Manuel, Décio,

  de fato, eu consigo chegar no PE enquanto teorema com a LC. 

  Tirando isso, parece que temos algo que concordamos - não seria talvez melhor 
começar por aí? - Do meu ponto de vista, a LC é também uma consequência de 
nossos sistemas cognitivos (nisso estamos de acordo?) mas se for isso então não 
é nada cultural, e sim algo mais natural, certo? No entanto, nosso sistema 
cognitivo é mediado pela forma como nossa linguagem lida com os significados 
dos símbolos que utiliza (ao se remover cirurgicamente a parte do cérebro que 
lida com a linguagem, o indivíduo perde também quase toda capacidade cognitiva) 
isso mostra, pelo menos, uma estreita relação entre a linguagem e o 
entendimento das coisas. Logo, se concordamos que a LC é consequência do 
sistema cognitivo, e este por sua vez é em grande parte dependente da 
linguagem, a LC é então consequência dessas estruturas (não sociais ou 
culturais, mas semânticas) que conferem significados ao uso de nossa linguagem.

abraços,
júlio


________________________________
 De: Décio Krause <[email protected]>
Para: Manuel Doria <[email protected]> 
Cc: julio cesar <[email protected]>; "[email protected]" 
<[email protected]> 
Enviadas: Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011 14:48
Assunto: Re: [Logica-l] Logicas e Sistemas Formais
 

Manuel
O PNC pode implicar, junto com os demais axiomas, que p^~p -> q é teorema, 
nunca o que escreveu, que é algo metalinguístico. Quanto ao resto, concordo 
plenamente, exceto que diria que a lógica clássica *parece* ser mais intuitiva 
para nós *hoje*, mas talvez Brouwer não concordasse. Aliás, pensando bem, tenho 
também minhas dúvidas...
D

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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 15/12/2011, às 12:59, Manuel Doria <[email protected]> escreveu:


