Acho que pode valer a pena esclarecer ainda um pouco melhor este ponto
gödeliano, para o benefício de outros colegas da lista que porventura
possam fazer alguma confusão do mesmo gênero.

(Se eu falar alguma besteira ou for impreciso, você me corrige, ok, Doria?)

> O seguinte não é correto:
>
> > O que Gödel mostrou é precisamente que isso não pode ser feito porque há
> > verdades aritméticas que não podem ser demonstradas logicamente em qualquer
> > sistema suficientemente forte para conter a aritmética.

Não sei se percebeste, Desidério, mas a ambiguidade está antes de mais
nada na ordem das tuas quantificações (como ocorre no Argumento da
Causa Primeira): não é que haja "verdades aritméticas que não podem
ser demonstradas logicamente em qualquer sistema" tal-e-tal (ou, como
alguém pode entender daí, que haja verdades não demonstráveis em
*nenhum* sistema tal-e-tal) suficientemente forte, mas mais
precisamente que para cada sistema [omega-consistente, ou simplesmente
consistente, e com um conjunto recursivamente enumerável de teoremas]
"suficientemente forte" (basta este sistema conter a aritmética
primitiva recursiva) há "verdades" que este sistema não será capaz de
demonstrar.  Se você acrescentar então esta verdade como novo axioma,
obviamente ela passa a ser demonstrável, e o sistema resultante seria
"mais completo" do que o anterior...  Mas o diabo do resultado do
Gödel implica a *incompletabilidade*, mais que a *incompletude* (eis
aí mais uma má tradução), e ao acrescentar a tal "nova verdade" como
teorema poder-se-á exibir em seguida uma outra verdade não
demonstrável no novo sistema!

(Nota as condições de aplicabilidade do teorema, entre
colchetes/parênteses rectos.  O problema de usar esta estratégia de ir
acrescentando novas verdades para "completar" a axiomatização inicial
falha justamente pelo fato de que o conjunto de asserções verdadeiras
não é recursivamente enumerável.)

> Já falei que PA + regra de Shoenfield, um sistema não-construtivo mas
> razoável e manipulável, prova todas as verdades da aritmética. (E a
> formulação acima está confusa: pega uma dessas verdades, X. O sistema PA + X
> prova-a, sem problemas. Se X for ∏1, melhor ainda, pois PA + X é quase
> irmão-gêmeo de PA.)

Esclarecendo: PA é a "Aritmética de Peano", e a tal regra-ômega (o
ômega é o ordinal do menor número transfinito) é simplesmente uma
regra com um número enumerável de premissas que diz por exemplo que da
verdade de P(0), P(1), ..., P(n), ... se pode derivar Ax.P(x), para
todo natural x.

Confesso que não faço idéia de qual seria a diferença da regra ômega
de Shoenfield para a de qualquer outro cidadão, mas é fato que a regra
aritmética da indução, por exemplo, obviamente segue da regra-ômega,
estando esta última presente no sistema.  É fato também que se
pudermos falar em versões "construtivas" desta regra (por exemplo, com
premissas definidas recursivamente), e se podemos aceitar tais versões
desta regra como "meios finitários" válidos de inferência (é comum
acordo que a aritmética primitiva recursiva como um todo só fornece
"meios finitários válidos") talvez se possa salvar então algo do
programa Formalista de Hilbert (uma boa questão, de qualquer forma, é
o quanto de expressividade deve ser adicionada à linguagem objeto para
que se possa expressar nela tais versões construtivas da regra-ômega).
 Há toda uma literatura sobre o assunto, com a qual não tenho muita
familiaridade, e creio que outras pessoas da lista podem assumir a
partir deste ponto.

Finalmente, as sentenças do tipo Pi_1 são aquelas que têm a forma
Ax.P(x), onde P expressa uma propriedade recursiva (efetivamente
decidível) dos números naturais.  As sentenças de incompletude do
Gödel são deste tipo.  O argumento gödeliano do Penrose em "Shadows of
the Mind" sobre a implausibilidade de se criar um modelo computacional
para a mente humana também menciona apenas sentenças deste tipo.

Espero ter contribuído com mais clarificações do que obscuridades.

JM
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