Tem várias provas simples do primeiro teorema de incompletude. Tem
uma, imediata, de Kleene, que vale para sentenças ∏2.

On 8/5/09, Rodrigo Oliveira <[email protected]> wrote:
>
>
> Olá Marcelo Finger,
> Obrigado pelos esclarecimentos.
> Fiquei com certo receio ao ler a apresentação do teorema que o Watzlawick
> faz, por isso minha pergunta sobre a apresentação que ele faz do teorema,
> embora conheça o teorema apenas pela apresentação informal do livro Prova de
> Gödel, do Newman e do Nagel, acompanho a lista e vi algumas correções sobre
> o teorema de Gödel sendo feitas. Meu desconforto foi exatamente o ponto que
> abordou, quando ele afirma que G é demonstrável a partir das premissas e
> axiomas do sistemas. Nesse ponto fiz bem em postar o texto, pois eliminou
> minha dúvida. Fico com a sensação, porém de que talvez ele pudesse querer
> dizer que ela era permitida pelos axiomas do sistema, ou expressável no
> sistema, dai teria que ver o original em inglês. Mesmo assim pecaria ao se
> referir a qualquer sistema, como apontou o Décio, muitos sistemas não
> conseguem nem reproduzir o teorema.
> Eu tenho certo receio quanto à essas abordagens também, embora ache que seja
> necessário e creio que será o caminho pelo qual irei. Postar o texto aqui na
> lista foi uma forma de filtrar o texto. Mesmo com os pequenos erros
> identificados, trata-se de um apêndice, um complemento no espírito do texto,
> mas sem ligação direta com este. Não compromete o livro.
>
> Nunca tinha ouvido falar em omega-consistência, pode falar mais a respeito?
> Abraço
> Rodrigo
> Date: Mon, 3 Aug 2009 14:21:04 -0300
> Subject: Re: [Logica-l] Paul Watzlawick, o teorema de Gödel e o Tractatus de
> Wittgenstein
> From: [email protected]
> To: [email protected]
> CC: [email protected]
>
> Caro Rodrigo.
>
> Os problemas começam quando se toma o Teorema de Goedel como sendo o que ele
> não é.  Segundo o seu texto:
>
>   "Gödel
> pôde demonstrar que nesse sistema ou algum outro equivalente é possível
> construir uma frase, G, que (1) é demonstrável a partir das premissas e
> axiomas do sistema, mas que (2) afirma de si mesma que é
> indemonstrável. "
>
> Lamento, mas o que o Teorema diz é que, se uma teoria T for uma extensão da
> Aritmética de Peano, então existe uma fórmula A:
>
>   a) SE A TEORIA T FOR CONSISTENTE, A não é demonstrável em T; e
>
>   b) SE A TEORIA T FOR omega-CONSISTENTE, a negação de A não é demonstrável
> em T.
>
> Essas pré-condições de consistência são absolutamente fundamentais tanto
> para a demonstração quanto para a compreensão do teorema.  (Rosser depois
> mostrou que a omega-consistência pode ser reduzida a apenas consistência
> usando uma outra fórmula).  A sua análise, e muitas outras, omitem este
> facto.
>
>
> Aliás, o teorema é chamado de "incompletude", pois uma teoria é incompleta
> se existe uma fórmula tal que nem ela nem sua negação podem ser
> demonstradas.  O Teorema de Gödel diz q a aritmética de Peano é incompleta e
> não pode ser completada.
>
>
> Em nenhum lugar está dito que a fórmula A responsável pela incompletude é
> "demonstrável a partir das premissas e
> axiomas do sistema".  Aliás, se ela assim fosse, ou o teorema ou a
> aritmética seriam inconsistentes.  Por sinal, a auto referência da fórmula A
> não é direta, mas se dá através de um sistema
> de codificação de fórmulas e provas em elementos da aritmética (de
> peano).  Esta codificação não é única, diversas codificações distintas
> servem de base para o teorema.
>
> Espero ter ajudado.
>
> []s
>
> Marcelo
>
>
>
>
> 2009/8/3 Rodrigo Oliveira <[email protected]>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
> Olá a todos,
>
> Estou lendo o livro Pragmática da Comunicação Humana, do Paul Watzlawick. No
> fim do livro ele faz uma relação entre o teorema de Gödel e o que ele chama
> de o paradoxo fundamental da existência humana, sendo o Tractatus de
> Wittgenstein uma maneira de expressar esse paradoxo. Reproduzo aqui o texto,
> que é um pouquinho longo para um e-mail. Gostaria de ouvir comentários obre
> ele, dado que qui se encontram especialistas nos temas abordados. Penso em
> coisas como: o modo como ele apresenta o teorema é adequado? A relação que
> ele apresenta faz sentido? Se a estrutura é semelhante mesmo, como
> Wittgenstein aparentemente não entendeu o teorema de Gödel? O teorema de
> Gödel envolve a auto-referência, Wittgenstein negava tal coisa... Que pensam
> disso?
