Bom dia, Décio (e lista),

antes de mais nada, eu acho muito importante essa discussão!

Concordo que os quatro princípios (identidade, não-contradição, 
terceiro-excluído e bivalência) não são os únicos princípios da LC, 
principalmente se formos pensar nos Cálculos Clássicos. Eu digo que são 
essenciais apenas pq embora possamos ter mais *princípios*, não vejo como 
podemos ter menos (nem como realmente os restringir a esse nível). Porém, minha 
fala só tem sentido se se diferenciar *Lógica* de *Sistema Formal*, e essa é 
uma questão que, embora quase ninguém pareça se importar, pra mim está longe de 
ser algo trivial, tanto para identificá-los como para diferenciá-los (outra 
coisa, por exemplo, se formos pensar na equivalência dos conectivos de Sheffer, 
Quine ou Peirce com os operadores booleanos, a dupla negação e a explosão não 
seriam nem princípios, mas sim algo como teoremas, então bastaria encontrar os 
princípios que *gerariam* um desses conectivos e o resto viria por si, não?).

Entretanto, uma confusão nisso tudo é o escopo da própria expressão *princípio 
lógico*, o que queremos dizer com isso? Eu não entendo tal expressão 
referenciando axiomas ou leis fundamentais de um Sistema Formal, mas sim alguma 
coisa antes disso. A meu ver, para algo merecer o título de *princípio lógico*, 
tal coisa deveria ser fundamental ao ponto de ser aquilo pelo qual é possível 
conferir significado aos próprios axiomas, para que não sejam eles meros 
rabiscos num papel. É justamente aqui minha questão: não importa quais os meus 
axiomas (ou seja, não importa qual o meu Sistema Formal) eu só consigo retirar 
um significado dali se eu assumir plenamente aqueles quatro princípios 
fundamentais. Como eu posso falar então em Lógicas distintas? Não são apenas 
Sistemas Formais distintos? (por isso minha comparação com arquitetura de 
computadores: há um mesmo processador  - um mesmo conjunto de instruções, de 
*princípios* - para
 as mais distintas e incompatíveis linguagens de programação! Linguagens 
formais contraditórias ou distintas não exigem Lógicas contraditórias ou 
distintas.)

Assim, não vejo como Heráclito conseguiria ter influenciado a tal ponto a 
cultura de forma que hoje seríamos paraconsistentes, pois é difícil perceber 
como isso seria uma questão diretamente cultural. Nesse ponto, a influência da 
cultura se resume na aquisição de uma linguagem com semântica e significado, 
nada mais. Logo, sermos Clássicos ou não-Clássicos (paraconsistentes, 
polivalentes...) se resume em utilizarmos uma linguagem com semântica ou não. 
Por isso eu disse que a semântica exige a LC, não sendo assim uma questão 
diretamente cultural.

Alguém poderia dizer: *mas é justamente isso! será que se nós tivéssemos outra 
linguagem nós não seríamos paraconsistentes?*. Pra mim, a resposta é, 
*depende*. Se essa nova linguagem possuir semântica e significado, 
continuaríamos a ser clássicos! 

Talvez a maior prova disso é que - pelo menos até onde sei - não é possível 
construir uma estrutura semântica totalmente independente daqueles quatro 
princípios! Sem qualquer um deles, a semântica simplesmente desaba. (veja bem, 
construir primeiramente através da LC e depois *entrar* e reconstruir com 
outros princípios, prova justamente o meu ponto! O processador ainda é o mesmo, 
essa *reconstrução* que você diz, a meu ver, é um nível acima, não abaixo, é 
Linguagem de Alto-Nível em cima de Linguagem de Alto-Nível - é pegar o C e 
criar o C++ - porém o sustentáculo básico ainda são as mesmas instruções de 
Baixo-Nível embutidas lá no processador)

Abraços,
Júlio César A. Custódio

De: Décio Krause <[email protected]>
Para: julio cesar <[email protected]> 
Cc: "[email protected]" <[email protected]> 
Enviadas: Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011 19:53
Assunto: Re: [Logica-l] por qual logica comecar? Computacao ajuda?

Júlio
Não é nada disso o que falei. Penso que temos os critérios da lógica que 
chamamos de clássica (LC) por razões históricas e pela forma como interagimos 
com o mundo. Quem sabe se Heráclito tivesse vingado na nossa tradição e não 
Aristóteles, seríamos paraconsistentes desde o berço. 
Depois, há variadas concepções de lógica, inclusive uma que adentra o 
psicologismo, que muitos dizem que Frege e Husserl afastaram da lógica, o que é 
besteira. Basta ler Federigo Enriques, o que estou fazendo no momento e me 
deliciando, apesar de suas críticas.
Ah, antes de encerrar, os princípios da bivalência, da identidade, do terceiro 
excluído e da contradição são de fato alicerces da LC, mas os três últimos não 
constituem *os* princípios da LC, como se lê por aí. Com efeito, a LC (por 
exemplo, o cálculo proposicional) não pode ser fundamentado neles somente, e há 
muitos outros que só não são tão famosos historicamente, como os da dupla 
negação, explosão, redução ao absurdo, etc. 
Uma lógica é um constructo que elaboramos para dar conta de alguma coisa, 
expressar uma metafísica, dar conta de uma parcela de uma teoria, etc. Não há, 
para mim, sistema privilegiado, e a nossa LC está aí, vai muito bem, e vai 
continuar sendo importante por muito tempo, mas é algo meramente contingente. 
Se fossemos diferentes, poderia ser outra. Esta é a idéia.
Abraço
Décio



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Décio Krause
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