Caro Tom (e companheir@s da OKF), A meritocracia tem como característica uma estrutura vertical de gestão, mecanismo de decisão top-down, a existência de hierarquias, aversão à promoção da igualdade como critério, ausência de validação das decisões pelas camadas de "menos mérito", o que a torna quase imune a mudanças que venham "de baixo". Sua legitimidade não se dá através de accountabilitty (prestação de contas), transparência, ou mecanismos de participação que promovam interesses mais amplos, se não que apenas pelo suposto "mérito" dos que detêm o poder. Como a universidade tem a meritocracia como base de estrutura de poder e do processo de tomada de decisão, em parte, os problemas que você se refere na mensagem estão associados à meritocracia.
Outra parte dos problemas que você lista em sua mensagem se referem a questão da estabilidade do funcionalismo público. Em poucas palavras: há o modelo liberal, norte americano, com enorme disparidade de salários e contratos de curta duração; e há outro modelo, social-democrata/europeu, onde a diferença salarial é bem menor e o docente possui vínculo estável com o serviço público. De fato, se o modelo das universidades norte-americanas for a opção, então há que aceitar a precarização do trabalho, a punição às mulheres que sacrificam a carreira para serem mães (ou os pais que cuidam dos filhos, que em alguns países da Europa, podem tirar licença-paternidade de até 2 anos). E esqueça qualquer política de cotas, pois isso vai contra o princípio do mérito - como se a história colonial não trouxesse consequencia às gerações seguintes! Na meritocracia, quem está em situação desprivilegiada, o está por sua própria culpa. Na USP, a meritocracia criou uma série de gratificações e privilégios para algumas castas encasteladas no poder (por "mérito") com supersalários. Na Unicamp <http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/07/1655882-cupula-da-unicamp-recebe-dois-salarios-e-ultrapassa-teto-de-sp.shtml>, criaram até um segundo registro funcional para que os meritosos dirigentes pudessem ter dois salários e escapassem do teto constitucional. Na USP, como solução aos problemas financeiros que os meritosos dirigentes causaram, os próprios decidiram desativar as creches, desmontar o Hospital Universitário e trocar funcionários por terceirizados mal pagos por empresas suspeitas (como a Pluri Serviços e O.O. Lima, flagradas em diversas esquemas fraudes em licitações) com custosos contratos. Se pesquisar mais profundamente sobre o tema, verá que a meritocracia é usada desde o século XVIII para defender privilégios e combater políticas igualitárias. Esse discurso é perigoso. Assim, não me sinto representado por uma organização que defende a "meritocracia" (desculpe Tom, me corrija se você representa a si mesmo ou à OKF no evento organizado pelos alunos de Sistemas de informação da USP em que falará sobre suas ideias de meritocracia). Na verdade, não entendi o que levou a entrada do tema no debate (seria temor às assembleias gerais?), nem quais seriam as consequências objetivas dessa "filosofia" de governança. O que percebi foi uma mudança na forma de comunicação por parte da direção executiva, que - ao invés de uma postura discreta - passa a se manifestar sobre muitos assuntos em primeira pessoa. A meritocracia enquanto um princípio de governança é nociva à OKBR e inevitavelmente aprofundará á desunião, pois muitos participantes defendem sistemas mais horizontais e colaborativos de gestão e de tomada de decisão - o que faz sentido com a militância dos movimentos "open". Talvez o foco foi desviado do verdadeiro problema do _método_ associado à falta de experiência em gerir uma organização com tais características. Gostaria de dizer que respeito qualquer opinião contrária a minha. Vejo essa questão como eminentemente política e ideológica, sem levar para o lado pessoal. Abraços, Jorge On 07/08/2015 06:52, Everton Zanella Alvarenga wrote: > Olá professor Jorge, > > tudo bem? Achei útil entender o contexto em que o artigo foi escrito, > mas ele foge à proposta da discussão, que é termos a meritocracia como > um valor da Open Knowledge Brasil. Também para fins históricos, na > minha primeira apresentação sobre a Open Knowledge > <http://pt.slideshare.net/everton137/open-knowledge-foundation-brasil> > no Brasil, eu mencionava a meritocracia, algo que gosto desde épocas > de estudante, mesmo sabendo o quão injusto alguns sistemas que tentam > reconhecer algum mérito podem ser (e. g., focar dar bolsas de > iniciação científica somente na média ponderada). > > Gostaria de sugerir que focássemos nas ideias contidas no artigo e não > desqualificássemos tudo o que foi dito devido ao seu contexto > histórico ou começando com um ataque /ad hominem/ ao professor Moyses > Nussenzveig. Pelo menos a coleção de física básica dele e suas > publicações científicas valem mais do que muita gente sequer sonhará > em publicar em anos de carreira. Ele mereceu o salário pago por nossos > impostos, na minha opinião. > > Vou dizer, agora, apenas uma coisa que gostei. > > *Avaliação de professores > > * > Eu acho super