Caro Arthur Se me permites, acho que estás a fazer duas confusões.
A primeira, é que quando em filosofia se respeita as ideias de alguém deixamos de fazer filosofia e passamos a fazer hagiografia. Isso era o que já tínhamos antes de os primeiros filósofos terem desatado a fazer filosofia. Portanto, não podes pedir respeito por Buda ou seja quem for se ao mesmo tempo queres que eles sejam discutidos em filosofia. Porque fazer filosofia é discutir ideias, e não catequizar, venerar ou aceitar. A segunda é que estás a confundir o facto de não saberes o que se estuda em filosofia hoje com um qualquer preconceito contra o que tu pensas que é muitíssimo importante. Se fores ao Philosophy Compass (http://www.blackwell-compass.com/subject/philosophy/) encontras uma secção dedicada à filosofia chinesa comparativa. Se folheares mesmo um dicionário pequeno de filosofia como o do Blackburn (Dicionário Oxford de Filosofia), encontras inúmeras entradas para temas e autores da filosofia indiana e chinesa. Se quiseres ler revistas académicas sobre filosofia chinesa, podes ler a Journal of Chinese Philosophy. Se quiseres obras de referência podes ler online vários artigos sobre vários temas e autores orientais na SEP (http://plato.stanford.edu/), assim como Companions da Cambridge (http://cambridge.org/us/series/sSeries.asp?code=CCP) dedicados à filosofia árabe e a Maimónides. Contudo, não sei se estás realmente interessado em qualquer destas leituras, porque me parece que confundes sistematicamente a filosofia com religião. Parece-me que procuras conforto espiritual, bem-estar de alma, enfim, o que é perfeitamente legítimo. Cada qual procura o que quer. Só que isso não é filosofia porque filosofia não é religião. A filosofia não é a aceitação das ideias destas ou daquelas pessoas, mas antes a discussão dessas ideias. A filosofia não serve primariamente para dar conforto espiritual, mas antes para procurar a verdade e a verdade raramente é confortável para quem procura conforto espiritual. Um abraço, Desidério -----Original Message----- From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Arthur Buchsbaum Sent: quarta-feira, 17 de Setembro de 2008 13:54 To: 'Logica-L' Subject: [Logica-l] falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental Caro colega Prof. Desidério Murcho: Primeiro quero parabenizar o senhor pela co-autoria do livro Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, um livro do qual adquiri há anos um exemplar, do qual saiu recentemente uma nova edição ainda mais atualizada, e que tenho indicado aos meus alunos. Não sou erudito em Filosofia, mas uso idéias neste nível, entre outras aplicações, para a modelagem de sistemas lógicos, como por exemplo em A Logical Expression of Reasoning, um sistema que pretende refletir o método científico europeu (http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/publicacoes/artigos_revistas/ALogicalExpr essionofReasoning.pdf). Quero expor o que sinto a respeito da "Filosofia" praticada nas academias, especialmente a ocidental. Com isto não quero desmerecer de nenhuma forma gente do quilate de Platão, Hegel, Kant, etc., os quais são alguns dos grandes luminares da Filosofia mundial. Quero relatar aqui especialmente a impressão que tem me dado a filosofia praticada nas universidades no dia-a-dia, enquanto alguém de fora dos departamentos e centros de filosofia, mas que tem contatado estes ambientes ao longo dos anos. A Filosofia, especialmente a praticada no Ocidente, padece de alguns graves problemas, entre eles: (1) Só são considerados, basicamente, os filósofos de uma certa linhagem canônica, principiando por Platão e pré-socráticos, e prosseguindo por alguns filósofos medievais, até alguns filósofos da era atual. Não são praticamente considerados filósofos de quilate tais como todos da linhagem Vedanta e Sânquia, da linha hindu, e que deveriam merecer todo o respeito e consideração, e da linha taoísta e budista da China e Japão (pois o Budismo e Taoísmo são também filosofias, não simplesmente religiões). Na era atual são desconsiderados filósofos tais como Krishnamurti, Osho (ou Rajneesh) e todos os da linha da Filosofia Perene (http://www.perennial.org). Também são ignorados por completo os filósofos da Tradição Hermética, começando por Hermes Trismegisto (ou Thoth), Pitágoras, Apolônio de Tiana, Jacob Boehme, Salomão e outros. Tal atitude assemelha-se ao comportamento de um avestruz que esconde a cabeça em um buraco, para ignorar, talvez por medo, tudo o que se passa em sua volta. (2) Em decorrência do problema anterior, a filosofia acadêmica ocidental tem se afastado da admiração e respeito da maioria da elite intelectual e