se a gente chamar A = pi/2, temos uma nova definição de pi.
> 
> Uma idéia ainda mais ousada é definir seno e cosseno pela série deles
> seno(x) = soma (-1)^n x^(2n+1) / (2n +1)!, convergente em toda a reta
> (e normalmente em cada intervalo finito) pelo critério de d'Alembert.
> Isso dá imediatamente a equação diferencial (pra provar que ela se
> anula e o resto) e a série de Taylor, as derivadas, os limites
> sin(x)/x pra x->0 etc.
> 
> Outra coisa : o Liouville provou um teorema descrevendo um algoritmo
> de integração que decide se uma função é integrável ou não em "termos
> simples" (com uma definição do que sejam "termos simples", claro). Ela
> usa uns conceitos de Álgebra pra funcionar, e é bem interessante do
> ponto de vista moderno : considerar todas as funções de uma vez só é
> permite provar o teorema, enquanto uma análise caso a caso não. Um
> link (não achei um pdf com a demo, mas deve dar pra encontrar) :
> http://www.sosmath.com/calculus/integration/fant/fant.html
> 
> 2009/3/24 Ralph Teixeira <[email protected]>:
> > Oi, Bouskela. Você tem uma certa razão... Mas, sinceramente, o que
> > diabos é e^x? Mais espcificamente, o que é e^pi, por exemplo? Dá para
> > definir por limites usando números racionais, mas dá um certo
> > trabalhinho...
> >
> > Então tem um pessoal que prefere DEFINIR o logaritmo pela integral, e
> > DEFINIR a função e^x como sendo a inversa do ln (assim, este tal de
> > "e" por definição seria o número cujo ln é 1!). Neste novo "universo",
> > as coisas se encaixam elegantemente (e, de bônus, responde-se a
> > pergunta do meu parágrafo anterior). Mais detalhadamente, a ordem
> > lógica desse pessoal é:
> >
> > *Alerta! Texto DENSO a seguir! Nada difícil, mas está denso!*
> >
> > 0. Não sabemos o que é ln, nunca ouvimos falar de "e", não temos a
> > mínima idéia do que seja a^x quando x não é racional.
> > 1. Para x em (0,+Inf), definimos ln(x)=Int(1 a x) 1/t dt. Assim,
> > d(lnx)/dx=1/x e ln1=0.
> > 2. Conclua que ln(x) é crescente (pois a derivada é +).
> > (2a. Em particular, note que ln2>ln1=0.)
> > 3. Mostre que ln(x^r)=r.ln(x) (pelo menos para r racional)
> > -- Um jeito é: tome h(x)=ln(x^r)-rln(x); derivando, usando a Regra da
> > Cadeia e (1), vem h'(x)=0. Então h(x)=h(1)=0.
> > 4. Usando 2a e 3, temos que ln(2^r)=r.ln2 pode ser tão grande quanto
> > quisermos se r for grande, e tão negativo quanto quisermos se r for
> > bem negativo. Assim, a imagem desta misteriosa ln(x) é o intervalo
> > (-Inf, +Inf).
> > 5. Por (2), lnx é monótona, então invertível; vamos chamar sua inversa
> > de exp(x):(-Inf, +Inf) -> (0,+Inf) (estes intervalos vêm de (4) e
> > (1)).
> > 6. Mostre que exp(rx)=exp(x)^r (pelo menos para r racional)
> > -- Um jeito: use que
exp(rx)=exp(rln(exp(x)))=exp(ln(exp(x)^r))=exp(x)^r.
> > 7. DEFINIÇÃO: e=exp(1). Assim, exp(x)=exp(x.1)=exp(1)^x=e^x (pelo
> > menos para x racional)
> > 8. Agora é o contrário: a gente vai MOSTRAR que e=lim ln(1+1/x)^x
> > quando x vai para Inf. Como? Use L´Hôpital nesta indeterminação do
> > tipo "1^(+Inf)".
> > 9. DEFINIÇÃO: x^y=exp(y.lnx) sempre que x>0, para qualquer y,
> > inclusive y irracional.
> >
> > Parece que dá MUITO mais trabalho (poxa, são uns 10 teoreminhas
> > encadeados)... Mas, no processo, a gente prova elegantemente todas as
> > propriedades dos logaritmos e das exponenciais (bom, tem algumas que
> > eu não pus aqui, mas que saem de maneira similar).
> >
> > Quando a gente dá Cálculo 1 *para a matemática* aqui na UFF, a gente
> > reserva uma aula de 2 horas para falar disso. Eu começo a aula fazendo
> > o passo 0. Aí eu pergunto: quanto é ln(a.b)? Quanto é ln(10^6)? Quanto
> > vale e? Respostas corretas (antes do passo 1): não tenho ideia, nunca
> > vi mais gordoooooo, "é", que "é"? :) :) :)
> >
> > Abraço a todos,
> >                Ralph
> >
> 
> 
> --
> Bernardo Freitas Paulo da Costa
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> Instruções para entrar na lista, sair da lista e usar a lista em
> http://www.mat.puc-rio.br/~obmlistas/obm-l.html
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