Júlio
Não é nada disso o que falei. Penso que temos os critérios da lógica que 
chamamos de clássica (LC) por razões históricas e pela forma como interagimos 
com o mundo. Quem sabe se Heráclito tivesse vingado na nossa tradição e não 
Aristóteles, seríamos paraconsistentes desde o berço. 
Depois, há variadas concepções de lógica, inclusive uma que adentra o 
psicologismo, que muitos dizem que Frege e Husserl afastaram da lógica, o que é 
besteira. Basta ler Federigo Enriques, o que estou fazendo no momento e me 
deliciando, apesar de suas críticas.
Ah, antes de encerrar, os princípios da bivalência, da identidade, do terceiro 
excluído e da contradição são de fato alicerces da LC, mas os três últimos não 
constituem *os* princípios da LC, como se lê por aí. Com efeito, a LC (por 
exemplo, o cálculo proposicional) não pode ser fundamentado neles somente, e há 
muitos outros que só não são tão famosos historicamente, como os da dupla 
negação, explosão, redução ao absurdo, etc. 
Uma lógica é um constructo que elaboramos para dar conta de alguma coisa, 
expressar uma metafísica, dar conta de uma parcela de uma teoria, etc. Não há, 
para mim, sistema privilegiado, e a nossa LC está aí, vai muito bem, e vai 
continuar sendo importante por muito tempo, mas é algo meramente contingente. 
Se fossemos diferentes, poderia ser outra. Esta é a idéia.
Abraço
Décio



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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 12/12/2011, às 10:57, julio cesar <[email protected]> escreveu:

> Sem querer entrar na espinhosa questão (só que talvez seria necessário) de 
> uma definição mais elegante da expressão *lógica clássica*, mas apenas pra 
> uma interseção aqui na discussão, entendo por tal expressão principalmente as 
> filosofias e os sistemas de lógica que não violam - ou não procuram violar 
> (nem restringir) - os princípios de bivalência, não-contradição, identidade e 
> terceiro excluído. Com isso posto, é ainda possível imaginar que tal lógica 
> clássica possa ser considerada algo *culturalmente evolutiva*?
> 
> A Teoria Crítica de Frankfurt, principalmente Adorno (Dialética Negativa) - e 
> também a grande maioria da filosofia continental - atacam a lógica e 
> filosofia analítica por um viés parecido. Dizem eles que os lógicos 
> *hipostasiam* algo que é meramente cultural, que as regras e necessidades da 
> lógica (ou das lógicas) são apenas frutos de uma sociedade burocrática que 
> mesmo antes de ter indústrias de materiais de produção já possuía o seu 
> próprio esclarecimento industrializado - segundo Adorno, em Homero já se 
> encontra a *fórmula capitalista correta* (!) - Sendo assim, todo e qualquer 
> princípio ou regra lógica seriam apenas descrições de um modo comum de pensar 
> que foi puramente determinado por um momento (momentum?) social, de tal forma 
> que bastaríamos mudar as condições sociais que mudaríamos assim a própria 
> Lógica! No entanto, eu acho isso tudo no mínimo uma imensa ingenuidade.
> 
> Minha questão: sem a Lógica Clássica (*definida* no início) como é possível 
> inclusive diferenciar momentos distintos numa sociedade? Como é possível 
> identificar as *Lógicas não-Clássicas* e diferenciá-las das *Lógicas 
> Clássicas*? Ou seja, toda crítica ou restrição à Lógica Clássica necessita 
> dessa mesma lógica pra sequer fazer sentido. Você não consegue significar 
> nada que não caia nas exigências da Lógica Clássica! Falo isso pois, a meu 
> ver, a expressão "Lógica" não se identifica com a expressão "Sistema Formal". 
> Há Sistemas Formais não-Clássicos plenamente funcionais e significativos, mas 
> não vejo que exista por causa disso *Lógicas não-Clássicas*. 
> 
> Farei aqui uma rápida comparação com a Computação para tentar clarear ainda 
> mais essa questão: 
> 
> Os inúmeros sistemas lógicos são apenas manipulações de símbolos, 
> naturalmente, muitos deles de extrema utilidade. Considero os Sistemas 
> Formais da Lógica no mesmo patamar das Linguagens de Programação de Alto 
> Nível. Há inúmeras delas e sua quantidade é potencialmente infinita; basta 
> mudar uma sintaxe e eu crio uma nova Linguagem, um novo Sistema. Porém, da 
> mesma forma como as Linguagens de Alto Nível (como Java, C++, .NET, 
> Haskell...) dependem das mesmas regras embutidas lá no micro-processador e 
> por mais distintas e contraditórias-entre-si que sejam tais Linguagens serão 
> todas elas processadas por essas mesmas regras, assim, da mesma forma, todo 
> Sistema Formal, para sequer ter sentido, dependem das regras *embutidas* na 
> semântica da metalinguagem do próprio uso linguístico ao manusear tais 
> sistemas. Explico-me: no meu entender, ao se fazer filosofia, lógica, 
> ciência.... há sempre uma *primeira linguagem* que é simplesmente
> impossível de ser mencionada (eis o nosso *micro-processador*) nela é só 
> possível o uso, nunca a menção! Pois basta mencioná-la que ela deixa de ser a 
> primeira linguagem e passa a ser uma linguagem-objeto, sendo agora mencionada 
> pelo uso daquela sempre *primeira meta-linguagem*, que sempre se mantém ativa 
> em qualquer uso da linguagem humana.
> 
> Assim, a estrutura semântica dessa sempre primeira metalinguagem é uma Lógica 
> essencialmente Clássica, bivalente e consistente, sem qual nada faria 
> sentido, sem a qual não seria possível diferenciar nem *momentos sociais 
> distintos* nem *sistemas formais distintos*.  A Lógica Clássica, por esse 
> ponto de vista, é simplesmente uma exigência semântica, é a única maneira de 
> uma coleção de símbolos possuir significado, não sendo assim uma questão 
> meramente cultural, social ou axiomática.... Enquanto a humanidade utilizar 
> uma linguagem que necessita de semântica, tal linguagem trará junto consigo 
> as exigências Lógica Clássica.
> 
> Pode soar meio radical ou meio esquisito mas é mais ou menos isso mesmo!
> 
> Abraços,
> Júlio César A. Custódio
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