importante existirem mecanismos externos para avaliar os > professores e os alunos. Não sei que prova é essa GED, mas não importa > aqui. Qualquer um aqui que tenha frequentado algumas universidades > públicas, até mesmo algumas consideradas as melhores, sabe que > existem, sim, docentes e alunos relapsos. > > Na minha graduação inteira vi os mais diversos tipos de docentes: 1. > os não publicavam, mas eram professores que alegravam os estudantes, > muitos sendo (auto-)enganados que algo aprendiam, 2. os que publicavam > muito, mas não necessariamente eram bons professores, 3. os que eram > péssimos pesquisadores com um nível sofrível de publicações, revistas > onde publicam idem e também nem sabem bem o que falam durante as aulas > 4. os que vivem fazendo só política para sobreviver, 5. os que tem uma > maior dedicação a atividades de extensão, 6 os que ficam cuidando > praticamente o tempo todo de tarefas administrativas, 7 os que se > preocupam bastante educação, pelo menos esforçando para preparar suas > aula... e vários outros perfis dentro de uma universidade que alguns > conhecem melhor do que eu. > > Vendo esse quadro bastante díspar de perfis, perguntas: > > 1. Todos docentes merecem os mesmo reconhecimento diante de suas > atuações profissionais? > 2. Se concordarmos que alguns docentes produzem mais, alinhados com a > missão da universidade onde está, e acho que ninguém vai discordar que > isso ocorre, de que forma vamos dar esse reconhecimento? > Financeiramente, menções honrosas, projetos? O que? > 3. A tal estabilidade de um cargo público até mesmo dos parasitas > universitários e alguns até corruptos, como resolvê-la? > > Nós vimos recentemente que a maior universidade do país, a USP, > divulgou os salários dos seus docentes. Eu fiquei curioso e fui ver > alguns nomes que conheço, principalmente na área que estudei. Vi até > docente que cometeu plágio, a reitoria passou a mão na cabeça, e hoje > ganha mais de R$ 20.000 por mês. Ou ex-diretor que pegou bode > espiatório para não levar a fama. As história não param. > > E as diferenças exorbitantes dos salários, se devem a que? Ao mérito? > Os critérios são todos justos? Eu mesmo fiquei impressionado com a > diferença de salários entre alguns nomes que conheço. > > Independentemente da sua resposta, certo estou que quando virmos um > docente relapso com um salário como os que vimos, não vamos achar > justo, ainda mais com essa estabilidade do funcionalismo público. > > E os docentes que se dedicam para atividades de cultura, ensino e > extensão, isso é valorizado? Nós sabemos que não, a produtividade > acadêmica é o que conta - claro que tem que contar, pois alguém que > não consegue publicar vivendo disso, algo estranho tem aí... E estou > ciente do dilema 'publique ou sofra', o que pressiona também ocorrerem > coisas como qualidades ruins de publicação ou até mesmo plágio, como > vimos numa época não muito distante. > > Enfim, há outros pontos discutíveis no artigo. Podemos não concordar > com tudo, mas gostaria de deixar esses questionamentos antes de voltar > novamente porque acho que alguma meritocracia deve existir. Podemos > até definir o que queremos dizer com isso, mas no ponto que levantei > agora acho que deixo um pouco mais claro o que quero dizer. Algumas > pessoas, em condições semelhantes, tem algum mérito para usufruírem de > algumas recompensas. > > Everton > * > * > * > * > > Em 8 de julho de 2015 12:12, Jorge Machado <[email protected] > <mailto:[email protected]>> escreveu: > > Esse artigo (do Moyses) é muito conservador e visa confundir o > leitor. Vamos ao contexto. Antes a UFRJ (onde ele dá aula) estava > sob intervenção federal. O reitor José Vilhena - terceiro colocado > na votação da universidade - havia sido indicado por decreto pelo > FHC, em total desrespeito à vontade da comunidade. Isso gerou > ondas protestos que se alastraram pelos campi da UFRJ e duraram > todo mandato e geraram anos de tensão. > > O discurso desse professor é o de uma raposa velha que tenta > confundir as coisas. Veja o ranço dele quando se refere às > organizações de trabalhadores como "hostes [de hostis, inimigos] > sindicais". E "hoste" também é o serviço militar que os vassalos > deviam aos nobres no período medieval. É isso que pensa a elite > desse país pós-colonial quando os "vassalos" tentam participar de > processos decisórios... > > Esse modelo não é bom para a OKBR. Talvez a gente tem que voltar > as raízes que levaram à criação da OKBR. > > Abs > Jorge > > PS: E para falar de reitores, se fosse pelo mérito a USP poderia > ter tido um Aziz Ab'Saber, Mário Schemberg, Antonio Cândido, > Florestan Fernandes, apenas para citar alguns... Por trás da > meritocracia, temos uma universidade pessimamente gerida, sem > transparência (ou "opaca" como dizem alguns), com /accountability/ > quase nulo... > > > > _______________________________________________ > okfn-br mailing list > [email protected] > https://lists.okfn.org/mailman/listinfo/okfn-br > Unsubscribe: https://lists.okfn.org/mailman/options/okfn-br
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