mesmo do resto da população do Ocidente, isto porque as necessidades intelectuais da maioria da população são, em grande parte, ignoradas pelos academicistas ocidentais, que continuam, em sua maioria, a passar o tempo a dissecar e redissecar apenas textos de uma lista bem restrita, e a fazer análises e re-análises, muitas vezes de uma forma bem pedante, de um número bem pequeno de fontes, com respeito à magnitude das referências existentes. (3) A Filosofia Ocidental tem se reduzido, na era atual, a uma atividade intelectual no sentido mais restrito. Não se nota qualquer engajamento expressivo por parte da maioria dos modernos professores de Filosofia. Enquanto Sócrates e Platão pregavam uma mudança profunda na vida de cada um, até nos menores detalhes, para a descoberta da plenitude da Existência, da Verdade e da Beleza, muitos dos que hoje se dizem filósofos passam o tempo em várias análises pedantes, mas apresentam as mesmas falhas psicológicas e de conduta que aquelas da população circundante. Não se nota nenhum benefício em sua vida pessoal, nenhuma transformação, não obstante a destreza intelectual que apresentam para dissecar os textos de sua restrita linha escolástica. Neste sentido, ao visitar quase qualquer um dos departamentos ou centros de filosofia do Ocidente, podemos observar formas de conduta tais como a mentira, a maledicência, a intriga, a ocorrência de vícios tais como o fumo ou alcoolismo, e o orgulho. Pergunto-me daí quais os reais benefícios de tal atividade intelectual restrita, se não são observadas transformações mínimas em cada um que se pretende filósofo? Tais falhas de caráter são a antítese do que pregavam os pais da Filosofia Ocidental, tais como Sócrates e Platão. Maiores detalhes estão nos artigos: Tendências Atuais da Filosofia, de Jean-Yves Béziau (http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/Tendencias%20Atuais%20da%20 Filosofia.%20Jean-Yves%20Beziau.pdf); A Universidade Fragmentada e Incompleta, em http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada_e_ Incompleta.pdf. O que quase todos somos e o que podemos ser, em http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/O_que_quase_todos_somos_e_o_ que_podemos_Ser.pdf. Muitos poderiam desconsiderar o que acabei de dizer, pois eu não sou formado em Filosofia, sequer a nível de graduação. O Prof. Jean-Yves Béziau, no entanto, é formado, nesta área, em todos os níveis acadêmicos, e vem tecendo sérias críticas à atividade acadêmica dos presentes centros e departamentos de filosofia. a) Arthur Buchsbaum De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Desidério Murcho Enviada em: quarta-feira, 17 de setembro de 2008 01:11 Para: Logica-L Assunto: Re: [Logica-l] Sem Lógica Caros colegas Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento. E depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da minha disciplina até seria boa ideia. Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: seria tomar o conhecimento científico actual como último e insuperável. Bom, o conhecimento é factivo o que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e isso é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser revistas unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse tem estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum, porque a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o conhecimento de crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de qualquer departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta miséria acientífica chamada filosofia. Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que isto é tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que nos lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos resultados chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos como isso se faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a especular com rigor, precisamente porque essa disciplina não é Científica e não apresenta resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca aprenderemos a produzir resultados excepto os resultados quotidianos da ciência banal e quotidiana e não os resultados da ciência imaginativa, nova, arriscada. Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir temas filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do conhecimento, à filosofia da ciência, para citar só alguns casos. E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo domínio da área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada? Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das teorias, problemas e argumentos em causa. Um abraço, Desidério _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
