Júlio 
Veja entremeio o seu texto, por favor.
Abraço
Décio

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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 16/12/2011, às 14:04, julio cesar <[email protected]> escreveu:

> Olá, Décio,
> 
> (vou começar as respostas por outra ordem pois acho que fica mais claro o que 
> estou tentando dizer. Infelizmente, ficou meio grande...)
> 
> --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
> >>(por isso minha comparação com arquitetura de computadores: há um mesmo 
> >>processador  - um mesmo conjunto de instruções, de *princípios* - para
> >>as mais distintas e incompatíveis linguagens de programação! Linguagens 
> >>formais contraditórias ou distintas não exigem Lógicas contraditórias 
> >>distintas.)
>      
>     >Analogias deste tipo você pode fazer com praticamente qualquer coisa e 
> não significam nada objetivamente, a não ser para você mesmo. 
> 
> Mas essa analogia não é meramente circunstancial, de forma alguma!
> 
> Concordamos que um papel cheio de rabiscos não pensa por si, é necessário 
> algum tipo de estrutura que confira significados e uso àquilo tudo, certo?
> *Conferir significados* é basicamente uma questão de seguir instruções e 
> computar informações. Um outro lado disso é: quanto mais a Neurociência 
> avança, mas fica-se claro que o cérebro também não passa de uma imensa e 
> complexa máquina de computação (a crítica de Searle contra isso é 
> completamente deslocada, o cérebro não é um computador *digital*, mas isso 
> não significa que ele não seja um *computador*, e a cada dia a Neurociência 
> confirma mais um pouquinho disso).

Creio que isso corrobora o que venho dizendo, que a lógica tem um *algo* 
empírico, e que o avanço da neurociência poderá mostrar o seu caráter 
contingente. 

> 
> Logo, ao entrarmos em contato com um papel cheio de rabiscos (ou uma porção 
> de sons), é necessário algo que identifique que alguns rabiscos ou sons são 
> na verdade símbolos e que possuem tais e tais significados; eis a linguagem. 
> Ou melhor, sua estrutura semântica interna.

Isso mesmo, agimos "algo construtivamente" no início. Veja a dificuldade que 
há, em filosofia da matemática, para se aceitar teoremas provados com o recurso 
de computadores ou que tenham provas extremamente longas, como o da 
classificação dos grupos simples. Mas eu acho que você não distingue no seu 
texto entre sintaxe e semântica...

> 
> A minha questão é: você consegue me apresentar alguma linguagem - ou sistema, 
> estrutura... - que identifique quais rabiscos ou sons são símbolos e também 
> qual o significado de cada símbolo, sem depender da Identidade, da 
> não-Contradição, do Terceiro-Excluído e da Bivalência?

O problema não é se eu consigo ou não, mas da necessidade de contarmos com 
esses princípios....

> 
> O que essa analogia com a Computação significa de objetivo é o fato de que é 
> plenamente possível (pois qualquer Computador Pessoal já o faz; q.e.d) 
> construir Sistemas Formais distintos e até excludentes-entre-si mas todos 
> dependendo das mesmas instruções básicas e sendo computados por essas mesmas 
> instruções. Não creio que isso seja uma informação irrelevante nessa 
> discussão, pois é justamente o ponto: Sistemas Formais distintos não exigem 
> princípios lógicos distintos, e da mesma forma, Sistemas Formais 
> não-Clássicos não exigem Lógicas não-Clássicas. 

O que chama de sistemas formais distintos? Se mudarmos a linguagem e a 
axiomática, mas preservamos os mesmos teoremas, temos sistemas distintos?

> 
> Sendo assim, ainda que fosse possível uma linguagem significativa que não 
> dependa dos princípios clássicos, pela navalha de Occam, pra quê postular 
> Lógicas não-Clássicas se não há necessidade nenhuma delas? (lembrando que na 
> minha fala, o que está sendo cortado com a navalha não são os Sistemas 
> Formais não-Clássicos, mas apenas o passo depois desse, de que tais sistemas 
> são *Lógicas não-Clássicas* e que utilizam outros princípios básicos.)

