Olá, Décio,

(vou começar as respostas por outra ordem pois acho que fica mais claro o que 
estou tentando dizer. Infelizmente, ficou meio grande...)

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>>(por isso minha comparação com arquitetura de computadores: há um mesmo 
>>processador  - um mesmo conjunto de instruções, de *princípios* - para

>>as mais distintas e incompatíveis linguagens de programação! Linguagens 
>>formais contraditórias ou distintas não exigem Lógicas contraditórias 
>>distintas.)
     
    >Analogias deste tipo você pode fazer com praticamente qualquer coisa e não 
significam nada objetivamente, a não ser para você mesmo. 


Mas essa analogia não é meramente circunstancial, de forma alguma!

Concordamos que um papel cheio de rabiscos não pensa por si, é necessário algum 
tipo de estrutura que confira significados e uso àquilo tudo, certo?
*Conferir significados* é basicamente uma questão de seguir instruções e 
computar informações. Um outro lado disso é: quanto mais a Neurociência avança, 
mas fica-se claro que o cérebro também não passa de uma imensa e complexa 
máquina de computação (a crítica de Searle contra isso é completamente 
deslocada, o cérebro não é um computador *digital*, mas isso não significa que 
ele não seja um *computador*, e a cada dia a Neurociência confirma mais um 
pouquinho disso).

Logo, ao entrarmos em contato com um papel cheio de rabiscos (ou uma porção de 
sons), é necessário algo que identifique que alguns rabiscos ou sons são na 
verdade símbolos e que possuem tais e tais significados; eis a linguagem. Ou 
melhor, sua estrutura semântica interna.

A minha questão é: você consegue me apresentar alguma linguagem - ou sistema, 
estrutura... - que identifique quais rabiscos ou sons são símbolos e também 
qual o significado de cada símbolo, sem depender da Identidade, da 
não-Contradição, do Terceiro-Excluído e da Bivalência?

O que essa analogia com a Computação significa de objetivo é o fato de que é 
plenamente possível (pois qualquer Computador Pessoal já o faz; q.e.d) 
construir Sistemas Formais distintos e até excludentes-entre-si mas todos 
dependendo das mesmas instruções básicas e sendo computados por essas mesmas 
instruções. Não creio que isso seja uma informação irrelevante nessa discussão, 
pois é justamente o ponto: Sistemas Formais distintos não exigem princípios 
lógicos distintos, e da mesma forma, Sistemas Formais não-Clássicos não exigem 
Lógicas não-Clássicas. 


Sendo assim, ainda que fosse possível uma linguagem significativa que não 
dependa dos princípios clássicos, pela navalha de Occam, pra quê postular 
Lógicas não-Clássicas se não há necessidade nenhuma delas? (lembrando que na 
minha fala, o que está sendo cortado com a navalha não são os Sistemas Formais 
não-Clássicos, mas apenas o passo depois desse, de que tais sistemas são 
*Lógicas não-Clássicas* e que utilizam outros princípios básicos.)

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         >Talvez possamos definir sistema formal do seguinte modo, como alguns 
fazem: trata-se de um conjunto de objetos que chamamos fórmulas, um
         > subconjunto deste que chamamos de conjunto dos axiomas e um conjunto 
de relações entre conjunto de fórmulas e fórmulas, as regras de inferência.
         >Axiomas específicos determinam o sistema particular, ou a lógica 
particular. Neste sentido  não haveria a distinção pela qual você clama.

Mas veja essa definição:


*the syntax of a language describes the possible combinations of symbols that 
form a syntactically correct program. The meaning given to a combination of 
symbols is handled by semantics [..] The formal semantics of a language is 
given by a mathematical model that describes the possible computations 
described by the language.*  
(tirei da wiki no verbete *programming language*)

Perceba como não é mera analogia a semelhança entre o que se entende por 
*Linguagens de Programação* e o que se entende por *Sistemas Formais* (tanto é 
que, historicamente, a primeira veio em consequência da segunda!). No entanto, 
ao se concordar com isso, deve se concordar com outra coisa: as Linguagens de 
Programação não conseguem funcionar por si só, elas precisam de outras 
instruções que não se encontram nelas (no caso, se encontram no 
micro-processador, há instruções lógicas básicas lá) e, sendo assim, os 
Sistemas Formais por si só não determinam a *lógica* particular, eles também 
dependem de outras instruções, senão são apenas rabiscos e sons sem uso ou 
significado. Um teste: tente dar uma definição de Sistemas Formais que exclua 
de seu escopo as Linguagens de Programação, ou vice-versa (não vale excluir 
explicitamente!) Se não conseguir, não sei como escapar do fato de que um 
Sistema Formal não determina sua
 própria Lógica, pois um Sistema Formal não é, por assim dizer, 
auto-suficiente. É nesse sentido que vejo a distinção.

