Márcio, creio que não somente as nossas opiniões são complementares como provavelmente a tua hipótese me parece a mais plausível, corroborada aliás pela experiência empírica do Prof. Rezende junto aos seus alunos do TSE. Em todo o caso fica a certeza de que, enquanto for esse mesmo pessoal que está no TSE não temos nem chance de discutir com eles se não abrirmos mão de imprimir o voto. Ou seja, vamos continuar nessa lenga-lenga por séculos e séculos. Fora que sabemos já que a solução do voto impresso não é a definitiva. Repetindo o que disse ao Luiz Ezildo, entender as razões profundas dessa recusa em imprimir o voto talvez nos permita de encontrar alguma solução no espaço do possível para "menos piorar" o sistema atual, que seja ao mesmo tempo aceitável por essas pessoas.

 Abraços, Paulo.

Marcio C. teixeira wrote:
Paulo e Amilcar,

tenho uma opinião um pouco diferente sobre este assunto, talvez seja até uma opinião complementar.
As 3 questões que coloquei tem um importante ponto em comum.
No fundo a TSE nunca realmente se preocupou com segurança, nunca se preocupou com auditoria. Perguntei à um técnico do TSE quantas tentativas de fraudes eles já tinham detectado e a resposta foi nenhuma. A única direção que o TSE sempre trabalhou bem neste processo de informatização foi em produzir um resultado rápido que fosse inquestionável. Quando se tem a opção de se questionar o resultado fica pendente, ou seja a resultado não é tão rápido. A idéia é ter uma urna muito rápida em gerar um resultado e 100% segura por lei.

A impressão do voto possibilitaria se descobrir fraudes internas à fronteira de conhecimento, mas também poderia pegar fraudes externas à esta fronteira. Ou seja, se uma fraude externa fosse descoberta, o resultado rápido estaria comprometido e também a competência técnica do TSE em criar uma urna realmente segura.

Segurança é apenas uma parte técnica do projeto, afinal temos 400 mil urnas funcionando simultaneamente em um único dia (tecnicamente isto não é pouco), mas basta a divulgação de uma única fraude para desmoralizar todo o trabalho técnico. Esta é a única razão para não se permitir um teste de penetração.

Em minha opinião o corpo técnico do TSE age em defesa própria, convencendo os Ministros através de subterfúgios técnicos.

Márcio



Amilcar Brunazo Filho wrote:


Caro Paulo,

Faço algumas poderações sobre sua "hipotese". São poderações e não críticas, pois há muito de correto nela, principalmente pela vontade crescente do grupo de técnicos do TSE procurar manter controle e exclusividade sobre os meios de fraude:

1) Como se pode ver no livro do Camarão, no projeto original das urnas eletrônicas constava a emissão do voto impresso para efeito de recontagem. Então, o projeto não era eliminar o voto impresso e sim mantê-lo

2) Nas urnas-e lançadas em 1996 havia o voto impresso para recontagem, embora ele não fosse mostrado ao eleitor.

3) O motivo oficial alegado para acabar com o voto impresso em 1998 foi o número grande de falhas (amassamento do papel) nas impressoras e não a perda do controle centralizado do poder de fraudar (é lógico que eles jamais anunciariam isto).

4) A questão do custo. Antes da eleição de 2002, o Jobim declarou que o custo das eleições eletrônicas resultou em quase 20% maior que o voto manual. O Camarão contestou porque o Jobim considerou todos os custos de informatização do voto enquanto ele alegava que alguns custos deveria ser desconsiderados. É assim, ajeitando os custos, que o Velloso chegou no número que divulgou. Uma coisa é certa, o custo de guarda e manutenção das urnas é muito, muito maior que o custo de guarda de votos em papel. O custo do equipamento de uma seção eleitoral é muito maior com urna-e do que sem urna-e. O custo do 12 mil funcionários temporários para preparação das urnas não existia. O custo de totalização (rede segura, etc) é muito maior do que antes. Lembre que os funcionários utilizados na totalização manual dos votos eram fornececidos pelos órgãos públicos, sem custo para o TSE que só pagava a preparação dos locais.

5) A necessidade de fiscalização nas seções eleitorais continua mesmo com o uso de urnas-e. Na realidade FISCALIZAÇÂO EFICAZ é a única coisa que pode de fato diminuir fraudes eleitorais.

