Caro Marcelo,

Você descreveu bem o processo de inferência religioso.
Quando falo que este processo leva à trivialização, quero dizer que, a partir 
deste mesmo procedimento,uma religião X pode deduzir que p é a vontade divina; 
e a religião Y deduz que não-p é vontade divina. E a fundamentação última para 
ambas é a fé. Isto pois, tradição, escritos sagrados, revelações divinas etc 
são, em última instância, justificadas pela fé.

Abraços,

Diogo
Em 05/05/2013, às 17:02, Marcelo Finger <[email protected]> escreveu:

> Caro Diogo.
> 
> As religiões, em geral, não operam como um operador de trivialidade.
> Ou seja, quando querem inferir algo, como a malignidade de casamentos
> igualitários, não tratam de derivar a falsidade e, por ex-falso
> quodlibet, inferir a malignidade do casamento entre homossexuais.
> 
> Não, o que as religiões fazem, muitas vezes, é adicionar preceitos aos
> seus dogmas, vindos de interpretações dos escritos básicos ou -- na
> falta destes -- da "tradição", que geram a conclusão desejada.
> Ou seja, o maior trabalho dos teólogos não é a inferência, e sim o de
> produzir a interretação que leva ao "axioma" que com um ou dois passos
> leva à conclusão desejada.
> 
> Oo trabalho de argumentação religioso é, em grande parte, abdutivo,
> onde se parte da conclusão para se forjar as premissas que levarão a
> ele. Depois, para "justificar" tais premissas, emprega-se o que
> estiver à mão: força, falácias de autoridade, ou alguma regra
> não-lógica de preferência epistêmica.
> 
> O resultado pode parecer ser o de um operador de trivialidade, mas o
> processo de inferência é bem diferente.
> 
> []s
> 
> Marcelo
> 
> 
> 2013/5/5 Diogo Dias <[email protected]>:
>> Julio,
>> 
>> Penso que o conceito de over-belief não resolve todos os problemas da 
>> filosofia da religião; nem mesmo resolve o conflito entre leitura 
>> literal/alegórica de textos sagrados. Isto pois, um fundamentalista 
>> religioso pode crer que perseguir infiéis (ou descrentes) seja uma condição 
>> necessária para melhorar a vida da humanidade. Vemos isto claramente nos 
>> discursos recentes contra o casamento igualitário, como se isso fosse um 
>> ataque à "família" e aos "valores humanos".
>> 
>> Creio que, do ponto de vista epistemológico, um dos principais problemas da 
>> religião é a ideia de que a fé é um fundamento epistemológico legítimo. E 
>> isto é problemático porque a fé funciona como uma espécie de "operador 
>> trivial"' ou seja, dela pode-se derivar absolutamente qualquer coisa.
>> 
>> Abraços,
>> 
>> Diogo Dias
>> 
>> Em 05/05/2013, às 15:37, Julio Stern <[email protected]> escreveu:
>> 
>>> Eduardo:
>>> 
>>> A primeira referencia que me ocorre eh o classico
>>> 
>>> W.James (1902). The Varieties of Religious Experience.
>>> 
>>> William James usa o conceito de "over-belief" (sobre-crenca?)
>>> como um conceito no qual se cre (tem fe?) mesmo SEM evidencia
>>> cientifica ou empirica (suficiente), em funcao das consequencias
>>> que dela se pode derivar.
>>> 
>>> Uma sobre-crenca eh valida (empiricamente nem verdadeira nem falsa)
>>> se dela se derivam crencas consequentes que tornam nossa vida melhor.
>>> 
>>> Pronto, estao resolvidos os problemas
>>> de filosofia da religiao :-)
>>> 
>>> Na minha visao, esta tematica esta intimamente relacionada a da
>>> validade de leituras Literais versus leituras Alegoricas de
>>> textos sagrados.
>>> Posturas fundamentalistas aceitam uma leitura realista e literal,
>>> e rejeitam quaisquer outras leituras que sejam incompativeis.
>>> 
>>> A primeira vista, uma postura fundamentalista (ou uma
>>> fundamentacao pseudo-cientifica) pode parecer (ou ser)
>>> uma poderosa ferramenta de marketing.
>>> A longo prazo, todavia, estes fundamentos eventualmente
