Extraído do Jornal Correio Braziliense de 19.08.2007 (domingo)


Fonte:  http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_158.htm


MPB

Estudando o samba-reggae

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Teresa Albuquerque
Da equipe do Correio
Zoy Anastassakis/Divulgação



Quito Ribeiro nunca tinha pensado em fazer disco solo, cantando as próprias composições. Até o dia em que viu Jussara Silveira gravar uma música dele, Rainha de lá, no estúdio de Chico Neves, com Pedro Sá no baixo (e não na guitarra, o instrumento habitual) e Márcio Victor na percussão. Era tudo o que sonhava: o produtor com quem sempre quis trabalhar, o amigo carioca que lhe dava força e o amigo baiano de muitos carnavais. “Só então deu o clique”, conta o soteropolitano de 36 anos, radicado no Rio desde 1995. Animado com o núcleo que se formara em torno da canção dele, Quito passou os últimos quatro anos no mesmo Estúdio 304, gravando seu primeiro CD, Uma coisa só, produzido por Chico Neves e Pedro Sá.

Demorou, mas saiu. E embora não tivesse a pretensão de se lançar como cantor – dava-se por satisfeito tendo suas composições interpretadas por nomes como Gal Costa, Daúde, Kátia B, Ivete Sangalo e Daniela Mercury –, ele ficou feliz com o resultado. “Minhas músicas vinham sendo gravadas por muita gente, só que chega um momento em que você começa a fazer mais do que as pessoas gravam. Lá pelo ano 2000, comecei a ter música demais e intérprete de menos”, diz Quito, que assina as 14 faixas do CD. Habituado a trabalhar com parceiros (os mais freqüentes são Lucas Santtana e Moreno Veloso), desta vez ele só dividiu uma canção, Prato do mundo, com Betão Aguiar.

Uma coisa só ergue a ponte entre o Rio e a Bahia em vários sentidos. Inclusive pelos músicos, que gostam de andar pelos dois lados. Pedro Sá e Moreno, Quito conheceu no carnaval de Salvador, antes de se mudar para o Rio e encontrar o resto da turma – Kassin, Domenico, Léo Monteiro e Stephane San Juan, outros quatro integrantes da Orquestra Imperial, também participam do disco. “Eles já tinham a bagagem da música de lá”, ressalta. Davi Moraes, Daniel Jobim, Benjão (Carne de Segunda) e até um tecladista de Bangladesh, Kishon Khan, entraram na roda. Do lado baiano, há o violão do tribalista Cézar Mendes e a percussão marcante de Márcio Victor, que passou pela banda de Caetano Veloso, tocou com Carlinhos Brown e hoje é líder do Psirico.

A inspiração para o álbum veio da própria trajetória do compositor,
da convivência com o samba-reggae, com os tambores nas ruas da Bahia. “Tinha 14 anos quando atentei para o carnaval, com o Olodum fazendo aquele estrondo”, ele conta. “Vi aquilo tudo de maneira muito intensa. E isso foi se diluindo com o tempo – não na intensidade, mas no tipo de leitura. O Araketu leu o samba-reggae de uma maneira, Daniela Mercury de outra. Quis mostrar a minha. A idéia era desconstruir mesmo, usar numa música o atabaque do candomblé, em outra reforçar a origem reggae.”

Quito queria mostrar tanto o lado do samba quanto o do reggae. De onde ele vem e para onde pode ir. Para isso, voltou à década de 1970, ao Ilê Aiyê, e à de 1980, do Olodum. E pulou para os dias de hoje, para o dub, para o funk. “Não tenho preconceito contra a axé music”, ressalta. “Mas queria trazer o samba-reggae ‘original’, propor outra leitura daquela música dos anos 1970 e 1980. Tanto que não uso metal, coisa que ficou muito marcada na música baiana dos anos 1990. É mais baixo e percussão.”

Carlinhos Brown é referência (foi ele quem sugeriu o termo “Neuroeuropeu”, que dá título à sétima faixa), claro, assim como Fela Kuti, Linton Kwesi Johnson, Michael Jackson, Mano Brown, Nação Zumbi. Influências à parte, Quito faz um som novo (ainda que absolutamente familiar), com toques de música caribenha (“para mim, muito do samba-reggae é Cuba”), em faixas como Bembé e Warm, aproxima Rio e Bahia em Artificial, e acerta a mão especialmente em duas, Nêga (com atabaques de terreiro e sintetizadores), e Santinha.

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