6) O Voto impresso emitido por uma urna eletrônica pode receber uma assinatura digital dela própria, dificultando muito a falsificação externa eficaz de votos impressos. A fraude tipo ataque de bloqueio de serviço (DoS) que você sugeriu (incluir votos impressos falsos para constestar a apuração) se tornaria detectável, e portanto inútil, podendo se reverter contra o autor. Acabaria por se tornar prática abandonada.

7) Eles tem experiência de fraudes externas antigas e procuram se defender. Mas nós, os eleitores, que deveríamos ser os verdadeiros soberanos do processo, temos experiência para nos defender das fraudes internas modernas?

Amilcar

Paulo Mora de Freitas escreveu:



Prezados Kika e Márcio,

Permitam-me dar uma resposta às tuas três questões, por uma vez, diferente da de sempre repetida aqui nesse Forum. Já faz alguns meses que eu estou para escrever isto mas nunca tive tempo, aqui vai então.

No ano passado teve aqui na França um simpósio sobre a Democracia eletrônica. Não vou entrar em detalhes sobre este simpósio, mas como no ano passado tínhamos por aqui o ano France-Brésil o nosso país era o convidado de honra. Nessas vieram o Ministro Velloso, Camarão e demais pessoas do TSE para participar pessoalmente neste evento. Daí aconteceu uma coisa curiosa, típica de brasileiros no exterior: é muito fácil de se aproximar de não importa qual autoridade falando-se Português, aquela coisa de “-Ah, vocês são brasileiros? Que bom, vamos conversar um pouco...”. Tentei e deu certo, passei uma manhã discutindo com o Velloso e com o Camarão sobre a urna eletrônica.

Duas coisas nesse episódio me chamaram a atenção. A primeira, foi a condição que eles anunciaram para que eles aceitassem conversar comigo. De cara eles disseram: “- Se o Sr. tem questão fechada de que se deve colocar uma impressora nós nem começamos a conversar.” Outra coisa, me dei conta do quanto eu estava mal informado sobre a urna brasileira, dos procedimentos previstos em lei, etc.

Para não entrar em detalhes e evitar um mail quilométrico, vamos ao que interessa. Muito me encafifou essa condição tão fechada contra a impressora. Afinal, colocar essa porcaria de impressora não é tão difícil assim, bastaria colocá-la para por um ponto final nessa novela. Por outro lado descarto teses paranóicas, de conspirações na calada da noite: são hipóteses muito fáceis, soluções triviais que não levam à nada. Havia então algo muito contraditório nisso tudo.

A ficha caiu lendo a introdução do projeto de introdução da biometria no voto eletrônico brasileiro. Logo de cara está escrito algo mais ou menos assim: “A introdução da urna-e no Brasil já acabou com um número muito importante de fraudes que eram praticadas no tempo do voto em papel. Resta agora resolver o problema da identificação do eleitor no momento de votar, que resta um foco de fraudes ---> por depender ainda dos recursos locais na hora da votação <---”. Bingo, caiu a ficha!

A minha hipótese, que penso acabo de citar a prova empírica, é a de que o projeto do TSE é o seguinte: não depender em nenhuma hipótese de recursos locais na seção onde se vota. Por que? Porque é muito caro! Talvez morando numa grande cidade a gente não se dê conta do que é organizar uma eleição num país do tamanho do Brasil. Tem local em que a urna chega de helicóptero do exército! Então como assegurar a lisura das eleições em todas essas seções espalhadas Brasil afora? Enviando fiscais? Muito caro, quase impossível.

Outra coisa que corrobora essa tese é a fala do Ministro Velloso apresentando o sistema brasileiro. Diz ele que apesar do custo da compra do equipamento, a introdução do voto-e permitiu uma economia de 30% nos custos de organização das eleições. A economia, evidentemente, está no número muito menor de pessoas no terreno para fiscalizar as eleições.

Nessas, então, qual é a especificação da urna brasileira? A de ser um dispositivo sólido, quase especificação militar, protegido o melhor possível de ataques externos, de maneira a que o TSE o prepare de maneira centralizada e o distribua Brasil afora. Pode acontecer de tudo com as urnas-e, mas se elas voltam inteiras, o TSE acredita que pode confiar no seu conteúdo vistas as especificações.

Fica fácil então entender porque esse pessoal do TSE não vai nunca nem aceitar de falar em colocar uma impressora acoplada na urna. Isso porque, introduzindo a impressora, você introduz a possibilidade de se contestar o funcionamento da urna-se NO LOCAL de votação. Ou seja, se você aceita a impressora e a possibilidade do eleitor, no momento do voto, contestar o funcionamento da urna, o TSE terá que voltar a enviar fiscais Brasil afora para verificar as ocorrências.

