Obrigado pelo esclarecimento, Francisco!

 

Um abraço,

Desidério

 

From: Francisco Antonio Doria [mailto:[EMAIL PROTECTED] 
Sent: quarta-feira, 17 de Setembro de 2008 11:58
To: Desidério Murcho
Cc: Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica

 

Desidério:

PA + regra \omega de Shoenfield prova todas as verdades aritméticas, e só
elas (e a regra \omega de Shoenfield é quaaaaase construtiva, no sentido
lato do termo). 

Tem jeito, sim, de reduzir áreas da matemática a sistemas formais, sem
incompletude. 

2008/9/17 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>

Olá, Márcio, tudo bem?

Piaget parece ter uma concepção errada da filosofia. O que não seria de
admirar. Muita gente a tem. Vejamos se consigo ser esclarecedor.

1) Todas as divisões académicas são algo artificiosas e não devem ser
encaradas demasiado rigidamente. Devemos ser conduzidos pelos problemas e
não pelas divisões académicas prévias.

2) Os métodos adoptados devem responder aos problemas, não são os problemas
que devem responder aos métodos. O que quero dizer com isto é que não
devemos desqualificar um dado problema por não termos já um método
científico ou outro para o resolver. Deve ser a própria pressão para tentar
resolver problemas que nos deve levar a conceber métodos adequados para
isso.

3) A relação entre a filosofia e as outras áreas cognitivas é fluida e deve
manter-se fluida: o que hoje não sabemos abordar senão filosoficamente,
amanhã podemos aprender a abordar empiricamente ou formalmente. Em filosofia
não devemos abordar os problemas da maneira como o fazemos por preguiça, mas
porque nenhum outro método além do filosófico é concebível. O que é o método
filosófico? É uma mistura dos métodos da matemática e da lógica com os
métodos empíricos de ciências como a biologia. Uma mistura no mau sentido:
tem o pior das duas! :-) A investigação em filosofia é como a matemática e a
lógica por ser puramente racional: não recorre à experimentação nem à
observação. Mas não é como a matemática nem como a lógica porque não se
reduz aos métodos formais destas disciplinas: não podemos provar logicamente
se há deuses ou não, mas podemos e devemos usar recursos da lógica para
afinar melhor os nossos argumentos. Por outro lado a filosofia é como as
ciências empíricas porque olha para problemas que não são (pelo menos
exclusivamente) formais: o problema de saber se temos livre-arbítrio, ou se
há deuses, ou como as palavras referem as coisas, não são matemáticos nem
lógicos, são aproximadamente empíricos. A dificuldade é que muitos destes
problemas parecem insusceptíveis de estudo empírico e é por isso que são
filosóficos. Mas as fronteiras são fluidas. Um dia poderemos saber
investigar empiricamente se temos ou não livre-arbítrio (e há já hoje
investigações empíricas interessantes sobre isso, ou com impacto sobre este
problema), tal como um dia descobrimos com Gödel que a verdade matemática
não pode ser totalmente reduzida à verdade lógica.

4) A filosofia é especulação. É teorização aberta sobre o que não podemos
saber. E é inevitável porque está antes das ciências, nas ciências e depois
das ciências. Antes das ciências porque especulamos sobre problemas que
ainda não podem ser abordados cientificamente, se bem que talvez mais tarde
o venham a ser, quando descobrirmos métodos empíricos ou formais para o
fazer. Está nas ciências porque toda a investigação científica tem
pressupostos filosóficos (metafísicos e epistemológicos, nomeadamente), sem
que muitas vezes os cientistas se apercebam disso. E vem depois das ciências
porque as ciências levantam muitos problemas que não podem ser resolvidos
pelas ciências: problemas éticos, ou problemas de integração conceptual.

5) A filosofia não é  nem superior nem inferior às outras actividades
cognitivas. É uma parte constituinte e inevitável da nossa vida cognitiva, e
pode ser bem ou mal feita, como tudo na vida. Mas não é superior nem
inferior à física ou à lógica ou à matemática. Apenas trata de problemas
diferentes e tem métodos diferentes porque os problemas são diferentes.

Regressando a Piaget: ele parece pensar que a filosofia é uma espécie de
intuição directa de essências, à maneira de Husserl, ao passo que a ciência
seria um estudo experimental dos fenómenos, das aparências. A maior parte
dos filósofos hoje não aceitariam esta posição de Husserl, e com razão. A
filosofia trata de problemas como as outras áreas cognitivas, a diferença
apenas é que os problemas que nos interessam não podem ser, pelo menos hoje,
abordados pelas ciências. E é argumentável que certos problemas nunca
poderão ser abordados matematicamente ou empiricamente.

Já escrevi muito e não sei se fui esclarecedor!

Um abraço,
Desidério



-----Original Message-----
From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED]
On Behalf Of Márcio Palmares
Sent: quarta-feira, 17 de Setembro de 2008 8:31
To: Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica

Prezado Desidério,

Queira, por gentileza, se possível, criticar o seguinte ponto de vista:

"A filosofia teria cem vezes razão se reservasse para si os territórios
aonde a ciência não vai, não quer ir, não pode ir no momento. Mas nada a
autoriza a crer que seus processos estão guardados in aeternum. E ela não
está em condições de provar que seus problemas são por natureza diferentes
dos que a razão científica se propõe a abordar. A ciência não visa senão à
aparência? Mas, segundo a fórmula bem conhecida, de todos os caminhos que
conduzem ao Ser, o parecer talvez seja ainda o mais seguro. Quanto a marcar
os limites atuais do saber científico, não é tarefa do próprio pensamento
científico? Nenhum filósofo faria, sem dúvida, das ignorâncias e das
impotências da ciência uma lista tão longa e tão severa quanto a que um
sábio seria capaz de preparar."

Piaget, J.: Sabedoria e Ilusões da Filosofia. Coleção Os Pensadores (Editora
Abril, 1983), p. 149.

Obrigado.

Márcio




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