O quadradinho do Bourbaki cumpre o papel de *lugar de variável ligada*. É
preciso o link de desambiguação para ligar o quadradinho ao operador tau
correspondente. Os links não estão oficialmente entre os símbolos da
linguagem, mas ocorrem na formação de expressões. O operador tau é um
"variable binding operator" que escolhe um indivíduo satisfazendo uma
"relação", se um tal indivíduo existir. No sistema de Bourbaki, há um
axioma (padrão para esse tipo de operador) que diz que "relações
equivalentes produzem o mesmo indivúduo pela aplicação de tau". É um
resultado clássico a conservatividade desse sistema sobre a lógica de
primeira ordem.

A formulação da linguagem formal de Bourbaki difere em edições diferentes
do livro. Tenho aqui uma edição em lingua francesa da Springer e uma edição
em língua inglesa também da Springer.  Na edição em inglês, há um símbolo
impossível de reporduzir, um C ao contrário, cuja interpretação pretendida
é a operação de formação de pares ordenados (talvez o C ao contrário tenha
algo a ver com couples = pares). Na edição em francês, esse símbolo não
existe. Acho que, cronologicamente, primeiro eles adotaram o C ao contrário
para formar pares, depois desistiram.

Já vi em algum lugar que a arbitrariedade da definição de par ordenado de
Wiener-Kuratowski causou repulsa em Andre Weil, e esse seria o motivo da
introdução do C ao contrário.

Essas escolhas não são sem importância para a semântica. Esses simbolos que
geram conjuntos como o C ao contrário e o tau criam problemas. Por exemplo,
como não há controle do rank na geração de conjuntos a partir do tau e do C
ao contrário, não há como garantir que V_k, com k um cardinal fortemente
inacessível, seja modelo da teoria. De um modo geral, reflexão se torna
problemática com essa formulação.

Além disso, no sistema de Bourbaki, o tau pode ocorrer nas instâncias do
axioma da substituição (que no caso do Bourbaki é um axioma que funde
substituição e união. O Shoenfield usou a mesma formulação que o Bourbaki
desse axioma em seu livro de lógica.) Com isso, Bourbaki não precisa
postular o axioma da escolha, ele passa a ser um teorema. Claro que muitas
investigações fundacionais que procuram isolar o papel do axioma da escolha
não podem ser conduzidas em um sistema como o do Bourbaki.

Os capítulos finais da teoria de conjuntos são melhores. No capítulo de
estruturas tem uma formulação (que seria considerada um pouco desajeitada
do ponto de vista de categorias) do teorema do funtor adjunto. Bourbaki
chama isso de "existência de aplicações universais", seção 3.2 do capítulo
4 do livro de teoria de conjuntos (Claro que Bourbaki só considera funtores
representáveis. Além disso, não há em Bourbaki a definição atual de
adjunção)

Na minha edição francesa aqui, Bourbaki usa a palavra "ensemble"
frequentemente. Na edição inglesa ele também usa "set" com frequência. Acho
que só no primeiro capitulo ele não usa a palavra "conjunto". Mas isso é
compreensível porque o primeiro capítulo é de "lógica". Do segundo capítulo
para frente, acho que é um bom livro de teoria de conjuntos básica.

O primeiro capítulo de lógica do Bourbaki acho que é muito desajeitado.
Nesse capítulo não há desenvolvimento sistemático de algo que chamaríamos
"semântica". É uma escolha um tanto infeliz, eu acho.


Abraço
Rodrigo
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