Eu li em algum lado que a ordem dada por Andrónico de Rodas era
didática. Começava com o Organon, seguia com a Física (e talvez
tratados naturais) e continuava com a Metafísica. Mas um nome dado à
Física é "Auscultações da natureza",  "Naturalis Auscultationis",
Φυσικής Ακροάσεως [Physikés Acroáseos], de modo que "ta metá ta
physica" (literalmente: as coisas depois das coisas naturais) poderia
ser interpretado como "depois de ouvir com atenção a natureza".

Acho um bom plano de trabalho esse do Andrónico: começar com a lógica,
ouvir com atenção a natureza e depois partir para a reflexão
filosófica. O problema é que levaria muito tempo.

Carlos

2011/12/8 Francisco Antonio Doria <[email protected]>:
> Se me permitem, lembro que tà metà tà phusikà, originalmente, era como se
> chamavam os textos de Aristóteles que vinham depois do livro das coisas da
> natureza (tà phusikà).
>
> 2011/12/8 Daniel Durante <[email protected]>
>
>> Décio e Colegas,
>>
>> Chego com um pouco de atraso no debate, mas não resisti a dar meu pitaco
>> neste tema. Você escreveu:
>>
>>
>>  Repito aqui a primeira parte do texto que o Tony mandou anteriormente.
>>> Peço que alguém leia atentamente e procure algo que preste:
>>>
>>> "A metafísica seria uma forma de pensar o múltiplo a partir do um, o
>>> outro a partir do mesmo, o diferente a partir do idêntico, a alteridade
>>> como uma alteração do mesmo, o diferente como uma degradação da identidade.
>>> É sob essa inspiração que pretendo discutir a diferença sexual e a
>>> articulação entre feminino - esse outro pensado na tradição a partir do
>>> mesmo -,alteridade e ética."
>>>
>>
>> Bem, talvez seja porque nos finais de semestre, para não reprovar a
>> maioria dos meus alunos, eu tenho que exercitar muito a capacidade de achar
>> algo que preste em textos, eu não vejo um poço escuro e sem fim de
>> charlatanismo no texto de nossa amiga. :) Vou tentar defendê-la:
>>
>> O que é a metafísica senão uma investigação "a priori" da realidade? Mas
>> como é que podemos conhecer a realidade "a priori"? "A priori" só posso
>> conhecer algum aspecto de mim mesmo, sejam as ideias inatas cartesianas,
>> sejam as formas puras da sensibilidade ou categorias do entendimento
>> kantianas,... E, no entanto, o mundo é, também, constituído destas coisas.
>> Pelo menos o mundo cognoscivel. Então, não vejo tanto absurdo nestas
>> fórmulas que ela apresenta sobre o que é a metafísica: "pensar o múltiplo a
>> partir do um, o outro a partir do mesmo, o diferente a partir do idêntico,
>> a alteridade como uma alteração do mesmo,...". Acredito em estilos
>> distintos de pensamento e mesmo de racionalidade. A filosofia é
>> especulativa e não faz mal nenhum especular sobre o lugar da diferença de
>> gêneros em nossa cultura partindo da ideia de que o masculino é o gênero
>> neutro, inicial, de onde emana o gênero feminino como diferença e
>> alteridade subsidiárias deste. As coisas são mesmo assim? Esta especulação
>> nos ilumina com a verdade? Não sei. Talvez nunca saberemos. Mas isso não
>> importa à Filosofia, afinal de contas ainda não sabemos se o fundamento
>> último do conhecimento são ideias claras ou dados dos sentidos, não sabemos
>> se a boa ação guia-se por princípios universais ou depende do cálculo das
>> suas consequências, não sabemos se o número sete existe sem unidade ou se
>> existem apenas sete pedras, sete pessoas, sete árvores,... não sabemos nem
>> como é que um nome próprio faz referência à coisa que nomeia.
>>
>> Eu não usaria as palavras que ela usa para caracterizar a metafísica, nem
>> estimularia meus alunos a usarem. Mas eu entendo estas palavras, e entendo
>> a proposta do artigo dela que o Tony copiou aqui um trecho e, sinceramente,
>> apenas pelos parágrafos que li, não vejo ali nenhum grande absurdo.
>>
>> Enfim, viva a diferença.
>>
>> Saudações,
>> Daniel
>>
>>
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