O TRABALHO: UMA INSTITUIÇÃO CONDENADA À MORTE ? BURKE (In , Carta aos Xerifes de Bristol)
Por longo tempo o trabalho era sinônimo de expiação. Na doutrina platônica o trabalho era reconhecido tão-somente como uma atividade própria de pessoas ignorantes. Essa concepção platônica perdurou predominantemente até o fim da escravidão e foi ruindo a partir do momento que o homem, imbuído por outros propósitos (econômicos, religiosos , etc), encontrou no trabalho uma arena de virtude contribuinte para a sua redenção. Dentro dessa ótica a civilização ocidental promoveu o trabalho imprimindo-lhe uma enorme carga de significância moral e reconhecendo-lhe como manifestação de uma espiritualidade . Essa construção é observada exemplificativamente nos ensinamentos do evangelho de João (6, 27) : "Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará." Antecipadamente é bom que se frise a distinção clássica existente entre o trabalho e o emprego. Este é apenas uma espécie de atividade sujeita a uma intensa disciplina protetiva. O trabalho, no sentido amplo, serve para designar toda a atividade do homem. A abordagem sobre o trabalho volta-se mais diretamente em relação ao trabalho remunerado, excluindo-se daí aquele que é prestado gratuitamente. Toda a importância atribuída ao trabalho está sendo objeto de uma releitura através da qual o debate principal finca-se em saber se o trabalho ainda é o grande referencial que lapida e afere o grau de dignidade do homem . A releitura sobre a categoria sociológica do trabalho vem sendo abordada na atualidade conforme duas concepções teóricas: a do trabalho enquanto categoria central; e a do trabalho como uma categoria periférica . Claus Offe, Vivianne Forrester e Jeremy Rifkin destacam-se. Offe: o "(...) trabalho não só foi deslocado objetivamente de seu status de uma realidade de vida central e evidente por si própria; como conseqüência desse desenvolvimento objetivo, mas inteiramente contrário aos valores oficiais e aos padrões de legitimação dessa sociedade, o trabalho está perdendo também seu papel subjetivo de força estimulante central na atividade dos trabalhadores." (1995: 194). Offe baseia-se fortemente na avaliação subjetiva do trabalhador, atingida diretamente pela desintegração da realidade proletária, para apontar o declínio da categoria trabalho. A obra "O horror econômico" foi elaborada com base no pressuposto de que a civilização hodierna não é mais marcada pelo trabalho como característica fundante. A aludida autora defende que o discurso do trabalho reveste-se de um objetivo : o engodo de se querer perpetuar o que não mais existe. Diferentemente de Offe, Forrester sustenta que não há uma crise do trabalho, mas sim há uma outra realidade proveniente de uma "mutação brutal de uma civilização do trabalho". Tal entendimento é fincado principalmente na assertiva de que o trabalho foi por longo período o elemento definidor da dignidade do homem ocidental. Tal fato justifica a existência de um forte vínculo histórico na civilização ocidental a ponto desta erigir o trabalho à uma categoria mitológica. Portanto, subsiste ritualisticamente - uma certa idéia fixa que impossibilita a sociedade de enxergar uma nova era bem diversa da sucumbente civilização do trabalho.. Forrester entende ainda que essa "mutação brutal de uma civilização do trabalho" não foi capaz de apontar para uma nova e nobre marca fundante da civilização, resultando assim numa enorme "exclusão": "Aqui desponta, talvez, a sombra, o prenúncio ou vestígio de um crime. Não é pouca coisa que toda uma 'população' (no sentido apreciado pelos sociólogos) seja mansamente conduzida por uma sociedade lúcida e sofisticada ate os extremos da vertigem e da fragilidade: até as fronteiras da morte, às vezes, mais além. Não é pouca coisa também que aquelas mesmas pessoas que o trabalho escravizaria sejam levadas a mendigar, a procurar por um trabalho, qualquer um, a qualquer preço (quer dizer, o menor). E quando todos não se dedicam de corpo e alma a essa situação inútil, a opinião geral é que deveriam fazê-lo." (...) "Já não ignoramos, não podemos ignorar que ao horror não é nada impossível, que não há limites para as decisões humanas. Da exploração à exclusão, da exclusão à eliminação, ou até mesmo algumas inéditas explorações desastrosas, será que essa seqüência é impensável ? Sabemos, por experiência própria que a barbárie, sempre latente, combina de maneira perfeita com a placidez daquelas maiorias que sabem tão bem amalgamar o pior com a monotonia ambiente ". (1997 : 15/18). Jeremy Rifkin combate o trabalho como categoria central , enveredando numa abordagem que contrasta a tecnologia e o emprego. Rifkin toma como base do seu estudo a economia dos EUA para defender que as máquinas são as maiores responsáveis pelo aumento do desemprego. O supracitado