Plenamente, Marcelo. Eu dei aulas de matemática no ensino elementar antes de 
entrar para a UFPR, e tido começava com conjuntos. Era o programa. Os alunos 
não entendiam nada. Unicidade do vazio? Loucura. Provar que todo conjunto é 
sub-conjunto de si mesmo? Para quê? Melhor seria mesmo começar atacando 
problemas, tentando equacioná-los. Os detalhes de porque isso dá certo vêm 
depois. O gozado é que quando estudei cálculo na faculdade, faziam bem isso (na 
engenharia principalmente):  problemas para resolver...mas aí o exagero era 
outro. Limite do somatório do produtório de um monte de coisas, levantar 
inderminações sem usar derivadas, calcular limites no braço, por epsilons e 
deltas, fazer listas e mais listas de integrais indefinidas, de limites, 
calcular derivadas n-ésimas, etc. A gente ia no edital contar palmos de 
zeros...ninguém entendia nada também. Fazia mas não sabia o que estava fazendo. 
O ensino em geral é ruim e o da matemática é ainda uma calamidade.
Mas isso ainda vai piorar, quem viver verá. 
Abraço
Décio




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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 27/01/2013, às 16:25, Marcelo Finger <[email protected]> escreveu:

> Oi Décio.
> 
> Sim, concordo que é sim possível, e inclusive desejável, desenvolver uma 
> teoria abstrata de conjuntos sem se referir a nenhum outro elemento externo.  
> 
> O que eu disse é que não é razoável ENSINAR esta teoria diretamente neste 
> contexto.  Acho que sobre isso concordamos, não?
> 
> []s
> 
> Marcelo
> 
> 
> 
> 2013/1/27 Décio Krause <[email protected]>
>> Marcelo
>> De pleno acordo quanto ao ensino. Acho também que as abstrações devem ser 
>> deixadas para mais tarde, pois exigem maturidade. Já pensou usar o livro do 
>> Bourbaki na sala se aula em um primeiro ano? Este é um típico exemplo. 
>> Várias pessoas já me perguntaram o que significa o quadradinho que ele usa...
>> Este foi um dos problemas da chamada "matemática moderna" dos nos 60. Eu 
>> peguei essa fase na escola. Como disse o Morris Kline, queriam passar 
>> Bourbaki em fatias para os alunos. Deve-se mesmo começar pelo concreto.  Que 
>> eu falei foi da possibilidade de se desenvolver ZF sem se falar em conjunto, 
>> e não da conveniência de se fazer isso.
>> Abraço
>> D
>> 
>> 
>> ------------------------------------------------------
>> Décio Krause
>> Departamento de Filosofia
>> Universidade Federal de Santa Catarina
>> 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
>> http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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>> 
>> Em 27/01/2013, às 13:20, Marcelo Finger <[email protected]> escreveu:
>> 
>>> Caros.
>>> 
>>> Sobre ENSINAR conjuntos como abstrações puras ou com analogias ao mundo 
>>> real, acho que defender intransigentemente a visão de abstração pura um 
>>> idealismo que JAMAIS será obtido.
>>> 
>>> Apresento, para fundamentar a minha opinião, um experimento realizado por 
>>> Leda Cosmides (U. Calif @ Sta Barbara).  Ela apresentou a um grupo de 
>>> pessoas o seguinte problema:  Suponha que v tenha um cj de cartas, em que 
>>> em uma face há uma letra e na outra um número.  Suponha que temos a regra: 
>>> "toda vogal deve ter um número par no outro lado".  Sobre a mesa temos 
>>> quatro cartas, mostrando as seguintes informações: A, C, 3 e 6.  Pergunta: 
>>> quais cartas devem ser inspecionadas para verificar que a regra está sendo 
>>> respeitada?
>>> 
>>> A maioria das pessoas ERROU, dizendo que precisava verificar só a primeira 
>>> carta ou a primeira e a última.  A resposta certa é a primeira e a terceira.
