Caro Desidério,"O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários
exemplos favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização.
A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não trata do problema do
sentido
da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros inteiros sobre outras temas,
como a natureza da verdade ou a possibilidade do conhecimento, a natureza das
propriedades."Sua observação é pertinente. Sem dúvida é um dos pontos que devem
ser melhor desenvolvidos. Estou tentando esclarecer melhor um ponto de vista
sobre a filosofia, amplamente difundido, que muitos filósofos contestam ou
odeiam. Eu mesmo odeio muito do que se escreve nesse sentido. Mas defendo sim
que esse projeto de salvação está presente senão como tema central ao menos
como pano de fundo no trajeto da história da filosofia.Entrei na discussão
porque mesmo sendo contra as teses apresentadas pelo Arthur, ao apresentarem o
que ele acredita, muitos, inclusive você, resumiram o pensamento dele a uma
caricatura simples e ingênua, alias coisa que muitos ao comentarem alguém ou um
filósofo ou um sistema fazem. Tal como apresentaram o pensamento dele nem mesmo
uma pessoa ingênua acreditaria. Um conselho popperiano: melhorar as teses e os
argumentos adversários para só então criticá-los. No fundo quis apenas moderar.
A palavra salvação pode causar revolta mesmo. O que quero dizer com salvação é
o lado de construção pessoal que a filosofia sempre teve associado ao seu nome.
Abordado sobretudo na parte da ética. Filosofia não é religião, concordo. Mas
ela surgiu tomando como objeto para reflexão temas pertencentes a religião.
Tudo bem que podemos ser objetivos e entender a ética como uma reflexão sobre
os conceitos éticos e trabalhar problemas como a universalização da moral e a
justificação de enunciados éticos ou ainda a possibilidade dos mesmos. Mas
Desidério, você recomendaria o que acabei de dizer como uma chave de leitura
para um estudante de filosofia? Diria para ele ler a ética de Platão assim? Ler
os estóicos assim? Sem dúvida essas questões estão presentes e podemos analisar
esses filósofos assim, mas ao menos na filosofia antiga é inegável que não se
tratava apenas de uma discussão conceitual. Não era esse o interesse principal
desses filósofos. Seria analisá-los de uma perspectiva puramente analítica e
creio que perder o cerne de suas filosofias morais. Contemporaneamente isso é
possível em muitos casos.
Que mostrei exemplos favoráveis a tese que apresentei, não a que defendo, sem
dúvida eu o fiz. Não vejo outro modo de argumentar a favor dessa idéia de forma
sucinta. Um modo mais adequado talvez fosse desenvolver a idéia central de que
a filosofia surge da constatação da finitude do homem e de sua consciência
disso e então olhar para a história da filosofia nessa perspectiva. Sem dúvida
significa entortá-la. Assim como a visão analítica também a entorta. Mas acho
que agindo analiticamente e tendo como pano de fundo essa questão da salvação,
esse lado existencial, temos uma chave de leitura melhor, mais abrangente. A
história da filosofia pura obviamente não temos acesso.
"Hume nunca
escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas passagens apenas
em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a natureza da
representação e da realidade do que sobre o sentido da vida."
Tómas de Aquino defende o cristianismo como a salvação do mesmo modo
que indiretamente Descartes e Kant. Onde culminam as teses de
Schopenhauer? Numa ética do santo. Eu consigo extrair de Hume muitas
diretrizes do que seria uma vida boa. Em Schopenhauer essa idéia é bem
presente, em Hume e Kant menos, mas ainda a vejo presente.
Os livros de filosofia dedicam mais capítulos a outras questões do que ao
sentido da vida. Verdade. Mas após desenvolverem suas ontologias e
epistemologias para onde se dirigem os filósofos? Ética. Ao ler os filósofos
tenho sempre a impressão de que a ética coroa seus sistemas.
Note que quem assume essa questão da salvação ou de uma construção interior não
precisa excluir as outras áreas da filosofia, nem considerá-las menos
importantes.
A salvação está presente de um modo muito forte em Wittgenstein. Ler sua obra
apenas de uma perspectiva analítica seria eliminar o que o motivava a fazer
filosofia. Nesse sentido não acha que a questão de um projeto de construção
pessoal ou de formação acompanha a filosofia? Sem resumi-la a isso.
Gostaria muito de ouvir seus comentários. É um prazer pra mim dialogar com você.
Abraço
Rodrigo
From: [EMAIL PROTECTED]
To: [email protected]
Date: Fri, 19 Sep 2008 11:14:04 -0300
Subject: Re: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental
Caro Rodrigo
Há certas afirmações factualmente falsas que são de evitar. Eis algumas:
“Grosso
modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou ainda: Como
atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e pronto, trata-se de
alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é o principal
instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia. Sócrates mesmo vai
dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A filosofia de Epicuro e dos
estóicos retratam bem isso. Montaigne diz "filosofar é aprender a
morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia para Kant é "O que
nos é permitido esperar?"”
O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários
exemplos favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização.
A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não trata do problema do
sentido
da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros inteiros sobre outras temas,
como a natureza da verdade ou a possibilidade do conhecimento, a natureza das
propriedades.
Por que razão chamo a atenção para isto? Porque nenhuma discussão
séria sobre estes temas pode ter lugar se partirmos logo de falsidades
históricas. Podemos e devemos ter opiniões divergentes sobre se o sentido da
vida devia ou não ser a questão central da filosofia, grosso modo. Mas não
devemos
basear as nossas divergências em puras falsidades históricas. Hume nunca
escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas passagens apenas
em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a natureza da
representação e da realidade do que sobre o sentido da vida.
Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que
dizem ter muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro
desconhecimento
da bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa bibliografia não
dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma música que lhe dê
conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa bibliografia (Wiggins, Nozick,
Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros, incluindo eu próprio) é a
discussão
de ideias, e não paliativos infantis para as dores de alma. A filosofia não é
religião
e por isso não tem qualquer tipo de interesse para quem procura conforto
espiritual.
Espero ter desestabilizado mais uma vez os amigos e colegas da
lista. É o meu jeito idiota de ser. Mas não gosto de opiniões baseadas em
desconhecimento das coisas, nem de hipocrisia: pessoas que querem realmente uma
coisa mas são incapazes de declarar abertamente o que realmente querem. Eu não
vejo
problema algum em querer conforto espiritual, querer uma coisa qualquer
mística, para-religiosa, etc. Mas chamar-lhe filosofia é uma falsidade
histórica,
pura e simplesmente.
Abraços,
Desidério
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