Olá Desidério.

Primeiramente, vamos deixar claro que estudo filosofia a muito tempo e faço
dela ofício de vida; não a sua (pelo menos por enquanto): é bom lembrar que
há outras.

Não tenho vergonha de admitir que aprendo muito com os outros e tenho muito
que aprender.

Penso ser nossa função como filósofos esclarecer aquilo que estudamos (que
ironia: sem a ignorância, a Filosofia não teria razão de ser). Será que,
nesse sentido, nós mesmo não somos razão de existência para outros que
também vão nos ensinar?

Penso que não podemos nos enganar e esquecer que, de uma forma ou de outra,
uma das funções principais daS filosofiaS, que as fazem existir, é, como na
religião, dar "conforto espiritual, bem-estar de alma"; mesmo que na forma
do apego a microcertezas para poder julgar o mundo e estabelecer seu próprio
valor; é sempre bom lebrar aquela passagem de Nietzche: "como todo
transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos
homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo
telescopicamente em mira de seu agir e pensar"; e falo também de mim, se é
que me entende.

Acho que TODOS temos a contribuir nessa jornada em busca da Verdade, que, no
fundo, é uma busca da Verdade sobre nós mesmo (mesmo que existam os que não
se dêem conta disso).

Assim, não somos mais, nem menos, por sermos filósofos: somos apenas
filósofos; tão importante quanto qualquer papel que tem que existir para que
nós existamos, no sentido pleno do termo. Como anda então nossa visão de nós
mesmo e de nosso Universo?

Voltando a um ponto técnico: discordo de você que, em um e-mail anterior,
disse que "descobrimos com Gödel que a verdade matemática não pode ser
totalmente reduzida à verdade lógica". As definições relativas ao número
apresentadas por Frege nos Fundamentos da Aritmética, como extensão de
conceitos, permite definir o número em termos lógicos e derivar as verdades
da Aritmética das verdades lógicas. O problema não está nessa retradução da
LINGUAGEM da Aritmética para a LINGUAGEM da Lógica, que em última análise
permite a redução da verdade matemática à verdade lógica (da qual podemos
ver a incorreção de sua afirmação), mas em buscar fundamentar a Aritmética
em um sistema (recursivamente) axiomatizável, pois nem mesmo as verdades
lógicas (de uma linguagem que contém a de segunda ordem, como é era o caso
de Frege e Gödel) podem ser (recursivamente) axiomatizáveis.

Um forte abraço,
Ricardo.

