Caro JM, Gisele e demais

> na citada universidade não foi feito nenhum esforço de *comparar* o resultado
> obtido através do PBL com o resultado obtido em outras formas tradicionais de
> ensino.

Gostaria de apontar vocês para o trabalho do Paulo Blikstein, de
Stanford, no ensino de tecnologia, que MEDE e mostra que apresentar um
problema concreto ANTES de ensinar a teoria traz maior grau de fixação
dos conceitos apresentados.  Ou seja, os alunos comprovadamente
"aprendem mais" se forem desafiados com a pensar no assunto antes de
receberem uma exposição teórica.

Isso, com a vantagem da retrovisão, é tão óbvio que me deixa perplexo
por que quase nenhum curso expositivo que eu dei (dava) ou assisti não
usa esse método.

[]s

Marcelo


2017-07-05 11:56 GMT-03:00 Joao Marcos <[email protected]>:
> Prezada Gisele (S):
>
> Fico contente em vê-la participando das discussões da LOGICA-L, e
> aproveito para parabenizá-la pela organização do *IV Workshop de
> Filosofia e Ensino*, semana passada:
> https://wfeufrgs.wordpress.com/
>
>> O texto em questão, embora seu contexto seja estadunidense, merece alguma
>> atenção no Brasil pelo simples fato de que a filosofia corre, atualmente, o
>> risco de não mais ser componente curricular obrigatório nas escolas de
>> Ensino Médio (assim como muitas outras, vale dizer). No nosso contexto,
>> quando então se intensifica a produção de argumentos em favor da presença da
>> filosofia na fase média de ensino básico, não é rara uma modalidade de
>> defesa calcada em pesquisas como as mencionadas no texto, louvando-se as
>> capacidades de pensamento crítico supostamente desenvolvidas nas aulas de
>> filosofia. Daí que o texto nos seja relevante, para compararmos com o que se
>> diz por aqui.
>>
>> (Digo "supostamente" porque nunca fica muito claro, nos eventos e textos em
>> que o tema é discutido, o que se entende por pensamento crítico, nem se
>> explicitam seus vínculos com a lógica stricto sensu - tampouco se oferecem
>> exemplos de experiências didáticas de sucesso nesse sentido. Os livros
>> didáticos selecionados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) até o
>> último edital possuem capítulos de lógica muito fracos, desconectados dos
>> demais, e é bem sabido que a maioria dos professores de filosofia do Ensino
>> Médio não tiveram boas aulas de lógica durante a graduação (o que gera
>> insegurança para trabalha-la quando se tornam professores, um nefasto
>> círculo de expectativas antimatemáticas entre postulantes a estudantes e
>> futuros professores de filosofia) nem tampouco uma preparação para o
>> trabalho didático com lógica em contextos de escola média e fundamental.
>> Isso tudo sem contar boa parcela dos envolvidos com ensino de filosofia que
>> simplesmente desprezam a lógica como instrumento de pensamento e filosofia.)
>
> O conteúdo do seu relato é realmente preocupante!
>
> Com relação aos pontos de contato entre o conteúdo do texto que
> circulei antes e a realidade brasileira, choca-me em particular
> perceber a forma como a educação no Brasil é muitas vezes tratada de
> uma forma puramente ideologizada --- mesmo por cientistas da área, e
> pelos especialistas nacionais em teoria pedagógica.  Recordo-me por
> exemplo de uma reunião da qual participei há dois anos em um instituto
> da minha universidade, na qual um colega de outra universidade
> apresentou as inúmeras vantagens do problem-based learning (PBL), tal
> como aplicado em um curso da área de TI de sua universidade, e todos
> saíram da palestra maravilhados com tudo aquilo...  Uma postura
> minimamente crítica e científica permitiria contudo identificar ali
> dois problemas.  O primeiro era que na citada universidade não foi
> feito nenhum esforço de *comparar* o resultado obtido através do PBL
> com o resultado obtido em outras formas tradicionais de ensino.  De
> fato, *todas* as turmas daquele curso, lá, são submetidas ao PBL desde
> o início!  O segundo estava no fato de que no blog da Communications
> of the ACM acabava de ser publicado um post que comentava que *não há
> evidências* de que PBL, por mais bonito que pareça, realmente funciona
> tão bem quanto desejaríamos:
> http://cacm.acm.org/magazines/2015/2/182637-whats-the-best-way-to-teach-computer-science-to-beginners/fulltext
> Noto que este post cita um artigo extremamente influente [1], cujos
> autores comentam:
>   "Why do outstanding scientists who demand rigorous proof for
>   scientific assertions in their research continue to use and indeed
>   defend on the bias of intuition alone, teaching methods that are
>   not the most effective?"
> Creio que isto vai ao encontro de algumas das preocupações do Sesardic.
>
> A propósito, há um outro paper do Sesardic (com Rafael De Clercq) [2]
> que comenta sobre a *disparidade de gênero* na área de Filosofia e
> coloca em questão as alegadas evidências da hipótese segundo a qual
> haveria algum tipo de *discriminação* contra as mulheres na área de
> Filosofia.
>
> [1] Why Minimal Guidance During Instruction Does Not Work: An Analysis
> of the Failure of Constructivist, Discovery, Problem-Based,
> Experiential, and Inquiry-Based Teaching
> http://www.cogtech.usc.edu/publications/kirschner_Sweller_Clark.pdf
>
> [2] Women in Philosophy: Problems with the Discrimination Hypothesis
> https://www.nas.org/articles/women_in_philosophy_problems_with_the_discrimination_hypothesis
>
>> Há muito ainda por ser pesquisado em termos de didática da lógica entre nós,
>> por isso me alegrou muito a notícia de que a nova diretoria da SBL está
>> sensível ao tópico.
>
> Sem dúvida é saudável (é de se saudar) esta iniciativa da nova
> Diretoria da SBL!  Suponho que teremos mais notícias em breve sobre
> estas coisas, de Cassiano e outros.  A propósito, há dois anos
> participei da organização do *Fourth International Congress on Tools
> for Teaching Logic* (http://ttl2015.irisa.fr/), em Rennes.  Há uma boa
> chance de que o próximo evento da série ocorra no Brasil, em conjunto
> com o próximo EBL.
>
> Ah, vale notar que há nesta lista outros pesquisadores com bastante
> envolvimento na área de Ensino (incluindo o uso de MOOCs).  Seria
> muito bom vê-los participando desta discussão, e das iniciativas
> correlatas!
>
> Abraços,
> Joao Marcos
>
> --
> http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
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-- 
 Marcelo Finger
 Departament of Computer Science, IME
 University of Sao Paulo
 http://www.ime.usp.br/~mfinger

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