Prezado Décio, Essa é uma importantíssima pergunta que muitos de nós deveríamos fazer mais frequentemente. As vezes por costume, gosto ou tradição vários de nós começamos as nossas aulas pela lógica proposicional clássica, tabelas de verdade, etc., e depois definimos *negativamente* e num curto período, outras lógicas como *não*-clássicas. Eu conheço colegas que estão nesta lista que seguiram um outro caminho, tipo: minimal, intuicionista positiva, intuicionista negativa e clássica (ou algo semelhante). Os problemas não formais da lógica proposicional clássica, como o "ex falso", os "paradoxos da implicação material", etc., ou pragmáticos (p.ex., a maioria das pessoas temos um conjunto de crenças inconsistentes, porém não trivial, no sentido de que não acreditamos em todo), esses problemas foram assinalados e discutidos quase desde o início da lógica (nos estoicos, quando "até os corvos dos telhados estão gritando sobre quais condicionais são verdadeiros").
Em alguns cursos, eu começava com falácias não formais (ad hominem, ad ignorantiam, etc.) para chegar, pela via negativa, à ideia de que existem argumentos e que eles devem ser estudados. É claro que o enfoque deve ser diferente se for um curso de filosofia, matemática ou computação. Entretanto eu penso que qualquer bom artigo científico ou filosófico tem de argumentar. Mas não é muito difícil encontrar falácias em artigos de diversas áreas. Eu não tenho certeza da maneira mais adequada de começar com a lógica, nem com qual lógica começar, nem quais são os aspetos que devam ser mais ressaltados em cada curso em particular. Vejo, sim, os estragos da falta de lógica quando num debate político não consigo encontrar uma argumentação. Talvez seja fanatismo de lógico, mas eu gostaria que todo mundo "discuta como os sábios" e não como os reis: The king said: -- 'Excellent Nagasena, to hold further discussion with would you like me?' -- 'If you are willing to discuss like a wise man, king, yes, indeed; but if you want to discuss like a king, then no.' -- 'How do the wise discuss, excellent Nagasena?' -- 'In the discussions of the wise, king, there is found unrolling and rolling up, convincing and conceding; agreements and disagreements are reached. And in all that, the wise suffer no disturbance. Thus it is, king, that the wise discuss.' (Milinda-pañha, 51.01: The questions of King Milinda. Oxford I: 1890, II: 1894. Citado na História da Lógica de Bochenski) Carlos 2011/12/10 Décio Krause <[email protected]>: > Caro Carlos > Começar cm qual lôgica? > D > > ------------------------------------------------------ > Décio Krause > Departamento de Filosofia > Universidade Federal de Santa Catarina > 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil > http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause > ------------------------------------------------------ > > > Em 09/12/2011, às 20:41, Carlos Gonzalez <[email protected]> escreveu: > >> Eu li em algum lado que a ordem dada por Andrónico de Rodas era >> didática. Começava com o Organon, seguia com a Física (e talvez >> tratados naturais) e continuava com a Metafísica. Mas um nome dado à >> Física é "Auscultações da natureza", "Naturalis Auscultationis", >> Φυσικής Ακροάσεως [Physikés Acroáseos], de modo que "ta metá ta >> physica" (literalmente: as coisas depois das coisas naturais) poderia >> ser interpretado como "depois de ouvir com atenção a natureza". >> >> Acho um bom plano de trabalho esse do Andrónico: começar com a lógica, >> ouvir com atenção a natureza e depois partir para a reflexão >> filosófica. O problema é que levaria muito tempo. >> >> Carlos >> >> 2011/12/8 Francisco Antonio Doria <[email protected]>: >>> Se me permitem, lembro que tà metà tà phusikà, originalmente, era como se >>> chamavam os textos de Aristóteles