>
>
> Abraços
>
> Rodrigo
>
>
> Segue o texto:
>
> As hierarquias como aquelas com que estamos agora ocupados foram
> detalhadamente exploradas num ramo da matemática moderna, com o qual nosso
> estudo tem grande afinidade, exceto o fato de que a matemática é de uma
> coerência e rigor incomparavelmente maiores do que nós podemos ter sequer
> esperança de alcançar. O Ramo em questão é a teoria da prova - ou
> metamatemática. Tal como esta última denominação claramente implica, essa
> área da matemática trata de si mesma, isto é, das leis inerentes à
> matemática e o problema de saber se a matemática é ou não coerente.
> Portanto, não surpreenderá que os matemáticos tenham encontrado e
> investigado, essencialmente, as mesmas consequências paradoxais da
> auto-reflexividade, muito antes de que analistas da comunicação humana
> estivessem cônscios sequer de sua existência. De fato, o trabalho nessa área
> remonta a Schöder (1895), Löwenheim (1915) e, especialmente, a Hilbert
> (1918). A teoria da prova, ou metamatemática, era então a preocupação
> altamente abstrata de um brilhante, embora reduzido, grupo de matemáticos,
> situado, por assim dizer, fora da corrente principal da atividade
> matemática. Segundo parece, dois acontecimentos serviram, subsequentemente,
> para que a teoria da prova ocupasse o foco das atenções. Um deles foi a
> publicação, em 1931, do histórico artigo de Gödel sobre as proposições
> formalmente indetermináveis, um trabalho que os professores da Universidade
> de Harvard descreveram como o mais importante progresso realizado num quarto
> de século no campo da lógica matemática. O Outro acontecimento foi o
> aparecimento quase explosivo do computador, depois da II Guerra Mundial.
> Essas máquinas foram rapidamente desenvolvidas a partir de autômatos
> rigidamente programados, até se converterem em organismos artificiais
> imensamente versáteis que começaram a propor problemas fundamentais sobre a
> teoria da prova, logo que a sua complexidade estrutural atingiu um ponto em
> que foi possível fazê-los decidir por si mesmos qual era, entre vários, o
> procedimento otimal de computação. Por outras palavras, surgiu a
> possibilidade de projetar computadores que não só executavam um programa
> mas, ao mesmo tempo, eram capazes de efetuar mudanças em seus programas.
>
>
>
> Na teoria da prova, a expressão procedimento de decisão, refere-se à questão
> de apurar se existe ou não um procedimento do tipo que se acaba de
> descrever. Portanto, um problema de decisão tem uma solução positiva de
> puder ser encontrado um procedimento de decisão para resolvê-lo, enquanto
> que uma solução negativa consiste em provar que tal procedimento não existe.
> Nesta conformidade, os problemas de decisão são referidos ou como
> computáveis ou como insolúveis.
>
> Entretanto, existe uma terceira possibilidade. As soluções definidas
> (positivas ou negativas) de um problema de decisão só são possíveis quando o
> problema em questão se encontra dentro do domínio (a área de aplicabilidade)
> desse específico procedimento de decisão. Se esse procedimento de decisão
> for aplicado a um problema fora do seu domínio, a computação prosseguirá
> indefinidamente, sem provar jamais que uma solução (positiva ou negativa)
> está prestes a ser alcançada. É neste ponto que voltamos a encontrar o
> conceito de indeterminabilidade.
>
> Este conceito é o tema central do acima citado artigo de Gödel sobre as
> proposições formalmente indetermináveis. O sistema formalizado que esse
> autor escolheu para o seu teorema foi os Principia Mathematica, a monumental
> obra de Whitehead e Russel, explorando os alicerces da matemática. Gödel
> pôde demonstrar que nesse sistema ou algum outro equivalente é possível
> construir uma frase, G, que (1) é demonstrável a partir das premissas e
> axiomas do sistema, mas que (2) afirma de si mesma que é indemonstrável.
> Isto significa que, se G é demonstrável no sistema, a sua
> indemonstrabilidade (que é o que di de si mesmo) também seria demonstrável.