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>>Entretanto, uma confusão nisso tudo é o escopo da própria expressão 
>>*princípio lógico*, o que queremos dizer com isso?
       
       >Postulados ou teoremas considerados de grande relevância formal ou 
semântica (em algum sentido do termo).

Por isso eu disse que é uma confusão! Toda conclusão logicamente válida pode 
então ser um princípio? Postulados e teoremas não são entidades distintas 
demais uma da outra pra considerar tudo como *princípios*?


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>>É justamente aqui minha questão: não importa quais os meus axiomas (ou seja, 
>>não importa qual o meu Sistema Formal) eu só consigo retirar um significado
>>dali se eu assumir plenamente aqueles quatro princípios fundamentais.

      >De onde tirou isso? Pergunte ao Priest se ele concorda.

Tirei isso analisando como um computador executa os mais distintos Sistemas 
Formais. Sei que o Priest não concorda, mas se ele perguntasse pro próprio 
celular ou pro forno micro-ondas da casa dele, ambos o fariam coçar a cabeça. 
Mas se fosse então perguntar para a arquitetura de um servidor IBM de última 
geração provavelmente ele entraria em loop.

(novamente, não é estranho que um mesmo conjunto de instruções execute com a 
mesma eficiência um calculo proposicional clássico e um paraconsistente? Até 
que ponto há uma lógica distinta aí?)

  

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        >Mas coloco outra questão: como você trata semanticamente, por exemplo, 
ZF? Como justifica o uso dos quantificadores na lógica usual sem usar
       > ZF, que os pressupõe? ZF pode ser vista como uma teoria de primeira 
ordem. Onde faz a sua semântica? Em ZF? O que são seus modelos? São
       > conjuntos? Pode usar a  verdade de Tarski aqui? 

       >[..] Veja a semântica para uma lógica de Schrödinger intensional dada 
na teoria de quase-conjuntos em um artigo meu com o Prof. Newton. 



Não sei se ficou claro que minhas questões dizem respeito à metalinguagem 
(aquela sempre-primeira que nunca se menciona, apenas se usa). Sendo assim, a 
estrutura semântica de ZF  pode até ser vista como primeira-ordem, mas não 
consegue não ser uma linguagem-objeto (a semântica na teoria de quase-conjuntos 
também não!) e é aí que está o problema. Não é dessa estrutura semântica que 
estou falando, mas sim da estrutura semântica da metalinguagem com a qual você 
constrói a estrutura semântica de ZF ou quase-Conjuntos. Eu não sei se 
poderíamos dizer que tal estrutura metalinguística é feita por Modelos ou 
Conjuntos, eu apostaria mais em Máquinas de Turing dispostas em Redes Neurais!

E sim, acredito que pode se usar e abusar da verdade de Tarski aqui pois na 
Computação a verdade de cada expressão depende de uma linguagem de um nível 
mais baixo. Toda linguagem ali é também uma linguagem-objeto, e vai descendo 
assim até chegar nas instruções do processador e no complexo do hardware, onde 
tudo é Máquina de Turing. Tirando as instruções de baixíssimo nível no 
hardware, todas essas linguagens na computação se comunicam entre si através de 
estruturas semânticas (essas sim modelos matemáticos). Só para você ligar o 
notebook e aparecer o botão *Iniciar* na tela do seu computador, literalmente 
milhões de computações foram feitas e houve uma intensa troca de informação, 
verificação e confirmação entre umas dez ou mais linguagens distintas!



Obs.: Especulando ainda mais, o que eu acho que realmente seria importante para 
a Lógica é conseguirmos um Formalismo da *Lógica Neural*, onde todos os outros 
Sistemas Formais seriam apenas teoremas desse. Não seria um trabalho fácil, de 
fato.


Abraços,
Júlio César A. Custódio
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