Minha opinião sobre quais fatores foram mais importantes para a sedimentação 
dos sistemas formais que chamamos podem ser agrupados como exemplos de "lógica 
clássica" varia de acordo com qual aspecto desta estamos discutindo.
>
>
>O princípio da explosão (PE) não se segue dedutivamente do PNC em conjunção 
>com os demais. O PE asserta que p^~p ⊨ β é um teorema.
>
>
>Graham Priest argumenta muito convincentemente que o PE foi sedimentado e 
>explicitado na Idade Média, não tem nem 1000 anos. Esse seria um bom exemplo 
>de um aspecto da "lógica clássica" determinado socio-historicamente e levado 
>adiante por inércia da tradição.
>
>
>Já para coisas mais basilares de sistemas formais como PNC, terceiro excluído, 
>propriedade de transitividade em teoria dos conjuntos ingênua eu tenho uma 
>abordagem neo-empirista, julgo que são consequência natural de como funcionam 
>nossos sistemas cognitivos. Muito da teoria dos conjuntos ingênua e das 
>álgebras e lógicas isomórficas a esta pode ser explicado como emergindo de 
>padrões sistemáticos de nossa experiência perceptual quando interagimos com 
>"contêineres", regiões enclausuradas no espaço - como nossos corpos, canecas, 
>vasos, bolsos, etc.
>
>
>A forma como representamos Diagramas de Venn não é acidental. Nestes aspectos, 
>a "lógica clássica" é em geral a mais intuitiva.
>
>
>Abraços.
>
>
>2011/12/15 julio cesar <[email protected]>
>
>Bom dia, Décio (e lista),
>>
>>antes de mais nada, eu acho muito importante essa discussão!
>>
>>Concordo que os quatro princípios (identidade, não-contradição, 
>>terceiro-excluído e bivalência) não são os únicos princípios da LC, 
>>principalmente se formos pensar nos Cálculos Clássicos. Eu digo que são 
>>essenciais apenas pq embora possamos ter mais *princípios*, não vejo como 
>>podemos ter menos (nem como realmente os restringir a esse nível). Porém, 
>>minha fala só tem sentido se se diferenciar *Lógica* de *Sistema Formal*, e 
>>essa é uma questão que, embora quase ninguém pareça se importar, pra mim está 
>>longe de ser algo trivial, tanto para identificá-los como para diferenciá-los 
>>(outra coisa, por exemplo, se formos pensar na equivalência dos conectivos de 
>>Sheffer, Quine ou Peirce com os operadores booleanos, a dupla negação e a 
>>explosão não seriam nem princípios, mas sim algo como teoremas, então 
>>bastaria encontrar os princípios que *gerariam* um desses conectivos e o 
>>resto viria por si, não?).
>>
>>Entretanto, uma confusão nisso tudo é o escopo da própria expressão 
>>*princípio lógico*, o que queremos dizer com isso? Eu não entendo tal 
>>expressão referenciando axiomas ou leis fundamentais de um Sistema Formal, 
>>mas sim alguma coisa antes disso. A meu ver, para algo merecer o título de 
>>*princípio lógico*, tal coisa deveria ser fundamental ao ponto de ser aquilo 
>>pelo qual é possível conferir significado aos próprios axiomas, para que não 
>>sejam eles meros rabiscos num papel. É justamente aqui minha questão: não 
>>importa quais os meus axiomas (ou seja, não importa qual o meu Sistema 
>>Formal) eu só consigo retirar um significado dali se eu assumir plenamente 
>>aqueles quatro princípios fundamentais. Como eu posso falar então em Lógicas 
>>distintas? Não são apenas Sistemas Formais distintos? (por isso minha 
>>comparação com arquitetura de computadores: há um mesmo processador  - um 
>>mesmo conjunto de instruções, de *princípios* - para
>> as mais distintas e incompatíveis linguagens de programação! Linguagens 
>>formais contraditórias ou distintas não exigem Lógicas contraditórias ou 
>>distintas.)
>>
>>Assim, não vejo como Heráclito conseguiria ter influenciado a tal ponto a 
>>cultura de forma que hoje seríamos paraconsistentes, pois é difícil perceber 
>>como isso seria uma questão diretamente cultural. Nesse ponto, a influência 
>>da cultura se resume na aquisição de uma linguagem com semântica e 
>>significado, nada mais. Logo, sermos Clássicos ou não-Clássicos 
>>(paraconsistentes, polivalentes...) se resume em utilizarmos uma linguagem 
>>com semântica ou não. Por isso eu disse que a semântica exige a LC, não sendo 
>>assim uma questão diretamente cultural.
>>
>>Alguém poderia dizer: *mas é justamente isso! será que se nós tivéssemos 
>>outra linguagem nós não seríamos paraconsistentes?*. Pra mim, a resposta é, 
>>*depende*. Se essa nova linguagem possuir semântica e significado, 
>>continuaríamos a ser clássicos! 
>>
>>Talvez a maior prova disso é que - pelo menos até onde sei - não é possível 
>>construir uma estrutura semântica totalmente independente daqueles quatro 
>>princípios! Sem qualquer um deles, a semântica simplesmente desaba. (veja 
>>bem, construir primeiramente através da LC e depois *entrar* e reconstruir 
>>com outros princípios, prova justamente o meu ponto! O processador ainda é o 
>>mesmo, essa *reconstrução* que você diz, a meu ver, é um nível acima, não 
>>abaixo, é Linguagem de Alto-Nível em cima de Linguagem de Alto-Nível - é 
>>pegar o C e criar o C++ - porém o sustentáculo básico ainda são as mesmas 
>>instruções de Baixo-Nível embutidas lá no processador)
>>
>>Abraços,
>>Júlio César A. Custódio
>>
>>De: Décio Krause <[email protected]>
>>Para: julio cesar <[email protected]> 
>>Cc: "[email protected]" <[email protected]> 
>>Enviadas: Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011 19:53
>>Assunto: Re: [Logica-l] por qual logica comecar? Computacao ajuda?
>>
>>Júlio
>>Não é nada disso o que falei. Penso que temos os critérios da lógica que 
>>chamamos de clássica (LC) por razões históricas e pela forma como interagimos 
>>com o mundo. Quem sabe se Heráclito tivesse vingado na nossa tradição e não 
>>Aristóteles, seríamos paraconsistentes desde o berço. 
>>Depois, há variadas concepções de lógica, inclusive uma que adentra o 
>>psicologismo, que muitos dizem que Frege e Husserl afastaram da lógica, o que 
>>é besteira. Basta ler Federigo Enriques, o que estou fazendo no momento e me 
>>deliciando, apesar de suas críticas.
>>Ah, antes de encerrar, os princípios da bivalência, da identidade, do 
>>terceiro excluído e da contradição são de fato alicerces da LC, mas os três 
>>últimos não constituem *os* princípios da LC, como se lê por aí. Com efeito, 
>>a LC (por exemplo, o cálculo proposicional) não pode ser fundamentado neles 
>>somente, e há muitos outros que só não são tão famosos historicamente, como 
>>os da dupla negação, explosão, redução ao absurdo, etc. 
>>Uma lógica é um constructo que elaboramos para dar conta de alguma coisa, 
>>expressar uma metafísica, dar conta de uma parcela de uma teoria, etc. Não 
>>há, para mim, sistema privilegiado, e a nossa LC está aí, vai muito bem, e 
>>vai continuar sendo importante por muito tempo, mas é algo meramente 
>>contingente. Se fossemos diferentes, poderia ser outra. Esta é a idéia.
>>Abraço
>>Décio
>>
>>
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