2008/9/19 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>

>  Olá, Ricardo
>
>
>
> Depende do P. Mas mesmo que seja impossível saber que P para todo o P, o
> conceito de conhecimento torna óbvio que só se pode saber que P, se P.
>
>
>
> Por exemplo, só podes saber que tenho três moedas agora no meu bolso se eu
> tiver três moedas agora no meu bolso. Mas na verdade não podes saber se eu
> tenho agora três moedas no meu bolso porque não estás aqui e porque eu não
> te vou dizer se tenho ou não. Portanto, não podes saber se tenho ou não três
> moedas no meu bolso. Mas em todas as circunstâncias em que vens a saber que
> as tenho, eu tenho-as.
>
>
>
> Eu explico isso na introdução que escrevi ao livro *Os Problemas da
> Filosofia, *de Russell, que publiquei recentemente cá no Brasil. Esta é a
> distinção entre uma teoria metafísica da verdade e uma teoria epistémica da
> verdade. São duas coisas inteiramente diferentes. Uma teoria metafísica da
> verdade é uma teoria sobre o que faz um pensamento ou crença ou proposição
> ser verdadeira ou falsa. Uma teoria epistémica da verdade é sobre o modo
> como podemos ou não conhecer verdades. São problemas inteiramente distintos,
> mas quem não sabe filosofia tem tendência para os confundir.
>
>
>
> Espero ter ajudado.
>
>
>
> Um abraço,
>
> Desidério
>
>
>
> *From:* Ricardo Pereira Tassinari [mailto:[EMAIL PROTECTED]
> *Sent:* sexta-feira, 19 de Setembro de 2008 9:36
>
> *To:* Desidério Murcho
> *Subject:* Re: [Logica-l] Sem Lógica
>
>
>
> Olá novamente.
>
> Mais uma outra dúvida: se bem entendi o que expôs anteriormente, se sei que
> P, então P. Mas como sei que sei P?
>
> Ricardo.
>
>  2008/9/18 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>
>
> Olá!
>
>
>
> Obrigado pelas suas palavras.
>
>
>
> Não, as distinções que fiz são filosoficamente neutras. São aceites por
> qualquer teoria da verdade ou qualquer perspectiva filosófica sobre as
> coisas. Na verdade, é crucial ao estudar e ensinar filosofia distinguir as
> noções filosoficamente neutras — que qualquer posição aceita — das posições
> próprias desta ou daquela posição. Pois sem as posições filosoficamente
> neutras nunca seria possível discutir ideias, pois cada posição seria
> incomunicável. Claro que sempre há maneira de pôr em causa mesmo a mais
> aparentemente neutra das posições porque a filosofia é uma investigação
> radical de tudo, mas entre o quase completamente neutro e claramente ineutro
> há uma grande diferença.
>
>
>
> Um abraço,
>
> Desidério
>
>
>
> *From:* Ricardo Pereira Tassinari [mailto:[EMAIL PROTECTED]
> *Sent:* quinta-feira, 18 de Setembro de 2008 17:58
> *To:* Desidério Murcho
>
>
> *Subject:* Re: [Logica-l] Sem Lógica
>
>
>
> Olá Desidério.
>
> Andei pesquisando um pouco mais sobre seu trabalho na Internet e achei de
> grande interesse e valor.
>
> Fiquei então com algumas dúvidas:
> 1. As distinções que faz dependem de pressuposições
> metafísicas/ontológicas? Se sim, há outras que não essas?
> 2. Qual teoria da verdade está subjacente a essas distinções?
>
> Abraços,
> Ricardo.
>
> 2008/9/18 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>
>
> Caro Ricardo
>
>
>
> Obrigado pela amável resposta à minha destrambelhada reacção.
>
>
>
> Só acrescento uma nota: conhecimento e verdade são duas coisas diferentes,
> assim como a factividade não é o mesmo que factível.
>
>
>
> O conhecimento é factivo no mesmo sentido em que a visão é factiva: não
> podemos ver uma árvore se não estivermos perante uma árvore, mas podemos
> pensar erradamente que estamos a ver uma árvore quando estamos apenas a
> sonhar ou a ter uma alucinação. Analogamente, não faz sentido dizer que o
> João sabe que a neve é preta e que a neve não é preta. Se a neve não for
> preta, ele não pode saber que é preta, mas pode evidentemente acreditar que
> é preta. Crença e conhecimento são bem diferentes precisamente porque o
> conhecimento é factivo e a crença não.
>
>
>
> O conhecimento é diferente da verdade porque uma crença pode ser verdadeira
> sem contudo ser conhecimento. Quando alguém tem uma crença verdadeira
> qualquer essa crença pode não ser conhecimento se a pessoa não tiver uma
> justificação adequada para ela, e no entanto a crença não é menos verdadeira
> por isso. A verdade é uma propriedade das nossas crenças, pensamentos ou
> proposições, ao passo que o conhecimento é uma *relação* entre um agente
> cognitivo e  uma proposição (falo do conhecimento proposicional, claro, e
> não do saber-fazer nem do conhecimento por contacto).
>
>
>
> Só mais uma nota (sou mesmo um chato): não me parece que um bom argumento a
> favor de não ler introduções à filosofia seja o facto de se ter tido a
> experiência infeliz de se ler más introduções à filosofia. Ninguém aceitaria
