De pleno acordo. Bourbaki é mesmo difícil. 
Abraço
D


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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 28/01/2013, às 14:41, Rodrigo Freire <[email protected]> escreveu:

> Oi Decio,
> 
> 
> É, o par ordenado como primitivo era denotado pelo C ao contrário que eu 
> mencionei. Na minha versão inglesa ainda tem esse C. 
> 
> Realmente, os sistemas que Bourbaki adota, principalmente aquele com o C ao 
> contrário, são realmente péssimos para se fazer semântica. A metamatemática 
> deles é finitária, no sentido do Hilbert, não apenas construtiva em um 
> sentido intuicionista. Não há quase nada que chamaríamos "semântica" na parte 
> de lógica/teoria de conjuntos do Bourbaki. 
> 
> Eu disse que não há quase nada que chamaríamos semântica, porque sei de um 
> exemplo no texto de resultado que normalmente chamamos semântico: trata-se do 
> *teorema das tautologias* (Post) que diz que toda tautologia é teorema do 
> cálculo proposicional e todo teorema do cálculo proposicional é tautologia. 
> Contudo, o teorema das tautologias, infelizmente, está nos exercícios: é o 
> exercício 7 do apêndice do capítulo 1 (tanto na edição inglesa quanto na 
> francesa que tenho aqui). O exercício seguinte também é semântico. Acho que é 
> só. Para fazer semântica mais avançada que isso, ainda que finitária, é 
> preciso considerar formulações melhores para a lógica. 
> 
> 
> Eu disse que *normalmente* chamamos semântico o teorema das tautologias 
> porque isso também não é sem controvérsias:
> 
> "The decision procedure for validity is based on a syntactical notion, the 
> notion of a tautology."
> Chang & Keisler, Model Theory, página 7, último parágrafo.
> 
> 
> Com relação ao axioma da escolha, a utilização do símbolo \tau por si só não 
> atrapalharia. O problema é que Bourbaki deixa esse operador ocorrer 
> livremente no axioma da substituição. Aí o sistema prova o axioma da escolha, 
> trivialmente. Isso faz com que qualquer investigação semântica que procure 
> isolar o axioma da escolha torna-se impossível nesse sistema. 
> 
> Abraço
> Rodrigo
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> 2013/1/28 Decio Krause <[email protected]>
>> Legal, Rodrigo. Informações precisas. Acrescento mais umas.
>> Sim, você está certo quanto ao quadradinho. Na primeira edição, o par 
>> ordenado era primitivo, o que não ocorre nas edições posteriores, inclusive 
>> na versão inglesa de 1968. Para ele, fazer matemática significa escrever 
>> símbolos no papel de acordo com certas regras que ele delineia no livro. 
>> Assim, ainda que sua matemática possa ser chamada de "clássica" (há algo 
>> mais "clássico" que Bourbaki?), sua metamatemática é construtiva, pois um 
>> problema pode não ter sido provado ser verdadeiro e nem falso porque ainda 
>> não se escreveu símbolos em quantidade suficiente para saber se ele é um 
>> teorema ou não. Mas vale o 3o excluído: ele é ou verdadeiro (teorema) ou 
>> não. "Verdade" aqui significa "prova". Não há semântica em sentido usual. 
>> Quanto ao axioma da escolha, ele usou o epsilon de Hilbert como símbolo 
>> primitivo, que denota por um \tau. Com isso, o AE é teorema. Eu procurei 
>> saber porque fez isso. Acho que ele(s) acreditava piamente que um dia o AE 
>> seria demonstrado, e assim estaria se adiantando bastante. Caiu do cavalo. 