Esta sua pergunta é realmente importante. Creio que não sabemos a resposta. A 
física quântica, por exemplo, passa muito bem com a lógica e a matemática 
clássicas. Aliás, creio que a grande parte dos físicos nem entenderia o que 
seria uma mudança numa e/ou na outra, e faria a mesma pergunta: para quê? Mas a 
questão, por enquanto, pelo menos para mim, é de natureza filosófica. Apesar de 
Birkhofff e von Neumann, e muitos depois deles, como Reichenbach, até o momento 
não se demonstrou a necessidade de uma lógica não clássica (vou levar porrada). 
Mesmo as aplicações interessantes das lógicas paraconsistentes anotadas feitas 
recentemente pela japonezada pode, me parece, ser feita com a matemática fuzzy. 
Eles acharam um outro modo, OK, mas não me parece terem provado a necessidade 
dessas lógicas em tais aplicações. O que acham? Mas concordo com você.

> 
> --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
>          >Talvez possamos definir sistema formal do seguinte modo, como 
> alguns fazem: trata-se de um conjunto de objetos que chamamos fórmulas, um
>          > subconjunto deste que chamamos de conjunto dos axiomas e um 
> conjunto de relações entre conjunto de fórmulas e fórmulas, as regras de 
> inferência.
>          >Axiomas específicos determinam o sistema particular, ou a lógica 
> particular. Neste sentido  não haveria a distinção pela qual você clama.
> 
> Mas veja essa definição:
> 
> *the syntax of a language describes the possible combinations of symbols that 
> form a syntactically correct program. The meaning given to a combination of 
> symbols is handled by semantics [..] The formal semantics of a language is 
> given by a mathematical model that describes the possible computations 
> described by the language.*  
> (tirei da wiki no verbete *programming language*)

Isso não diz o que é um sistema formal. E, de novo, mistura sintaxe com 
semântica. 

> 
> Perceba como não é mera analogia a semelhança entre o que se entende por 
> *Linguagens de Programação* e o que se entende por *Sistemas Formais* (tanto 
> é que, historicamente, a primeira veio em consequência da segunda!).

Sim, creio que os programas de computador se aproximam bastante do que chamamos 
e sistemas formais, se fizermos as devidas qualificações.

> No entanto, ao se concordar com isso, deve se concordar com outra coisa: as 
> Linguagens de Programação não conseguem funcionar por si só, elas precisam de 
> outras instruções que não se encontram nelas (no caso, se encontram no 
> micro-processador, há instruções lógicas básicas lá) e, sendo assim, os 
> Sistemas Formais por si só  não determinam a *lógica* particular,

Não concordo. Aí me parece que você mistura linguagem de programação com 
sistema formal, e isso não pode ser feito sem o devido cuidado. Um sistema 
formal tem que dizer que axiomas usa, logo, que lógica ele define. Em um 
programa, as instruções funcionam como axiomas? 

> eles também dependem de outras instruções, senão são apenas rabiscos e sons 
> sem uso ou significado.

Olha aí de novo: rabiscos (sintaxe) e significado (semântica). 

> Um teste: tente dar uma definição de Sistemas Formais que exclua de seu 
> escopo as Linguagens de Programação, ou vice-versa (não vale excluir 
> explicitamente!) Se não conseguir, não sei como escapar do fato de que um 
> Sistema Formal não determina sua própria Lógica, pois um Sistema Formal não 
> é, por assim dizer, auto-suficiente. É nesse sentido que vejo a distinção.

Não entendo. O que é um sistema formal para você? Não faça citações, apenas 
defina.

> 
> --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
> >>Entretanto, uma confusão nisso tudo é o escopo da própria expressão 
> >>*princípio lógico*, o que queremos dizer com isso?
>        
>        >Postulados ou teoremas considerados de grande relevância formal ou 
> semântica (em algum sentido do termo).
> 
> Por isso eu disse que é uma confusão! Toda conclusão logicamente válida pode 
> então ser um princípio? Postulados e teoremas não são entidades distintas 
> demais uma da outra pra considerar tudo como *princípios*?

Sim, pode. Os teoremas de uma lógica são seus "princípios". O que são 
postulados e o que são teoremas depende do modo como se axiomatiza a teoria... 
Por exemplo, axiomatize  a aritmética  usual colocando como axiomas todas as 
sentenças verdadeiras no modelo standard. 

