Paulo e Amilcar,

tenho uma opinião um pouco diferente sobre este assunto, talvez seja até uma opinião complementar.
As 3 questões que coloquei tem um importante ponto em comum.
No fundo a TSE nunca realmente se preocupou com segurança, nunca se preocupou com auditoria.
Perguntei à um técnico do TSE quantas tentativas de fraudes eles já tinham detectado e a resposta foi nenhuma.
A única direção que o TSE sempre trabalhou bem neste processo de informatização foi em produzir um resultado rápido que fosse inquestionável. Quando se tem a opção de se questionar o resultado fica pendente, ou seja a resultado não é tão rápido. A idéia é ter uma urna muito rápida em gerar um resultado e 100% segura por lei.

A impressão do voto possibilitaria se descobrir fraudes internas à fronteira de conhecimento, mas também poderia pegar fraudes externas à esta fronteira. Ou seja, se uma fraude externa fosse descoberta, o resultado rápido estaria comprometido e também a competência técnica do TSE em criar uma urna realmente segura.

Segurança é apenas uma parte técnica do projeto, afinal temos 400 mil urnas funcionando simultaneamente em um único dia (tecnicamente isto não é pouco), mas basta a divulgação de uma única fraude para desmoralizar todo o trabalho técnico. Esta é a única razão para não se permitir um teste de penetração.

Em minha opinião o corpo técnico do TSE age em defesa própria, convencendo os Ministros através de subterfúgios técnicos.

Márcio



Amilcar Brunazo Filho wrote:
Caro Paulo,

Faço algumas poderações sobre sua "hipotese". São poderações e não críticas, 
pois há muito de correto nela, principalmente pela vontade crescente do grupo 
de técnicos do TSE procurar manter controle e exclusividade sobre os meios de 
fraude:

1) Como se pode ver no livro do Camarão, no projeto original das urnas 
eletrônicas constava a emissão do voto impresso para efeito de recontagem. 
Então, o projeto não era eliminar o voto impresso e sim mantê-lo

2) Nas urnas-e lançadas em 1996 havia o voto impresso para recontagem, embora 
ele não fosse mostrado ao eleitor.

3) O motivo oficial alegado para acabar com o voto impresso em 1998 foi o 
número grande de falhas (amassamento do papel) nas impressoras e não a perda 
do controle centralizado do poder de fraudar (é lógico que eles jamais 
anunciariam isto).

4) A questão do custo. Antes da eleição de 2002, o Jobim declarou que o custo 
das eleições eletrônicas resultou em quase 20% maior que o voto manual. O 
Camarão contestou porque o Jobim considerou todos os custos de informatização 
do voto enquanto ele alegava que alguns custos deveria ser desconsiderados.
É assim, ajeitando os custos, que o Velloso chegou no número que divulgou. Uma 
coisa é certa, o custo de guarda e manutenção das urnas é muito, muito maior 
que o custo de guarda de votos em papel. O custo do equipamento de uma seção 
eleitoral é muito maior com urna-e do que sem urna-e. O custo do 12 mil 
funcionários temporários para preparação das urnas não existia. O custo de 
totalização (rede segura, etc) é muito maior do que antes. Lembre que os 
funcionários utilizados na totalização manual dos votos eram fornececidos 
pelos órgãos públicos, sem custo para o TSE que só pagava a preparação dos locais.

5) A necessidade de fiscalização nas seções eleitorais continua mesmo com o 
uso de urnas-e. Na realidade FISCALIZAÇÂO EFICAZ é a única coisa que pode de 
fato diminuir fraudes eleitorais.

6) O Voto impresso emitido por uma urna eletrônica pode receber uma assinatura 
digital dela própria, dificultando muito a falsificação externa eficaz de 
votos impressos. A fraude tipo ataque de bloqueio de serviço (DoS) que você 
sugeriu (incluir votos impressos falsos para constestar a apuração) se 
tornaria detectável, e portanto inútil, podendo se reverter contra o autor. 
Acabaria por se tornar prática abandonada.

7) Eles tem experiência de fraudes externas antigas e procuram se defender. 
Mas nós, os eleitores, que deveríamos ser os verdadeiros soberanos do 
processo, temos experiência para nos defender das fraudes internas modernas?

Amilcar

Paulo Mora de Freitas escreveu:
  
  Prezados Kika e Márcio,

  Permitam-me dar uma resposta às tuas três questões, por uma vez, 
diferente da de sempre repetida aqui nesse Forum. Já faz alguns meses 
que eu estou para escrever isto mas nunca tive tempo, aqui vai então.

