Vamos praticar a máxima de Nietzsche de poder expressar tão bem ou melhor o
ponto de vista do outro para só então opinar sobre ele, embora eu sinta asco
por praticamente toda a filosofia francesa contemporânea e principalmente da
filosofia da diferença. Sou contra fazer uma caricatura tosca e simplista do
pensamento dos outros.
Primeiro, embora ela diga "a metafísica seria" percebe-se pela sequência que
ela está problematizando mais do que definindo. E ela não começa mal... o
múltiplo a partir do um... isso lembra a metafísica de Aristóteles, acidentes e
substância... embora eu duvide que ela conheça bem este texto clássico. Em
seguida ela diz: "o outro a partir do mesmo", é a mesma coisa do primeiro, mas
ela começa a direcionar para uma problemática, pois introduz um conceito que
nos faz caminhar em direção a Levinas (outro)... às filosofias da alteridade...
o diferente a partir do mesmo... um adorno retórico provavelmente, embora sirva
para ilustrar o dualismo que ela quer introduzir... a alteridade como uma
alteridade do mesmo... confirma que está fazendo uso de termos das filosofias
da alteridade... o diferente como uma degradação da identidade... aqui penso
que está o cerne do que ela vai dizer, isso é: o feminino é sempre definido a
partir do masculino, veio de uma costela de Adão, é a companheira do homem e
etc... some a isso toda aquela história de o neutro no português ser o
masculino...
Acredito que diante de sua crítica de que ela está definindo metafísica como O
múltiplo a partir do um e etc... ela diria que não está fazendo uma definição,
que esse não é o objetivo de seu texto e etc... e que sabe que metafísica não é
isso... é só um modo de colocar a questão. Basta conhecer um pouco sobre
debates filosóficos para imaginar ela dizendo isso.
Eu li apenas esse paragrafo e posso estar viajando tremendamente, mas está ai a
tentativa de dar sentido ao texto.
Leia os seguintes extratos do livro O Segundo Sexo, de Simone de Beavouir e
verá de onde ela extrai essa problemática:
"Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também
explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que
provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que
é uma mulher?
A relação dos dois sexos não é a das duas eletricidades, de dois pólos. O homem
representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos "os homens"
para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singular do
vocábulo vir o sentido geral da palavra homo. A mulher aparece como o negativo,
de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade.
Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir os homens
dizerem-se: "Você pensa assim porque é uma mulher". Mas eu sabia que minha
única defesa era responder: "penso-o porque é verdadeiro", eliminando assim
minha subjetividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: "E você
pensa o contrário porque é um homem", pois está subentendido que o fato de ser
um homem não é uma singularidade; um homem está em seu direito sendo homem, é a
mulher que está errada.
A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente
a êle; ela não é considerada um ser autônomo. "A mulher, o ser r e l a t i v o
. . . ", diz Michelet. E é por isso que Benda afirma em Rapport d'Uriel: "O
corpo do homem tem um sentido em si, abstração feita do da mulher, ao passo que
este parece destituído de significação se não se evoca o m a c h o . .. O
homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem". Ela não é senão o que o
homem decide que seja; daí dizer-se o "sexo" para dizer que ela se apresenta
diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é
absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não
este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o
Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro."
Rodrigo
> From: [email protected]
> Date: Mon, 5 Dec 2011 20:32:49 -0200
> To: [email protected]
> CC: [email protected]
> Subject: Re: [Logica-l] Teoremas de Gödel
>
> Doria
> Mais um pouco e depois chega disso (pelo menos para mim). Repito aqui a
> primeira parte do texto que o Tony mandou anteriormente. Peço que alguém leia
> atentamente e procure algo que preste:
>
> "A metafísica seria uma forma de pensar o múltiplo a partir do um, o outro a
> partir do mesmo, o diferente a partir do idêntico, a alteridade como uma
> alteração do mesmo, o diferente como uma degradação da identidade. É sob essa
> inspiração que pretendo discutir a diferença sexual e a articulação entre
> feminino - esse outro pensado na tradição a partir do mesmo -,alteridade e
> ética."
>
> Puxa, que profundidade.....que visão original sobre o que seria a
> metafísica...o mesmo a partir do idêntico...o diferente como uma degradação
> da identidade...CHEGA! Bullshit (ôpa, um termo colonialista!!)
>
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