> 
> 
> --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
> >>É justamente aqui minha questão: não importa quais os meus axiomas (ou 
> >>seja, não importa qual o meu Sistema Formal) eu só consigo retirar um 
> >>significado
> >>dali se eu assumir plenamente aqueles quatro princípios fundamentais.
> 
>       >De onde tirou isso? Pergunte ao Priest se ele concorda.
> 
> Tirei isso analisando como um computador executa os mais distintos Sistemas 
> Formais. Sei que o Priest não concorda, mas se ele perguntasse pro próprio 
> celular ou pro forno micro-ondas da casa dele, ambos o fariam coçar a cabeça. 
> Mas se fosse então perguntar para a arquitetura de um servidor IBM de última 
> geração provavelmente ele entraria em loop.

Bom, vamos perguntar ao Priest. Gostaria de ver sua resposta...quando pedi a 
ele para me dar um exemplo de uma contradição "real" ele se saiu com o paradoxo 
do mentiroso...ou com as escadas do Herch. Eu só consigo entender o que é uma 
contradição dentro de um sistema formal, pois preciso, para começar, saber o 
que significa a negação. A rigor, se não me der os axiomas que regem as noções 
que utiliza, não entendo do que está falando. 

> 
> (novamente, não é estranho que um mesmo conjunto de instruções execute com a 
> mesma eficiência um calculo proposicional clássico e um paraconsistente? Até 
> que ponto há uma lógica distinta aí?)

Deixo os computeiros responderem isso, pois cansei.

Abraço
D.


> 
>   
> 
> --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
>         >Mas coloco outra questão: como você trata semanticamente, por 
> exemplo, ZF? Como justifica o uso dos quantificadores na lógica usual sem usar
>        > ZF, que os pressupõe? ZF pode ser vista como uma teoria de primeira 
> ordem. Onde faz a sua semântica? Em ZF? O que são seus modelos? São
>        > conjuntos? Pode usar a  verdade de Tarski aqui? 
> 
>        >[..] Veja a semântica para uma lógica de Schrödinger intensional dada 
> na teoria de quase-conjuntos em um artigo meu com o Prof. Newton. 
> 
> 
> Não sei se ficou claro que minhas questões dizem respeito à metalinguagem 
> (aquela sempre-primeira que nunca se menciona, apenas se usa). Sendo assim, a 
> estrutura semântica de ZF  pode até ser vista como primeira-ordem, mas não 
> consegue não ser uma linguagem-objeto (a semântica na teoria de 
> quase-conjuntos também não!) e é aí que está o problema. Não é dessa 
> estrutura semântica que estou falando, mas sim da estrutura semântica da 
> metalinguagem com a qual você constrói a estrutura semântica de ZF ou 
> quase-Conjuntos. Eu não sei se poderíamos dizer que tal estrutura 
> metalinguística é feita por Modelos ou Conjuntos, eu apostaria mais em 
> Máquinas de Turing dispostas em Redes Neurais!
> 
> E sim, acredito que pode se usar e abusar da verdade de Tarski aqui pois na 
> Computação a verdade de cada expressão depende de uma linguagem de um nível 
> mais baixo. Toda linguagem ali é também uma linguagem-objeto, e vai descendo 
> assim até chegar nas instruções do processador e no complexo do hardware, 
> onde tudo é Máquina de Turing. Tirando as instruções de baixíssimo nível no 
> hardware, todas essas linguagens na computação se comunicam entre si através 
> de estruturas semânticas (essas sim modelos matemáticos). Só para você ligar 
> o notebook e aparecer o botão *Iniciar* na tela do seu computador, 
> literalmente milhões de computações foram feitas e houve uma intensa troca de 
> informação, verificação e confirmação entre umas dez ou mais linguagens 
> distintas!
> 
> 
> Obs.: Especulando ainda mais, o que eu acho que realmente seria importante 
> para a Lógica é conseguirmos um Formalismo da *Lógica Neural*, onde todos os 
> outros Sistemas Formais seriam apenas teoremas desse. Não seria um trabalho 
> fácil, de fato.
> 
> 
> Abraços,
> Júlio César A. Custódio
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