> como bom o argumento de que não devemos beber água nunca porque bebemos más
> águas várias vezes no passado, poluídas e com mau gosto. Sem livros
> introdutórios é impossível a alguém ter uma boa formação seja no que for,
> incluindo a filosofia ou a matemática ou a física. Mas, claro, esses livros
> podem ser bons ou maus. A arte é saber escolher os bons e deitar fora os
> maus. Mas se cada um de nós tiver de passar dez anos a estudar só um autor,
> evidentemente que nunca poderá fazer realmente filosofia, pois só conhecerá
> as ideias desse mesmo autor e nem fará a mínima ideia do que os filósofos
> discutem hoje em dia. Na verdade, é dever de quem conhece bem um tema ou
> autor transmitir esse seu conhecimento aos outros, de forma escorreita e
> directa, para que os outros possam aprender mais depressa o que a nós nos
> demorou mais tempo. É por isso que este trabalho didáctico é tão importante:
> sem ele, toda a gente estava ainda a estudar a obra imensa de Aristóteles e
> ninguém mais tinha escrito mais nada depois disso. E o mesmo aconteceria na
> física ou na geometria. Infelizmente não há muitas vezes a noção da
> importância deste trabalho didáctico humilde, mas que se for bem feito
> permite a um estudante de 18 anos compreender melhor a lógica aristotélica,
> em apenas umas semanas, do que Aristóteles a compreendia (e ele deve ter
> demorado anos a desenvolver o seu sistema de lógica). Enfim, esta é a minha
> visão das coisas e pode obviamente estar errada, mas achei boa ideia
> partilhá-la com os colegas. Talvez por causa das minhas origens humildes, a
> democratização do conhecimento é para mim um aspecto muito importante.
>
>
>
> Um abraço,
>
> Desidério
>
>
>
> *From:* [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] *On
> Behalf Of *Ricardo Pereira Tassinari
> *Sent:* quinta-feira, 18 de Setembro de 2008 3:12
>
>
> *To:* Desidério Murcho
> *Cc:* Logica-L
> *Subject:* Re: [Logica-l] Sem Lógica
>
>
>
> Caro Desidério.
>
>
>
> Desculpe-me se passei a impressão de que a Filosofia "fosse lixo que não
> vale a pena estudar"; acho exatamente o contrário. Sendo um hegeliano (e
> estudo Hegel a mais de 10 anos) não poderia deixar de tê-la, como ele, e
> segundo a determinação que ele apresenta dela, como o mais alto
> Conhecimento. Penso que o Conhecimento, isto é a Verdade, é factivo, mas,
> acabo usando os termos "Ciência" ou "Conhecimento Científico" não nesse
> sentido originário, por ser mais comum em Epistemologia, como, por exemplo,
> em Gilles-Gaston Granger. Porém, mesmo tendo essa posição metafísica, não
> acho que o ponto de vista do Conhecimento como factível tenha aceitação
> geral entre os filósofos. Aliás, se não me engano muito, há muito pouco
> consenso em Filosofia. Por outro lado, evito estudar Filosofia em manuais;
> em geral, a grande maioria dos que já vi expondo a filosofia hegeliana, por
> exemplo, continha erros assustadores, e penso, verdadeiramente, que não se
> pode expressar com precisão o pensamento de um filósofo em algumas poucas
> páginas à alguém que se inicia. Por outro lado, arrepia-me também alguns
> manuais que pretende com algumas definições gerais dar conta de problemas
> filosóficos profundos, exatamente como se conseguissem condensar a resposta
> do problema melhor que os filósofos que os antecederam. Concordo com você
> que seria bom, aqui na lista, um pouco mais de rigor no uso de conceitos
> como o de Ciência, por exemplo, mas não chego a me irritar com isso.
>
> Quanto a seu comentário a respeito do que pensaria Piaget a respeito da
> Filosofia, em resposta ao Márcio, sugiro que leia o livro de Piaget "Ilusões
> e Sabedorias da Filosofia" do qual a citação foi tirada. Ela é um pouco mais
> complexa do que a citação pode informar.
>
> No mais, é bom ver um verdadeiro filósofo participar aqui de nossa
> discussão: bem vindo a lista de Lógica!
>
> Abraço,
> Ricardo.
>
>    2008/9/17 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>
>
> Caros colegas
>
>
>
> Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me
> irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a
> filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com
> maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento. E
> depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da
> minha disciplina até seria boa ideia.
>
>
>
> Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: "seria tomar o conhecimento
> científico actual como último e insuperável". Bom, o conhecimento é factivo
> o que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e
> isso é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa
> completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser revistas
> unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse tem
> estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais
> clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum,
> porque a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o conhecimento
> de crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de
> qualquer departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta
> miséria acientífica chamada filosofia.
>
>
>
> Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização
> completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em
> qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que isto
> é tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que
> nos lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos
> resultados chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos
> como isso se faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a especular
> com rigor, precisamente porque essa disciplina não é Científica e não
> apresenta resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca
> aprenderemos a produzir resultados excepto os resultados quotidianos da
> ciência banal e quotidiana — e não os resultados da ciência imaginativa,
> nova, arriscada.
>
>
>
> Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o
> desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais
> básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é
> menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem
> zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir temas
> filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que
> roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que
> permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de
> filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente
> sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do
> conhecimento, à filosofia da ciência, para citar só alguns casos.
>
>
>
> E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como
> reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo domínio
> da área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada?
> Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de
> fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um
> treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das
> teorias, problemas e argumentos em causa.
>
>
>
> Um abraço,
>
> Desidério
>
>
>
> *From:* [EMAIL PROTECTED] [mailto:
> [EMAIL PROTECTED] *On Behalf Of *Ricardo Pereira Tassinari
> *Sent:* terça-feira, 16 de Setembro de 2008 4:44
> *To:* Lógica-L
> *Subject:* [Logica-l] Sem Lógica
>
>
>
> Olá a todos.
>
>
>
> Confesso que já não estou entendendo mais muito bem o que estamos
> discutindo sobre Religião (já que a discussão sobre Futebol e Política não
> vingou), mas parece-me claro que:
>
> 1. Não dá para equiparar conhecimento científico (com a construção de
> modelos, testes experimentais controlados e públicos, etc.) com
> "conhecimento" (se faz sentido usar essa palavra aqui) sobre assuntos
> religiosos;
> 2. A Ciência não caracteriza completamente o que é a Realidade; seria
> transformar a Ciência em Metafísica e, pior, tomar o conhecimento científico
> atual como último e insuperável;
> 3. No "método científico" (se há tal coisa, pois não é um algoritmo), na
> escolha dos postulados de uma teoria científica, entram coisas como "Navalha
> de Ockham" ou Princípio de Simplicidade, que, a menos que se prove o
> contrário, a Verdade (se posso usar esse termo) não tem que satisfazer;
>
> Assim, por 2 e 3, estamos no relativo; isso cria um vácuo em relação ao que
> o "conhecimento" religioso (ou até mesmo metafísico) quer atingir (e sobre
> os "métodos" usados para isso), que cada um tem o direito de preencher como
> quiser (seja sendo um ateu-macho como o Décio, seja sendo um livre pensador
> que busca superar seus preconceitos como o Arthur). Para além disso é
> dogmatismo, não?
>
> Particularmente, a questão me toca pois acho que há muito a se pesquisar
> sobre o homem (em especial, como explicar o comportamento humano dito
> "superior" em Psicologia, e.g., como o ser humano "faz" Matemática ou como
> ele constrói a Ciência) seja como ser biológico (como o faz Piaget) seja sob
> um ponto de vista idealista (que *esteticamente* me agrada), sem fixar de
> início qual a posição metafísica a se adotar. Parece-me claro que ninguém
> atualmente tem respostas claras e convincentes, muito menos explicações
> científicas com todo o rigor que elas demandam, para entendermos, pelo
> menos, como somos, o que dirá o que somos.
>
> Abraço a todos,
> Ricardo.
>
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> Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
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