  No ano passado teve aqui na França um simpósio sobre a Democracia 
eletrônica. Não vou entrar em detalhes sobre este simpósio, mas como no 
ano passado tínhamos por aqui o ano France-Brésil o nosso país era o 
convidado de honra. Nessas vieram o Ministro Velloso, Camarão e demais 
pessoas do TSE para participar pessoalmente neste evento.  Daí aconteceu 
uma coisa curiosa, típica de brasileiros no exterior: é muito fácil de 
se aproximar de não importa qual autoridade falando-se Português, aquela 
coisa de “-Ah, vocês são brasileiros?  Que bom, vamos conversar um 
pouco...”. Tentei e deu certo, passei uma manhã discutindo com o Velloso 
e com o Camarão sobre a urna eletrônica.

  Duas coisas nesse episódio me chamaram a atenção. A primeira, foi a 
condição que eles anunciaram  para que eles aceitassem conversar comigo. 
De cara eles disseram: “- Se o Sr.  tem questão fechada de que se deve 
colocar uma impressora nós nem começamos a conversar.” Outra coisa, me 
dei conta do quanto eu estava mal informado sobre a urna brasileira, dos 
procedimentos previstos em lei, etc.

  Para não entrar em detalhes e evitar um mail quilométrico, vamos ao 
que interessa. Muito me encafifou essa condição tão fechada contra a 
impressora. Afinal, colocar essa porcaria de impressora não é tão 
difícil assim, bastaria colocá-la para por um ponto final nessa novela. 
Por outro lado descarto teses paranóicas, de conspirações na calada da 
noite: são hipóteses muito fáceis, soluções triviais que não levam à 
nada. Havia então algo muito contraditório nisso tudo.

  A ficha caiu lendo a introdução do projeto de introdução da biometria 
no voto eletrônico brasileiro. Logo de cara está escrito algo mais ou 
menos assim: “A introdução da urna-e no Brasil já acabou com um número 
muito importante de fraudes que eram praticadas no tempo do voto em 
papel. Resta agora resolver o problema da identificação do eleitor no 
momento de votar, que resta um foco de fraudes ---> por depender ainda 
dos recursos locais na hora da votação <---”. Bingo, caiu a ficha!

  A minha hipótese, que penso acabo de citar a prova empírica, é a de 
que o projeto do TSE é o seguinte: não depender em nenhuma hipótese de 
recursos locais na seção onde se vota. Por que? Porque é muito caro! 
Talvez morando numa grande cidade a gente não se dê conta do que é 
organizar uma eleição num país do tamanho do Brasil. Tem local em que a 
urna chega de helicóptero do exército! Então como assegurar a lisura das 
eleições em todas essas seções espalhadas Brasil afora? Enviando 
fiscais? Muito caro, quase impossível.

  Outra coisa que corrobora essa tese é a fala do Ministro Velloso 
apresentando o sistema brasileiro. Diz ele que apesar do custo da compra 
do equipamento, a introdução do voto-e permitiu uma economia de 30% nos 
custos de organização das eleições. A economia, evidentemente, está no 
número muito menor de pessoas no terreno para fiscalizar as eleições.

  Nessas, então, qual é a especificação da urna brasileira? A de ser um 
dispositivo sólido, quase especificação militar, protegido o melhor 
possível de ataques externos, de maneira a que o TSE o prepare de 
maneira centralizada e o distribua Brasil afora. Pode acontecer de tudo 
com as urnas-e, mas se elas voltam inteiras, o TSE acredita que pode 
confiar no seu conteúdo vistas as especificações.

  Fica fácil então entender porque esse pessoal do TSE não vai nunca nem 
aceitar de falar em colocar uma impressora acoplada na urna. Isso 
porque, introduzindo a impressora, você introduz a possibilidade de se 
contestar o funcionamento da urna-se NO LOCAL de votação. Ou seja, se 
você aceita a impressora e a possibilidade do eleitor, no momento do 
voto, contestar o funcionamento da urna, o TSE terá que voltar a enviar 
fiscais Brasil afora para verificar as ocorrências.

  Algumas conseqüências dessa hipótese:

1) É um projeto que não pode ser anunciado. Significaria o presidente do 
TSE um dia ir no jornal das 20 horas dizer o seguinte:  “-Olha, pessoal, 
esse negócio de democracia é muito sério, mas complicado demais para 
ficar na mão de vocês. Por isso nós fabricamos aqui uma caixinha preta 
que cuida de tudo”. Trata-se de um projeto de vocação claramente 
fascista, o qual exclui do projeto o povo do qual emana no final das 
contas o poder democrático.