>>> colidirao desastrosamente com a realidade, ameacando os
>>> ganhos rapidamente adquiridos com o marketing falacioso.
>>> 
>>> Acho que quem tem genuino amor a suas sobre-crencas,
>>> ficaria melhor aceitando-as como tal.
>>> 
>>> Deixo aqui uma pergunta correlata para os entendidos
>>> em Logica Meinongiana e similares:
>>> 
>>> (1) Anjos e Serafins
>>> tem o mesmo status de
>>> (2) Pegasus e Unicornios?
>>> ou de
>>> (3) quadrados-redondos?
>>> ou ainda de
>>> (4) ondas-particula?
>>> Sim?, nao?, por que?
>>> 
>>> A metafisica (explicacoes causais) utilizada em conjuncao
>>> com cada classe de objetos acima exemplificados, bem como
>>> as consequencias derivadas destas explicacaoes causais,
>>> tem algo a ver com o status ontologico dos mesmos objetos?
>>> Como exatamente?
>>> 
>>> ---Julio Stern
>>> 
>>> 
>>> ----------------------------------------
>>>> Date: Sun, 5 May 2013 13:59:48 -0300
>>>> From: [email protected]
>>>> To: [email protected]
>>>> Subject: [Logica-l] Consequências epistêmicas
>>>> 
>>>> Oi Julio (e todos),
>>>> 
>>>> gostei muito do termo "consequências epistêmicas" que você
>>>> usou neste trecho aqui:
>>>> 
>>>>> Creio que nada mais ha a ser dito do Formalismo Logico.
>>>>> The Laws of Form eh uma trivialidade do ponto de vista Logico-Formal.
>>>>> Ja as consequencia epistemicas que o autor desenvolve a partir desta
>>>>> trivialidade, para levar os incutos a beber das aguas pantanosas da
>>>>> pseudo-ciencia, eh uma outra conversa...
>>>> 
>>>> (Obs: criei um thread novo - o trecho anterior é desta mensagem:
>>>> http://www.dimap.ufrn.br/pipermail/logica-l/2013-May/019013.html )
>>>> 
>>>> Fiz uma procura rápida no Google, e por enquanto os links mais
>>>> interessantes que eu encontrei foram:
>>>> 
>>>> http://certaindoubts.com/?p=354#comm
>>>> http://certaindoubts.com/?p=354#comment-1981
>>>> http://philpapers.org/s/Philip%20Percival
>>>> http://people.ku.edu/~ddorsey/cluelessness.pdf
>>>> 
>>>> O trecho abaixo é do "comment-1981":
>>>> 
>>>> "(...) certainly there are cases in which one can gain many true
>>>> beliefs by purposely believing one falsehood. So if epistemic
>>>> rationality is a matter of producing the epistemically best
>>>> consequences, and consequences are epistemically ranked by the
>>>> extent to which they fulfill the collective truth goal, then in
>>>> these cases it is epistemically rational to purposely believe the
>>>> falsehood. By believing that falsehood, one gains other true beliefs
>>>> that more than make up for the loss."
>>>> 
>>>> Quem tiver mais referências bacanas sobre estas idéias, por
>>>> favor mande... esse tipo de discussão que está reaparecendo
>>>> agora é recorrente, acho que seria bom termos ferramentas pra
>>>> levantar o nível da discussão - porque praticamente todo mundo
>>>> da lista "acredita" em alguma coisa "não-científica"; _como_,
>>>> _por quê_ e _pra quê_?
>>>> 
>>>> [[]],
>>>> Eduardo Ochs
>>>> [email protected]
>>>> http://angg.twu.net/
>>>> _______________________________________________
>>>> Logica-l mailing list
>>>> [email protected]
>>>> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
>>> _______________________________________________
>>> Logica-l mailing list
>>> [email protected]
>>> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
>> _______________________________________________
>> Logica-l mailing list
>> [email protected]
>> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
>> 
> 
> 
> 
> -- 
> Marcelo Finger
> Department of Computer Science, Cornell University
> 
> on leave from:
> Departament of Computer Science, IME
> University of Sao Paulo
> http://www.ime.usp.br/~mfinger
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a