>> Abraço
>> D
>> 
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>> Décio Krause
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>> Universidade Federal de Santa Catarina
>> 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
>> deciokrause[at]gmail.com
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>> Em 28/01/2013, às 13:16, Rodrigo Freire escreveu:
>> 
>>> O quadradinho do Bourbaki cumpre o papel de *lugar de variável ligada*. É 
>>> preciso o link de desambiguação para ligar o quadradinho ao operador tau 
>>> correspondente. Os links não estão oficialmente entre os símbolos da 
>>> linguagem, mas ocorrem na formação de expressões. O operador tau é um 
>>> "variable binding operator" que escolhe um indivíduo satisfazendo uma 
>>> "relação", se um tal indivíduo existir. No sistema de Bourbaki, há um 
>>> axioma (padrão para esse tipo de operador) que diz que "relações 
>>> equivalentes produzem o mesmo indivúduo pela aplicação de tau". É um 
>>> resultado clássico a conservatividade desse sistema sobre a lógica de 
>>> primeira ordem.
>>> 
>>> A formulação da linguagem formal de Bourbaki difere em edições diferentes 
>>> do livro. Tenho aqui uma edição em lingua francesa da Springer e uma edição 
>>> em língua inglesa também da Springer.  Na edição em inglês, há um símbolo 
>>> impossível de reporduzir, um C ao contrário, cuja interpretação pretendida 
>>> é a operação de formação de pares ordenados (talvez o C ao contrário tenha 
>>> algo a ver com couples = pares). Na edição em francês, esse símbolo não 
>>> existe. Acho que, cronologicamente, primeiro eles adotaram o C ao contrário 
>>> para formar pares, depois desistiram.
>>> 
>>> Já vi em algum lugar que a arbitrariedade da definição de par ordenado de 
>>> Wiener-Kuratowski causou repulsa em Andre Weil, e esse seria o motivo da 
>>> introdução do C ao contrário.
>>> 
>>> Essas escolhas não são sem importância para a semântica. Esses simbolos que 
>>> geram conjuntos como o C ao contrário e o tau criam problemas. Por exemplo, 
>>> como não há controle do rank na geração de conjuntos a partir do tau e do C 
>>> ao contrário, não há como garantir que V_k, com k um cardinal fortemente 
>>> inacessível, seja modelo da teoria. De um modo geral, reflexão se torna 
>>> problemática com essa formulação.
>>> 
>>> Além disso, no sistema de Bourbaki, o tau pode ocorrer nas instâncias do 
>>> axioma da substituição (que no caso do Bourbaki é um axioma que funde 
>>> substituição e união. O Shoenfield usou a mesma formulação que o Bourbaki 
>>> desse axioma em seu livro de lógica.) Com isso, Bourbaki não precisa 
>>> postular o axioma da escolha, ele passa a ser um teorema. Claro que muitas 
>>> investigações fundacionais que procuram isolar o papel do axioma da escolha 
>>> não podem ser conduzidas em um sistema como o do Bourbaki.
>>> 
>>> Os capítulos finais da teoria de conjuntos são melhores. No capítulo de 
>>> estruturas tem uma formulação (que seria considerada um pouco desajeitada 
>>> do ponto de vista de categorias) do teorema do funtor adjunto. Bourbaki 
>>> chama isso de "existência de aplicações universais", seção 3.2 do capítulo 
>>> 4 do livro de teoria de conjuntos (Claro que Bourbaki só considera funtores 
>>> representáveis. Além disso, não há em Bourbaki a definição atual de 
>>> adjunção)
>>> 
>>> Na minha edição francesa aqui, Bourbaki usa a palavra "ensemble" 
>>> frequentemente. Na edição inglesa ele também usa "set" com frequência. Acho 
>>> que só no primeiro capitulo ele não usa a palavra "conjunto". Mas isso é 
>>> compreensível porque o primeiro capítulo é de "lógica". Do segundo capítulo 
>>> para frente, acho que é um bom livro de teoria de conjuntos básica. 
>>> 
>>> O primeiro capítulo de lógica do Bourbaki acho que é muito desajeitado. 
>>> Nesse capítulo não há desenvolvimento sistemático de algo que chamaríamos 
>>> "semântica". É uma escolha um tanto infeliz, eu acho.
>>> 
>>> 
>>> Abraço
>>> Rodrigo
> 
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