Algumas conseqüências dessa hipótese:

1) É um projeto que não pode ser anunciado. Significaria o presidente do TSE um dia ir no jornal das 20 horas dizer o seguinte: “-Olha, pessoal, esse negócio de democracia é muito sério, mas complicado demais para ficar na mão de vocês. Por isso nós fabricamos aqui uma caixinha preta que cuida de tudo”. Trata-se de um projeto de vocação claramente fascista, o qual exclui do projeto o povo do qual emana no final das contas o poder democrático.

2) É um projeto utópico. Na prática estes dispositivos são manipuláveis, clonáveis, etc. Da mesma maneira em que a idéia de que se basta acoplar a impressora para resolver este problema é outro projeto utópico. Um dia desses escrevo outro mail longo sobre isso também.

3) Eles tem razão? Em princípio não, na prática talvez sim. Dou um exemplo: imaginamos que na seção onde voto o meu candidato certamente vai perder de longe. O que eu posso fazer? Simples. Eu e alguns militantes que votam na mesma seção passamos a contestar sistematicamente o funcionamento da urna, tentando anulá-la. Além disso, como na contestação passamos ao voto manual, basta dar um jeito de colocar mais votos do que os previstos na urna de papel e provavelmente anular a urna no tapetão, via recurso depois. Cito este exemplo somente para mostrar que uma coisa é a teoria, outra coisa é o que rola nesse Brasil afora. O pessoal do TSE pode ter vários defeitos, mas eles tem uma coisa que não temos: experiência de terreno.

Vai um abração, Paulo.

Marcio C. teixeira wrote:


Amilcar, achei bastante interessante sua colocação. Ficam algumas perguntas:

1) Por que uma solução tão simples e tão evitada. (a impressão do voto)?
2) Por que criar uma fronteira de conhecimento tão ampla e com tanta gente dentro, para se resolver um problema tão simples. (somar votos)? 3) Por que uma solução tão complexa é tão primária no proteção contra ataques externos à esta fronteira?

Um abraço...

Márcio


Amilcar Brunazo Filho wrote:



Grande e Admirado Márcio,

Acredito que concordamos em tese. Mas tenho outra forma de apresentar a sua idéia de que não existe segurança em informática sem que se recorra a algo secreto.

Processos informatizados que controle dados sensíveis (que necessita de segurança) só podem ser protegidos a partir de uma fronteira de conhecimento. Quem estiver fora da fronteira não conseguirá atacar, quem estiver dentro poderá atacar.

Aí o problema se transfere para: como delimitar esta fronteira e quem deixar do lado de dentro?

Acredito que não exista solução ideal que satisfaça a todos.

Tem-se que dar a alguns o direito de ficar do lado de dentro e aos de fora tem que ser dado TODAS AS CONDIÇÕES NECESSÁRIAS
para auditar o trabalho dos de dentro.

É aí que entra o voto impresso conferido pelo eleitor para dar auditabilidade à apuração eletrônica dos votos pois só o grupo que controla os programas e as máquinas poderiam saber se apuração foi honesta. Mas nós de fora nunca saberíamos se eles estão sendo sinceros ou não ao afirmar que tudo correu bem a não ser que tenhos como conferir os resultados por fora.

Amilcar

Marcio C Teixeira escreveu:



Paulo,

este é um assunto muito polêmico.
Ter código aberto ou fechado não garante segurança.
A pergunta tem que ser diferente: "Por quem e como o sistema será (ou tem que ser) auditado?", nada impede de vc utilizar uma solução aberta como se fosse fechada. Outra coisa importante é que a palavra segurança depende muito do contexto que ela é utilizada. Por exemplo, é muito comum encontrarmos esta frase: O Linux é mais seguro que o Windows, por que ele tem códigos aberto e os bugs são corrigidos mais facilmente. Isto é verdade, pois não existem "portas do fundo" e incompetência escondida, em compensação a proteção contra ataques por engenharia reversa, no Linux, é muito mais difícil do que o Windows.

Na verdade, toda a segurança tem algum ponto de obscuridade. Por isto que afirmo, NÃO EXISTE SEGURANÇA SEM OBSCURIDADE.

No Caso especifico da urna eletrônica, a coisa é bastante complicada para software de códigos fechado, porque quem detem o secreto, pode também ser quem vai atacar o sistema. Neste caso específico a área de obscuridade tem que ser suficientemente grande para proteger o sistema e suficientemente pequena para não permitir (ou dificultar ao máximo) uma fraude no resultado.

Um abraço...
Márcio

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