> Mas se tanto a demonstrabilidade como a indemonstrabilidade podem ser
> derivadas dos axiomas do sistema e os próprios axiomas são coerentes (o que
> faz parte da prova de Gödel, então G é indemonstrável em termos do sistema,
> tal como a previsão paradoxal apresentada em s. 6.441 é indeterminável em
> termos do seu "sistema", que é a informação contida no anúncio do diretor da
> escola e o contexto em que é feito. A prova de Gödel reveste-se de
> consequências que vão muito além da lógica matemática; de fato, demonstra de
> uma vez para sempre que qualquer sistema formal (matemático, simbólico etc.)
> é necessariamente incompleto no sentido acima estabelecido e que, além
> disso, a coerência de um tal sistema só pode ser demonstrada recorrendo a
> métodos de prova que são mais genéricos do que aqueles que o próprio sistema
> pode gerar.
>
> Detivemo-nos mais demoradamente no trabalho de Gödel porque vemos nele a
> analogia matemática do que chamaríamos o paradoxo fundamental da existência
> humana. O homem é, em última instância, sujeito e objeto de sua busca.
> Conquanto seja sobre se a mente pode ser considerada algo semelhante a um
> sistemaformalizado, tal como foi definido no parágrafo precedente, a bsca
> humana de uma compreensão do significado de sua existência constitui uma
> tentativa de formalização. Somente nesse sentido entendemos que certos
> resultados da teoria da prova especialmente nas áreas da auto-reflexividade
> e da indeterminabilidade) são pertinente. Isto não é, de maneira alguma, uma
> descoberta nossa; de fato, dez anos antes de Gödel apresentar o seu
> brilhante teorema, outras das grandes inteligências do nosso século já
> formulara esse paradoxo em termos filosóficos; referimo-nos a Ludwig
> Wittgenstein, em seu Tractatus Logico-Philosophicus. Provavelmente, em
> nenhuma outra obra foi esse paradoxo existencial definido de maneira mais
> lúcida nem ao místico foi conferido uma posição mais digna como o passo
> final que transcende esse paradoxo.
>
> Wittgenstein mostra-nos que só poderíamos saber algo sobre o mundo, em sua
> totalidade, se pudéssemos sair fora dele; mas se isso fosse possível, este
> mundo já não seria todo o mundo. Contudo, a nossa lógica nada conhece fora
> dele:
>
> "A lógica enche o mundo: os limites do mundo são também seus
> imites.Portanto, não podemos dizer em lógica: Isto e isto há no mundo,
> aquilo não há.Pois isso, evidentemente, pressuporia que excluímos certas
> possibilidades e tal não pode ocorrer, dado que, de outro modo, a lógica tem
> que sair dos limites do mundo; que dizer, se pudéssemos considerar estes
> limites também do outro lado.
> O que não podemos pensar, não podemos pensar; portanto não podemos dizer o
> que não podemos pensar."
> O mundo, assim, é finito e, ao mesmo tempo, ilimitado; ilimitado,
> precisamente, porque nada existe fora que, junto ao de dentro, possa
> constituir uma fronteira. Mas, assim sendo, deduz-se que "O mundo e a vida
> são uma só coisa. Eu sou o meu mundo". Logo, sujeito e mundo já não são
> entidades cuja função relacional é, de algum modo, governada pelo verbo
> auxiliar ter (que um tem o outro, contém ou lhe pertence) mas, outrossim,
> pelo ser existencial: "O sujeito não pertence ao mundo, é um limite do
> mundo".
>
> Dentro desse limite, é possível formular e responder a perguntas
> significativas: "Se é víavel formular uma pergunta, então também se pode
> responder-lhe". Mas "a solução do enigma da vida no espaço e no tempo está
> fora do espaço e do tempo". Pois, como já deve estar mais do que
> esclarecido, nada dentro de um quadro de referência pode enunciar ou mesmo
> perguntar coisa alguma sobre esse quadro de referência. Portanto, a solução
> não consiste em encontrar uma resposta para o enigma da existência mas em
> compreender que esse enigma não existe. Esta é a essência das belas frases
> finais do Tractatus, com seu sabor reminiscente do Budismo Zen:
>
> "Para uma resposta que não pode ser expressa, tampouco a pergunta pode ser
> expressa. O enigma não existe. (...)Sentimos que, mesmo se respondêssemos a
> todas as possíveis perguntas científicas, mesmo assim os problemas da vida
> continuariam intocados. É claro, não restará então pergunta alguma e esta é
> precisamente a resposta.
> A solução do problema da vida vislumbra-se quando esse problema se dissipa.
> (Não é essa, porventura, a razão pela qual os homens a quem, após longas
> dúvidas, o sentido da vida se lhes torna claro, não podem dizer em que
> consiste esse sentido?)
> Existe, sem dúvida, o inexpressável. Este mostra-se a si mesmo, é o
> místico...Do que não podemos falar, devemos guardar silêncio."
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