Olá, Ricardo!

 

Este argumento parece-me mau:

 

Penso que não podemos nos enganar e esquecer que, de uma forma ou de outra,
uma das funções principais daS filosofiaS, que as fazem existir, é, como na
religião, dar "conforto espiritual, bem-estar de alma"; mesmo que na forma
do apego a microcertezas para poder julgar o mundo e estabelecer seu próprio
valor; é sempre bom lebrar aquela passagem de Nietzche: "como todo
transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos
homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo
telescopicamente em mira de seu agir e pensar"; e falo também de mim, se é
que me entende.

O argumento reduz-se a isto: “Nietzsche disse que P, logo P”. Acontece que
isto, independentemente de ser dito por Nietzsche ou por Hitler, é
historicamente falso, porque: 

1)                          Nada nos escritos da maior parte dos filósofos
permite afirmar que o objectivo deles era encontrar conforto espiritual. 

2)                         Em muitos escritos de filósofos encontramos
precisamente o apelo contrário; é o caso de Quine:
http://www.intelectu.com/intelectu_win_12_06.html

3)                         Falando com muitos filósofos, eles não concordam
com a sua posição perante a filosofia. 

Claro, será verdade que algumas pessoas vêem a filosofia dessa maneira? Sim.
Será essa visão da filosofia preponderante ou filosoficamente significativa?
Esta questão já é mais interessante, pois tanto a tese radical de que nenhum
filósofo vê a filosofia dessa maneira como a de que todos a vêem assim
parecem-me historicamente falsas. Seja qual for a resposta a esta questão,
todavia, de nada vale fingir que é óbvia a resposta que preferimos só porque
concorda com a visão que nós mesmos temos da filosofia. A filosofia serve e
tem servido para muitas coisas ao longo da história, e qualquer pessoa pode
evidentemente fazer o que lhe apetecer dela. Mas a mentira histórica em nada
nos ajuda a ter uma visão mais clara das coisas. E a verdade é que muitos
filósofos encaram como função principal da filosofia a procura de verdades
(e não da Verdade religiosa), e não o conforto espiritual. Até porque muitos
filósofos não acreditam sequer que tenhamos espírito ou alma (conceitos
extremamente difíceis de articular coerentemente, quanto mais tornar
plausíveis). 

Acho que TODOS temos a contribuir nessa jornada em busca da Verdade, que, no
fundo, é uma busca da Verdade sobre nós mesmo (mesmo que existam os que não
se dêem conta disso).

Não concordo, se me for permitido. A maior parte das verdades não são sobre
nós mesmos, excepto quando temos uma concepção algo narcísica da verdade,
sacrificando-a ao que nos é confortável. Defenderei sempre o direito das
pessoas a ter esta visão algo narcísica da verdade e da filosofia, mas é um
exagero dizer que quem não concorda com ela é porque não se dá conta disso.
Pensemos, por exemplo, no problema dos universais ou das verdades
necessárias alógicas. O que tem isto a ver comigo mesmo? Quero saber se há
universais ou não e qual é a sua natureza, quero saber se há verdades
necessárias que não sejam verdades da lógica e qual é a sua natureza; mas
nada disto tem seja o que for a ver comigo ou com o meu conforto espiritual.
Defenderei sempre quem quiser sacrificar a verdade ao conforto espiritual e
quem quiser ver o seu próprio umbigo em todo o lado, mas não vou fingir
publicamente que penso que tal modo de vida é defensável. Não penso tal
coisa, mas as pessoas têm o direito de viver como quiserem e de fazer da
filosofia o que lhes apetecer. 

Assim, não somos mais, nem menos, por sermos filósofos: somos apenas
filósofos; 

Aqui concordo plenamente. Sempre argumentei contra os discursos exagerados
que fazem da filosofia a coisa mais importante do mundo. Não é. Há coisas
muito mais importantes, como ter água quando temos sede, amor e honestidade.
A filosofia é uma disciplina como as outras, muito sofisticada, mais densa
teoricamente do que muitas e menos complexa do que outras. É uma disciplina
entre outras que procuram compreender melhor a natureza da realidade. Um
filósofo não é superior a um padeiro por ter tido a sorte de ter uma
formação académica, tal como um matemático não é superior a um filósofo por
poder demonstrar teoremas, ao passo que o filósofo tudo o que faz é
articular cuidadosamente especulações e discutir argumentos. 

Voltando a um ponto técnico: discordo de você que, em um e-mail anterior,
disse que "descobrimos com Gödel que a verdade matemática não pode ser
totalmente reduzida à verdade lógica". As definições relativas ao número
apresentadas por Frege nos Fundamentos da Aritmética, como extensão de
conceitos, permite definir o número em termos lógicos e derivar as verdades
da Aritmética das verdades lógicas. O problema não está nessa retradução da
LINGUAGEM da Aritmética para a LINGUAGEM da Lógica, que em última análise
permite a redução da verdade matemática à verdade lógica (da qual podemos
ver a incorreção de sua afirmação), mas em buscar fundamentar a Aritmética
em um sistema (recursivamente) axiomatizável, pois nem mesmo as verdades
lógicas (de uma linguagem que contém a de segunda ordem, como é era o caso
de Frege e Gödel) podem ser (recursivamente) axiomatizáveis.

Não me parece que possa concordar com isto. Reduzir a construção de números
a uma construção lógica não é suficiente para reduzir a verdade aritmética à
verdade lógica. É também preciso que todas as verdades que se conseguem
atingir com os métodos normais da matemática se consigam atingir no sistema
lógico criado para o efeito. O que Gödel mostrou é precisamente que isso não
pode ser feito porque há verdades aritméticas que não podem ser demonstradas
logicamente em qualquer sistema suficientemente forte para conter a
aritmética. 

Mas, evidentemente, não sou um lógico e os colegas desta área sabem
muitíssimo mais disto do que eu. 

Forte abraço,

Desidério 

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