Sem querer entrar na espinhosa questão (só que talvez seria necessário) de uma 
definição mais elegante da expressão *lógica clássica*, mas apenas pra uma 
interseção aqui na discussão, entendo por tal expressão principalmente as 
filosofias e os sistemas de lógica que não violam - ou não procuram violar (nem 
restringir) - os princípios de bivalência, não-contradição, identidade e 
terceiro excluído. Com isso posto, é ainda possível imaginar que tal lógica 
clássica possa ser considerada algo *culturalmente evolutiva*?

A Teoria Crítica de Frankfurt, principalmente Adorno (Dialética Negativa) - e 
também a grande maioria da filosofia continental - atacam a lógica e filosofia 
analítica por um viés parecido. Dizem eles que os lógicos *hipostasiam* algo 
que é meramente cultural, que as regras e necessidades da lógica (ou das 
lógicas) são apenas frutos de uma sociedade burocrática que mesmo antes de ter 
indústrias de materiais de produção já possuía o seu próprio esclarecimento 
industrializado - segundo Adorno, em Homero já se encontra a *fórmula 
capitalista correta* (!) - Sendo assim, todo e qualquer princípio ou regra 
lógica seriam apenas descrições de um modo comum de pensar que foi puramente 
determinado por um momento (momentum?) social, de tal forma que bastaríamos 
mudar as condições sociais que mudaríamos assim a própria Lógica! No 
entanto, eu acho isso tudo no mínimo uma imensa ingenuidade.

Minha questão: sem a Lógica Clássica (*definida* no início) como é possível 
inclusive diferenciar momentos distintos numa sociedade? Como é possível 
identificar as *Lógicas não-Clássicas* e diferenciá-las das *Lógicas 
Clássicas*? Ou seja, toda crítica ou restrição à Lógica Clássica necessita 
dessa mesma lógica pra sequer fazer sentido. Você não consegue significar nada 
que não caia nas exigências da Lógica Clássica! Falo isso pois, a meu ver, a 
expressão "Lógica" não se identifica com a expressão "Sistema Formal". Há 
Sistemas Formais não-Clássicos plenamente funcionais e significativos, mas não 
vejo que exista por causa disso *Lógicas não-Clássicas*. 

Farei aqui uma rápida comparação com a Computação para tentar clarear ainda 
mais essa questão: 

Os inúmeros sistemas lógicos são apenas manipulações de símbolos, naturalmente, 
muitos deles de extrema utilidade. Considero os Sistemas Formais da Lógica no 
mesmo patamar das Linguagens de Programação de Alto Nível. Há inúmeras delas e 
sua quantidade é potencialmente infinita; basta mudar uma sintaxe e eu crio uma 
nova Linguagem, um novo Sistema. Porém, da mesma forma como as Linguagens de 
Alto Nível (como Java, C++, .NET, Haskell...) dependem das mesmas regras 
embutidas lá no micro-processador e por mais distintas e 
contraditórias-entre-si que sejam tais Linguagens serão todas elas processadas 
por essas mesmas regras, assim, da mesma forma, todo Sistema Formal, para 
sequer ter sentido, dependem das regras *embutidas* na semântica da 
metalinguagem do próprio uso linguístico ao manusear tais sistemas. Explico-me: 
no meu entender, ao se fazer filosofia, lógica, ciência.... há sempre uma 
*primeira linguagem* que é simplesmente
 impossível de ser mencionada (eis o nosso *micro-processador*) nela é só 
possível o uso, nunca a menção! Pois basta mencioná-la que ela deixa de ser a 
primeira linguagem e passa a ser uma linguagem-objeto, sendo agora mencionada 
pelo uso daquela sempre *primeira meta-linguagem*, que sempre se mantém ativa 
em qualquer uso da linguagem humana.

Assim, a estrutura semântica dessa sempre primeira metalinguagem é uma Lógica 
essencialmente Clássica, bivalente e consistente, sem qual nada faria sentido, 
sem a qual não seria possível diferenciar nem *momentos sociais distintos* nem 
*sistemas formais distintos*.  A Lógica Clássica, por esse ponto de vista, é 
simplesmente uma exigência semântica, é a única maneira de uma coleção de 
símbolos possuir significado, não sendo assim uma questão meramente cultural, 
social ou axiomática.... Enquanto a humanidade utilizar uma linguagem que 
necessita de semântica, tal linguagem trará junto consigo as exigências Lógica 
Clássica.

Pode soar meio radical ou meio esquisito mas é mais ou menos isso mesmo!

Abraços,
Júlio César A. Custódio
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