>>> 
>>> As mesmas pessoas foram apresentadas a outro problema.  Num bar, há pessoas 
>>> maiores e menores de 18 bebendo bebidas com ou sem álcool.  Temos quatro 
>>> pessoas: um menino de 16 anos, um vovô, um pessoa bebendo cerveja e outra 
>>> um suco de laranja.  Pergunta: quais pessoas precisam ser inspecionadas 
>>> para garantir que menores de 18 anos não podem beber bebida alcoólica.?  
>>> Neste caso, praticamente TODOS acertaram.
>>> 
>>> Acontece que os dois problemas são o mesmo.  E a conclusão é a de que o 
>>> cérebro humano é talhado especialmente para raciocinar sobre situações de 
>>> cumprimento de regras sociais, e tem mais dificuldade (mas não 
>>> impossibilidade) para lidar com abstrações.  
>>> 
>>> Se v busca didatismo, o caminho que passa por instanciações com situações 
>>> sociais, apesar de violar a "pureza" da abstração intransigente, é um 
>>> atalho com forte atrativo para ENSINAR SERES HUMANOS em geral.  As 
>>> primeiras vezes que as crianças ouvem falar em conjunto, elas só vão 
>>> entender se realizarem analogias.  Alguns anos depois da familiarização do 
>>> conceito a analogia pode ser esquecida, o que leva a alteração do próprio 
>>> conceito inicialmente "entendido" (o conceito primário de conjunto 
>>> dificilmente envolve infinitude, densidade, indução, etc).   Razões 
>>> evolutivas para isso não faltam.
>>> 
>>> Abraços
>>> 
>>> Marcelo
>>> 
>>> PS: Eu já vi este experimento mencionados em pelo 3 livros: "The Tipping 
>>> Point" de Malcolm Gladwell, "Grooming, Gossiping and the Origin of 
>>> Language", de Robin Dunbar, e tb em algum dos livros do Steven Pinker, acho 
>>> que "The Language Instinct".
>>> 
>>> 
>>> 
>>> 2013/1/27 Décio Krause <[email protected]>
>>>> Touché, JM.
>>>> 
>>>> 
>>>> 
>>>> ------------------------------------------------------
>>>> Décio Krause
>>>> Departamento de Filosofia
>>>> Universidade Federal de Santa Catarina
>>>> 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
>>>> http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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>>>> 
>>>> Em 26/01/2013, às 13:28, Joao Marcos <[email protected]> escreveu:
>>>> 
>>>> > A inferência se trata de um entimema.  A premissa oculta neste caso
>>>> > poderia ser "elementos de conjuntos são entidades abstratas".
>>>> >
>>>> > Pode ser que Hrbacek e Jech não concordem com esta premissa.  Outros
>>>> > autores concordariam.
>>>> >
>>>> > Esta é uma dificuldade usual de se escrever "textos básicos".  Até
>>>> > sobre o que é "básico" (como a própria definição de "lógica") é
>>>> > possível as opiniões diferirem, sem que nenhuma delas seja
>>>> > necessariamente idiota.
>>>> >
>>>> > JM
>>>> >
>>>> > 2013/1/26 Rodrigo Podiacki <[email protected]>:
>>>> >> "O autor chega a sugerir que um grupo de pessoas é um conjunto. Logo,
>>>> >> pode-se inferir, pessoas são entidades abstratas."
>>>> >>
>>>> >> Que inferência é essa? Se um grupo de determinadas coisas é um conjunto,
>>>> >> isso significa que as coisas que formam esse grupo também são um 
>>>> >> conjunto?
>>>> >> O grupo é abstrato, mas não seus elementos. Isso é demasiado básico, e
>>>> >> lamentável é eu ter que dizer isso para um professor de lógica.
>>>> >>
>>>> >> "A set is any collection, group, or conglomerate. So we have the set of 
>>>> >> all
>>>> >> students registered at the City University of New York in February 1998,
>>>> >> the set of all even natural numbers [...], the set of all pink 
>>>> >> elephants.
>>>> >> [...] the set of all molecules in a drop of water is not the same 
>>>> >> object as
>>>> >> that drop of water."
>>>> >>
>>>> >> -- Karel Hrbacek e Thomas Jech, *Introduction to set theory*. p. 1.
>>>> >
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>>> Marcelo Finger
>>> Department of Computer Science, Cornell University
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>>>  Departament of Computer Science, IME    
>>>  University of Sao Paulo 
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