Oi Valéria.

Eu entendo perfeitamente o que v quer dizer com "cansa, sabe?"

Eu sou color-blind, no sentido de que não saberia dizer a raça de mais da
metade dos meus alunos (donde a minha opinião sobre o que vale o conceito
de raça: nada) mas não sou gender-blind.  Mesmo em eventos em que há a
presença de algumas mulheres, a postura é, em geral, masculina: um bando de
gente batendo a mão no peito e mostrando os dentes.

Cansa, né?

[]s

Marcelo

PS: Essa história de "Gentlemen and Valéria" é bastante pitoresca.  Diria,
até, simpática da parte do palestrante, a não ser pela solidão que ela
revela.


2016-12-05 21:52 GMT-02:00 Valeria de Paiva <[email protected]>:

> oi Hermogenes,
>
> uma estorinha sobre a falta de mulheres em encontros logicos: quando o
> British Logic Colloquium foi ressuscitado no final dos anos 80 em
> Cambridge, o Prof Adrian Mathias (set theorist, naquela altura em Cambridge
> e membro de Peterhouse, o "college" mais antigo de Cambridge e naquela
> altura ainda so' masculino) abriu o encontro dizendo "Gentleman...", parou,
> olhou pra baixo e acrescentou "and Valeria", pois eu estava na primeira
> fila. nesse encontro acho que tinham uns 80 logicos mais ou menos. cansa,
> sabe? 'e chato nao ter alguem pra perguntar onde e' o banheiro, essas
> coisas...
>
> abracos,
> Valeria
>
> 2016-12-05 10:27 GMT-08:00 Hermógenes Oliveira <
> [email protected]>:
>
>> Joao Marcos <[email protected]> escreveu:
>>
>> >>> Esta é mais uma iniciativa válida, Valeria, com um comitê organizador
>> >>> de primeira (e de Primeiro Mundo anglófono).
>> >>
>> >> Bem, se a razão de ser desse comentário diz respeito ao país de origem
>> e
>> >> à língua materna, posso acrescentar que reconheço apenas três nomes no
>> >> comitê, nenhum deles de "Primeiro Mundo anglófono": Valéria de Paiva
>> >> (brasileira), Alexandra Silva (portuguesa) e Adriana Compagnoni
>> >> (argentina).
>> >
>> > Não entendi bem o aparte...  Todas trabalham no Primeiro Mundo
>> > anglófono, como está claro.  Coincidência?  Ou um ponto a mais a cujo
>> > respeito valeria a pena refletir?
>>
>> E eu continuo sem entender o propósito da observação sobre "Primeiro
>> Mundo anglófono".  De primeiro, cogitei que o ponto dizia respeito à
>> questão de diversidade cultural, étnica ou nacional.  Agora, o ponto
>> parece dizer respeito ao endereço e/ou vínculo empregatício?
>>
>> >> acrescento o seguinte:
>> >>
>> >> Talvez o estresse mencionado na mensagem de divulgação seja melhor
>> >> compreendido, e talvez mesmo percebido como óbvio, por mulheres que
>> >> atuam na área de lógica (para as quais, enfim, o evento é direcionado).
>> >> Mas, fazendo um exercício de empatia, digo que, se eu entrasse numa
>> sala
>> >> de conferência que estivesse repleto exclusivamente de mulheres,
>> >> certamente me sentiria inicialmente meio fora de lugar e talvez mesmo
>> >> buscasse verificar se não teria entrado numa espécie de lavatório
>> feminino
>> >> por engano.  Porém, mulheres que atuam na área de lógica passam por
>> >> situação similar rotineiramente.
>> >
>> > De minha parte, eu certamente não penso que entrei em um lavatório nas
>> > ocasiões em que entro em salas nas quais as mulheres são maioria.
>>
>> Nunca aconteceu comigo de eu entrar numa *sala de conferência*, num
>> evento acadêmico, onde houvessem mais de vinte pessoas e *todas* fossem
>> do sexo feminino.  Se pretende dizer que isso já aconteceu contigo, fico
>> sinceramente surpresso.  A observação sobre o lavatório foi uma
>> tentativa, aparentemente fracassada, de tratar o assunto com um pouco de
>> bom humor[1] (com uma referência indireta à citação de Hilbert).  Para
>> esclarecer, isso nunca aconteceu comigo, mas se eu entrasse numa sala de
>> conferência com, digamos, 200 mulheres e nenhum homem, eu obviamente não
>> pensaria que tivesse realmente entrado num lavatório feminino.  Ainda
>> assim, provavelmente me questionaria se alguma variável envolvendo
>> gênero me escapara: talvez o evento é somente para mulheres, etc.  O
>> ponto é que a maioria das mulheres que atuam na área de lógica, contudo,
>> certamente já tiveram a experiência de entrar em salas de conferência
>> cheias *sem nenhuma outra mulher presente*.  Porém, muitos crêem que,
>> neste caso, está tudo normal e não há nenhuma variável de gênero
>> envolvida, pois não há ninguém *proibindo* as mulheres de participar.
>>
>> >> Se o ambiente não fosse tão dominado por homens e não houvesse tanto
>> >> assédio, creio que tanto homens quanto mulheres se sentiriam mais à
>> >> vontade para discutir ciência.
>> >
>> > Como são estas coisas nas áreas em que as mulheres são maioria?
>>
>> Não faço idéia.  Mas não me preocupa tanto o fato de termos um sexo *em
>> maioria*.  Já participei de seminário (em filosofia, mas não em lógica)
>> onde as mulheres fossem maioria (algo como 6 mulheres e 4 homens).  O
>> problema é quando, com frequência, um sexo está absolutamente ausente ou
>> em *maioria esmagadora*. Em inúmeros ajuntamentos menores (seminários e
>> etc.) da área de lógica que participei, ou bem não havia mulheres (caso
>> mais comum) ou havia apenas uma (raro) ou, no máximo, duas (raríssimo)
>> mulheres presentes.
>>
>>
>> Notas:
>> [1]  https://broodsphilosophy.wordpress.com/2007/12/16/how-to-tel
>> l-if-you-suck-at-telling-philosophical-jokes/
>>
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>> Hermógenes Oliveira
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 Marcelo Finger
 Departament of Computer Science, IME
 University of Sao Paulo
 http://www.ime.usp.br/~mfinger

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