2) É um projeto utópico. Na prática estes dispositivos são manipuláveis, 
clonáveis, etc. Da mesma maneira em que a idéia de que se basta acoplar 
a impressora para resolver este problema é outro projeto utópico. Um dia 
desses escrevo outro mail longo sobre isso também.

3) Eles tem razão? Em princípio não, na prática talvez sim. Dou um 
exemplo: imaginamos que na seção onde voto o meu candidato certamente 
vai perder de longe. O que eu posso fazer? Simples. Eu e alguns 
militantes que votam na mesma seção passamos a contestar 
sistematicamente o funcionamento da urna, tentando anulá-la. Além disso, 
como na contestação passamos ao voto manual, basta dar um jeito de 
colocar mais votos do que os previstos na urna de papel e provavelmente 
anular a urna no tapetão, via recurso depois. Cito este exemplo somente 
para mostrar que uma coisa é a teoria, outra coisa é o que rola nesse 
Brasil afora. O pessoal do TSE pode ter vários defeitos, mas eles tem 
uma coisa que não temos: experiência de terreno.

Vai um abração, Paulo.

Marcio C. teixeira wrote:

    
Amilcar, achei bastante interessante sua colocação. Ficam algumas 
perguntas:

1) Por que uma solução tão simples e tão evitada. (a impressão do voto)?
2) Por que criar uma fronteira de conhecimento tão ampla e com tanta 
gente dentro, para se resolver um problema tão simples. (somar votos)?
3) Por que uma solução tão complexa é tão primária no proteção contra 
ataques externos à esta fronteira?

Um abraço...

Márcio


Amilcar Brunazo Filho wrote:


      
Grande e Admirado Márcio,

Acredito que concordamos em tese. Mas tenho outra forma de apresentar 
a sua idéia de que não existe segurança em informática sem que se 
recorra a algo secreto.

Processos informatizados que controle dados sensíveis (que necessita 
de segurança) só podem ser protegidos a partir de uma fronteira de 
conhecimento. Quem estiver fora da fronteira não conseguirá atacar, 
quem estiver dentro poderá atacar.

Aí o problema se transfere para: como delimitar esta fronteira e quem 
deixar do lado de dentro?

Acredito que não exista solução ideal que satisfaça a todos.

Tem-se que dar a alguns o direito de ficar do lado de dentro e aos de 
fora tem que ser dado TODAS AS CONDIÇÕES NECESSÁRIAS
para auditar o trabalho dos de dentro.

É aí que entra o voto impresso conferido pelo eleitor para dar 
auditabilidade à apuração eletrônica dos votos pois só o grupo que 
controla os programas e as máquinas poderiam saber se apuração foi 
honesta. Mas nós de fora nunca saberíamos se eles estão sendo sinceros 
ou não ao afirmar que tudo correu bem a não ser que tenhos como 
conferir os resultados por fora.

Amilcar

Marcio C Teixeira escreveu:


        
Paulo,

este é um assunto muito polêmico.
Ter código aberto ou fechado não garante segurança.
A pergunta tem que ser diferente: "Por quem e como o sistema será (ou 
tem que ser) auditado?", nada impede de vc utilizar uma solução 
aberta como se fosse fechada.
Outra coisa importante é que a palavra segurança depende muito do 
contexto que ela é utilizada. Por exemplo, é muito comum encontrarmos 
esta frase: O Linux é mais seguro que o Windows, por que ele tem 
códigos aberto e os bugs são corrigidos mais facilmente. Isto é 
verdade, pois não existem "portas do fundo" e incompetência 
escondida, em compensação a proteção contra ataques por engenharia 
reversa, no Linux, é muito mais difícil do que o Windows.

Na verdade, toda a segurança tem algum ponto de obscuridade. Por isto 
que afirmo, NÃO EXISTE SEGURANÇA SEM OBSCURIDADE.

No Caso especifico da urna eletrônica, a coisa é bastante complicada 
para software de códigos fechado, porque quem detem o secreto, pode 
também ser quem vai atacar o sistema.
Neste caso específico a área de obscuridade tem que ser 
suficientemente grande para proteger o sistema e suficientemente 
pequena para não permitir (ou dificultar ao máximo) uma fraude no 
resultado.

Um abraço...
Márcio 
          

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