Caro Diogo.

As religiões, em geral, não operam como um operador de trivialidade.
Ou seja, quando querem inferir algo, como a malignidade de casamentos
igualitários, não tratam de derivar a falsidade e, por ex-falso
quodlibet, inferir a malignidade do casamento entre homossexuais.

Não, o que as religiões fazem, muitas vezes, é adicionar preceitos aos
seus dogmas, vindos de interpretações dos escritos básicos ou -- na
falta destes -- da "tradição", que geram a conclusão desejada.
Ou seja, o maior trabalho dos teólogos não é a inferência, e sim o de
produzir a interretação que leva ao "axioma" que com um ou dois passos
leva à conclusão desejada.

Oo trabalho de argumentação religioso é, em grande parte, abdutivo,
onde se parte da conclusão para se forjar as premissas que levarão a
ele. Depois, para "justificar" tais premissas, emprega-se o que
estiver à mão: força, falácias de autoridade, ou alguma regra
não-lógica de preferência epistêmica.

O resultado pode parecer ser o de um operador de trivialidade, mas o
processo de inferência é bem diferente.

[]s

Marcelo


2013/5/5 Diogo Dias <[email protected]>:
> Julio,
>
> Penso que o conceito de over-belief não resolve todos os problemas da 
> filosofia da religião; nem mesmo resolve o conflito entre leitura 
> literal/alegórica de textos sagrados. Isto pois, um fundamentalista religioso 
> pode crer que perseguir infiéis (ou descrentes) seja uma condição necessária 
> para melhorar a vida da humanidade. Vemos isto claramente nos discursos 
> recentes contra o casamento igualitário, como se isso fosse um ataque à 
> "família" e aos "valores humanos".
>
> Creio que, do ponto de vista epistemológico, um dos principais problemas da 
> religião é a ideia de que a fé é um fundamento epistemológico legítimo. E 
> isto é problemático porque a fé funciona como uma espécie de "operador 
> trivial"' ou seja, dela pode-se derivar absolutamente qualquer coisa.
>
> Abraços,
>
> Diogo Dias
>
> Em 05/05/2013, às 15:37, Julio Stern <[email protected]> escreveu:
>
>> Eduardo:
>>
>> A primeira referencia que me ocorre eh o classico
>>
>> W.James (1902). The Varieties of Religious Experience.
>>
>> William James usa o conceito de "over-belief" (sobre-crenca?)
>> como um conceito no qual se cre (tem fe?) mesmo SEM evidencia
>> cientifica ou empirica (suficiente), em funcao das consequencias
>> que dela se pode derivar.
>>
>> Uma sobre-crenca eh valida (empiricamente nem verdadeira nem falsa)
>> se dela se derivam crencas consequentes que tornam nossa vida melhor.
>>
>> Pronto, estao resolvidos os problemas
>> de filosofia da religiao :-)
>>
>> Na minha visao, esta tematica esta intimamente relacionada a da
>> validade de leituras Literais versus leituras Alegoricas de
>> textos sagrados.
>> Posturas fundamentalistas aceitam uma leitura realista e literal,
>> e rejeitam quaisquer outras leituras que sejam incompativeis.
>>
>> A primeira vista, uma postura fundamentalista (ou uma
>> fundamentacao pseudo-cientifica) pode parecer (ou ser)
>> uma poderosa ferramenta de marketing.
>> A longo prazo, todavia, estes fundamentos eventualmente
>> colidirao desastrosamente com a realidade, ameacando os
>> ganhos rapidamente adquiridos com o marketing falacioso.
>>
>> Acho que quem tem genuino amor a suas sobre-crencas,
>> ficaria melhor aceitando-as como tal.
>>
>> Deixo aqui uma pergunta correlata para os entendidos
>> em Logica Meinongiana e similares:
>>
>> (1) Anjos e Serafins
>> tem o mesmo status de
>> (2) Pegasus e Unicornios?
>> ou de
>> (3) quadrados-redondos?
>> ou ainda de
>> (4) ondas-particula?
>> Sim?, nao?, por que?
>>
>> A metafisica (explicacoes causais) utilizada em conjuncao
>> com cada classe de objetos acima exemplificados, bem como
>> as consequencias derivadas destas explicacaoes causais,
>> tem algo a ver com o status ontologico dos mesmos objetos?
>> Como exatamente?
>>
>> ---Julio Stern
>>
>>
>> ----------------------------------------
>>> Date: Sun, 5 May 2013 13:59:48 -0300
>>> From: [email protected]
>>> To: [email protected]
>>> Subject: [Logica-l] Consequências epistêmicas
>>>
>>> Oi Julio (e todos),
>>>
>>> gostei muito do termo "consequências epistêmicas" que você
>>> usou neste trecho aqui:
>>>
>>>> Creio que nada mais ha a ser dito do Formalismo Logico.
>>>> The Laws of Form eh uma trivialidade do ponto de vista Logico-Formal.
>>>> Ja as consequencia epistemicas que o autor desenvolve a partir desta
>>>> trivialidade, para levar os incutos a beber das aguas pantanosas da
>>>> pseudo-ciencia, eh uma outra conversa...
>>>
>>> (Obs: criei um thread novo - o trecho anterior é desta mensagem:
>>> http://www.dimap.ufrn.br/pipermail/logica-l/2013-May/019013.html )
>>>
>>> Fiz uma procura rápida no Google, e por enquanto os links mais
>>> interessantes que eu encontrei foram:
>>>
>>> http://certaindoubts.com/?p=354#comm
>>> http://certaindoubts.com/?p=354#comment-1981
>>> http://philpapers.org/s/Philip%20Percival
>>> http://people.ku.edu/~ddorsey/cluelessness.pdf
>>>
>>> O trecho abaixo é do "comment-1981":
>>>
>>> "(...) certainly there are cases in which one can gain many true
>>> beliefs by purposely believing one falsehood. So if epistemic
>>> rationality is a matter of producing the epistemically best
>>> consequences, and consequences are epistemically ranked by the
>>> extent to which they fulfill the collective truth goal, then in
>>> these cases it is epistemically rational to purposely believe the
>>> falsehood. By believing that falsehood, one gains other true beliefs
>>> that more than make up for the loss."
>>>
>>> Quem tiver mais referências bacanas sobre estas idéias, por
>>> favor mande... esse tipo de discussão que está reaparecendo
>>> agora é recorrente, acho que seria bom termos ferramentas pra
>>> levantar o nível da discussão - porque praticamente todo mundo
>>> da lista "acredita" em alguma coisa "não-científica"; _como_,
>>> _por quê_ e _pra quê_?
>>>
>>> [[]],
>>> Eduardo Ochs
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Marcelo Finger
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