autor sustenta que as novas tecnologias criam mais desempregos pela forma como as empresas se ajustam ao chamado processo de globalização. Rifkin não apresenta soluções por entender que a massa de trabalhadores não irá sobreviver à era da informação. Concebendo que a atualidade é assolada por uma transição , na qual as novas tecnologias destroem e também geram empregos, o autor aponta os seguintes caminhos para minorar os efeitos da reestruturação produtiva em voga: a) reduzir a jornada semanal; e b) distribuir lucros. Dominique Méda não vacila em demonstrar sua preocupação com a existência de uma crise do trabalho. A autora nega-se é a aceitar passivamente uma justificativa meramente perfunctória da crise. Méda apresenta uma abordagem diferente, posto que analisa a situação atual por um viés filosófico. A autora com o auxílio da filosofia suscita uma forma de fomentar a reflexão crítica sobre o trabalho a partir da seguinte pergunta : diante da crise do trabalho qual a forma de sociedade na qual nós queremos viver ? Para Méda é preciso reinventar a política e questionar a mentalidade contratualista . A análise filosófica pelo seu caráter generalista, e pelo seu pressuposto genético de complexidade , é uma arma contra as análises estanques promovidas , por exemplo, pela economia e tecnocracia. Estas circundam o saber na sua "estreita" esfera de atuação recusando-se algumas vezes a manter vasos comunicantes com a cidadania. Por esse prisma a economia e a política vêm determinadas por dogmas, à míngua de leituras gerais da realidade. Diante das análises feitas em torno das diferentes concepções fica impossível relegar-se centralidade, ou não, da categoria trabalho. Mais aconselhável se torna que a realidade seja concebida como uma dinâmica que não permita jamais a alguém apontar absolutamente as verdades. Porém, dentro da concepção didática imprescindível ao ordenamento do conhecimento, é simpaticíssima a tese de que o trabalho é ainda uma categoria central, embora se entenda que há uma crise que reconfigura o mundo do trabalho, sem desfigurá-lo . Nesse particular é aceitável a fundamentação teórica de Méda . Por outro lado quando se defende a abrupta idéia Forrester exsurge o impacto de quem se recusou ao debate mais cruel, ou seja, aquele que se finca na discussão que aponta modos de lutas, modelos alternativos de defesa e barganha que adiam uma hipótese (o fim do emprego) que poderá vir a sucumbir ante o surgimento de um outro modelo que ainda não se vislumbra claramente no cenário do mundo do trabalho. Méda sustenta que existiram três grandes correntes do pensamento no século XX (cristão, marxista e liberal). Para corrente cristã o trabalho é uma atividade fundamental do homem, um meio de auto-realização . Os liberais humanistas defendem que o trabalho é o ponto alto de uma expressão da liberdade do homem. Para o pensamento marxista há a idéia de que o trabalho é uma categoria central constitutiva da essência do homem. Méda prossegue em sua análise dizendo que há um consenso entre essas três correntes : o trabalho É conclusiva a assertiva de que o trabalho é ainda categoria central e de que processo de crise do trabalho reconfigura-se de acordo com os estágios do modo de produção capitalista, notadamente em face do modelo de organização produtiva . Porém, além dessa discussão aparentemente técnica, urge levantar-se um questionamento Méda - sobre a propalada "ressurreição" hegemônica da natureza contratualista das relações de trabalho . Essa natureza é o primeiro objeto que deverá ser analisado criticamente como forma menos cruel de uma transição. É plausível orientar-se na fundamentação teórica do trabalho enquanto categoria central, imprescindível à vida e condição para a cidadania. A propósito, as vicissitudes do mundo do trabalho não devem ser interpretadas como uma ruptura absoluta. Não é razoável sequer que se rompa de modo absoluto com o contratualismo. As relações de trabalho são relações sociais que não podem ser postas sob o jugo da irrestrita autonomia de alguns contratantes. Deve existir sim em alguma medida um meio para se evitar que a contratualidade seja apenas uma forma, impondo-lhe um conteúdo legal mínimo. Só assim o homem atual passará a apontar caminhos diante de uma pergunta oportuna: - em que sociedade nós queremos viver ? Zéu Palmeira Sobrinho BIBLIOGRAFIA: FORRESTER, VIVIANNE. "O horror econômico, Tradução: Álvaro Lorencini, São Paulo : Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997. MÉDA, DOMINIQUE. Le travail , une valeur en voie de disparation". Alto Aubier, Paris, 1995. OFFE, CLAUS. "Capitalismo desorganizado". São Paulo : Editora Brasiliense S/A, 2a. edição, 1994, 1a. reimpressão 1995. RIFKIN, JEREMY. "O fim dos empregos". São Paulo : Makron Books, 1995.
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