que vinham depois do livro das coisas da >>> natureza (tà phusikà). >>> >>> 2011/12/8 Daniel Durante <[email protected]> >>> >>>> Décio e Colegas, >>>> >>>> Chego com um pouco de atraso no debate, mas não resisti a dar meu pitaco >>>> neste tema. Você escreveu: >>>> >>>> >>>> Repito aqui a primeira parte do texto que o Tony mandou anteriormente. >>>>> Peço que alguém leia atentamente e procure algo que preste: >>>>> >>>>> "A metafísica seria uma forma de pensar o múltiplo a partir do um, o >>>>> outro a partir do mesmo, o diferente a partir do idêntico, a alteridade >>>>> como uma alteração do mesmo, o diferente como uma degradação da >>>>> identidade. >>>>> É sob essa inspiração que pretendo discutir a diferença sexual e a >>>>> articulação entre feminino - esse outro pensado na tradição a partir do >>>>> mesmo -,alteridade e ética." >>>>> >>>> >>>> Bem, talvez seja porque nos finais de semestre, para não reprovar a >>>> maioria dos meus alunos, eu tenho que exercitar muito a capacidade de achar >>>> algo que preste em textos, eu não vejo um poço escuro e sem fim de >>>> charlatanismo no texto de nossa amiga. :) Vou tentar defendê-la: >>>> >>>> O que é a metafísica senão uma investigação "a priori" da realidade? Mas >>>> como é que podemos conhecer a realidade "a priori"? "A priori" só posso >>>> conhecer algum aspecto de mim mesmo, sejam as ideias inatas cartesianas, >>>> sejam as formas puras da sensibilidade ou categorias do entendimento >>>> kantianas,... E, no entanto, o mundo é, também, constituído destas coisas. >>>> Pelo menos o mundo cognoscivel. Então, não vejo tanto absurdo nestas >>>> fórmulas que ela apresenta sobre o que é a metafísica: "pensar o múltiplo a >>>> partir do um, o outro a partir do mesmo, o diferente a partir do idêntico, >>>> a alteridade como uma alteração do mesmo,...". Acredito em estilos >>>> distintos de pensamento e mesmo de racionalidade. A filosofia é >>>> especulativa e não faz mal nenhum especular sobre o lugar da diferença de >>>> gêneros em nossa cultura partindo da ideia de que o masculino é o gênero >>>> neutro, inicial, de onde emana o gênero feminino como diferença e >>>> alteridade subsidiárias deste. As coisas são mesmo assim? Esta especulação >>>> nos ilumina com a verdade? Não sei. Talvez nunca saberemos. Mas isso não >>>> importa à Filosofia, afinal de contas ainda não sabemos se o fundamento >>>> último do conhecimento são ideias claras ou dados dos sentidos, não sabemos >>>> se a boa ação guia-se por princípios universais ou depende do cálculo das >>>> suas consequências, não sabemos se o número sete existe sem unidade ou se >>>> existem apenas sete pedras, sete pessoas, sete árvores,... não sabemos nem >>>> como é que um nome próprio faz referência à coisa que nomeia. >>>> >>>> Eu não usaria as palavras que ela usa para caracterizar a metafísica, nem >>>> estimularia meus alunos a usarem. Mas eu entendo estas palavras, e entendo >>>> a proposta do artigo dela que o Tony copiou aqui um trecho e, sinceramente, >>>> apenas pelos parágrafos que li, não vejo ali nenhum grande absurdo. >>>> >>>> Enfim, viva a diferença. >>>> >>>> Saudações, >>>> Daniel >>>> >>>> >>>> ______________________________**_________________ >>>> Logica-l mailing list >>>> [email protected] >>>> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-**bin/mailman/listinfo/logica-l<http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l> >>>> >>> >>> >>> >>> -- >>> fad >>> >>> ahhata alati, awienta Wilushati >>> _______________________________________________ >>> Logica-l mailing list >>> [email protected] >>> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l >> _______________________________________________ >> Logica-l mailing list >> [email protected] >> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
